Para pescar achigãs, a primeira coisa que temos que conhecer é o seu comportamento e a forma como se relaciona com o ambiente exterior, através dos seus sentidos. Aqui fica uma breve abordagem a este tema.

Alimentação

O comportamento deste peixe é fundamentalmente estruturado em duas grandes actividades. A alimentação, importante para a manutenção da sua existência como ser vivo e a reprodução, como factor de manutenção da sua espécie e especificamente dos seus genes.

Como predador de topo, o achigã alimenta-se duma enorme variedade de seres que se podem encontrar habitualmente no meio aquático e que com ele se relacionem, ou que por acidente lá se encontrem.

Assim, no meio em que vive são presas frequentes outros peixes, onde estão incluídos os da mesma espécie, lagostins de água doce, batráquios, insectos aquáticos, cobras de água, etc. O lagostim de água doce constitui a base da alimentação nas albufeiras portuguesas, seguido pela perca-sol e recentemente o alburno. O recurso alimentar que se relacionam com o meio aquático são em grande parte as libelinhas, na sua fase de reprodução uma vez que colocam os ovos na água, tornando-se assim presa fácil para este peixe que de um salto, as captura em pleno voo. As fontes de alimento que caem acidentalmente na água podem ser de uma grande variedade e porventura as mais inesperadas. Os gafanhotos, borboletas e outros insectos, a par de pequenos pássaros que caem dos ninhos que se encontrem em estruturas sobre a água ou pequenos mamíferos, podem perfeitamente servir de alimento ao achigã.

José Torres, guia Naturpesca com um bom exemplar

Como muitos predadores, o achigã espera as suas presas emboscado. Procura estruturas que disfarcem a sua presença, como rochas salientes, paus, árvores e arbustos submersos, vegetação aquática, e outro tipo de irregularidades para se mimetizar com elas. Aproveita quase sempre a sombra, para tirar partido de poder ver para zona iluminada, estando ele próprio num local onde é difícil ser detectado. Resumindo, pretende apenas ver sem ser visto. Quando a potencial presa se aproxima e lhe seja favorável o ataque, rapidamente reage, aspirando de uma só vez o alimento, pela enorme e desproporcional boca.

Os cinco sentidos

O sentido que o achigã utiliza com mais frequência e aquele que é mais vital para a sua sobrevivência é sem sombra de dúvida, a visão. Os olhos, ao estarem colocados um de cada lado, só lhe permitem a visão bifocal a escassos centímetros. No entanto, conseguem distinguir cores se a luz for suficiente, sendo o vermelho a cor que melhor detectam, segundo estudos efectuados. Em situações de pouca luz, apenas têm visão monocromática (preto e branco), mas apesar disso, vêm melhor que os humanos, nas mesmas condições de luminosidade. Atendendo ao facto dos dois olhos se encontrarem no topo da cabeça, indiciam que estão preparados para detectar facilmente presas ou outro alimento que esteja num plano superior.

A audição é provavelmente o segundo sentido mais utilizado. Possuem ouvidos internos situados logo atrás dos olhos, que lhes permitem captar sons de alta-frequência. De ambos os lados possuem uma linha a meio do corpo, perfeitamente identificável, conhecida pela linha lateral. Esta estende-se desde os opérculos até á cauda e permite detectar sons de baixa frequência, produzidos até cerca de 25 metros de distância.

Gomes Torres, guia Naturpesca com um achigã que reagiu ao som  de uma Popper

Gomes Torres, guia Naturpesca com um achigã que reagiu ao som de uma Popper

O olfacto funciona pouco antes do peixe morder qualquer coisa e a uma distância relativamente curta. No entanto, à medida que o peixe cresce, este sentido torna-se mais apurado, visto que os órgãos sensitivos vão-se desenvolvendo com a idade, sendo por isso em maior numero num peixe com dois quilos do que num com trezentas gramas, por exemplo.

O gosto e o tacto são utilizados logo que se dá o contacto do peixe com aquilo que mete na boca. De salientar que nos peixes, o tacto está na boca visto que é a única forma que têm para “pegar” ou contactar com o que os rodeia. Como se deve calcular, um achigã terá mais probabilidades de rejeitar de imediato um objecto duro e sem qualquer tipo de sabor, do que um que seja macio e que liberte uma substância que o paladar lhe sugira algo comestível. Atualmente utilizamos com frequência amostras de plástico mole impregnado de cheiro e de sabor, uma vez que estes dois sentidos estão interligados. Inclusive existem produtos á venda no mercado que são utilizados para dar cheiro e sabor, às amostras que não os trazem de origem, como é o caso dos iscos artificiais, fabricados em madeira ou plástico.

O achigã usa todos estes sentidos para se relacionar com o ambiente exterior, para a sua alimentação e reprodução. Conhece-los é mais um trunfo para o pescador, de forma a compreender o seu comportamento.

Gomes Torres

José Gomes Torres tem 48 anos e pesca desde os 15 anos de idade, praticando várias modalidades. Desde muito cedo esteve ligado a Clubes, Associações de Pesca e Náutica de Recreio, assumindo diversos cargos nas respetivas Direções, condição que ainda mantém. Fez competição na pesca embarcada ao achigã, onde conquistou dois títulos nacionais da APPA -– Associação Portuguesa de Pesca do Achigã, tornando-se colaborador permanente em diversas revistas especializadas de pesca. Faz fotografia por gosto e pela necessidade de ilustrar os textos que produz. Atualmente contribui no desenvolvimento de equipamentos de pesca para uma marca nacional e colabora nas duas únicas publicações nacionais ligadas a esta atividade, a revista “Mundo da Pesca” e o “Jornal da Pesca”.

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