Este artigo é a continuação do artigo Pescar e libertar é o que está a dar.

3 – Pescar e libertar é a mesma coisa que pesca sem morte? Os peixes depois de libertados não vão morrer?

Libertar as nossas capturas, por si só, não garante a sua sobrevivência. É um facto conhecido de todos os pescadores. Há cerca de seis anos, um amigo mexicano deu-me a conhecer um estudo que apontava para a posterior morte de 40 a 70% dos peixes pescados e pesados vivos em provas dos seus circuitos. De facto, depois de assimilarmos a ideia de que devemos de libertar os peixes que pescamos temos de aprender a manuseá-los de forma minorar a mortalidade subsequente.

A primeira coisa que temos de perceber é que a força da gravidade não se sente da mesma forma dentro e fora de água. Basta mergulharmos na água para percebermos isso de imediato. Sendo assim, o peso dos peixes e a sua relação com a estabilidade dos seus órgãos internos é o primeiro dos fatores que temos de ter em conta. O peixe deve estar fora de água o mínimo de tempo possível. Quanto maior o peixe, mais fácil será a rotura dos seus órgãos internos, por isso, com os peixes acima de quilo e meio temos de ter ainda mais cuidados de vários tipos: não o segurar na vertical por períodos de tempo acima de alguns segundos, ou seja, para a foto ou para aguardar uma pesagem, devemos manter o peixe na horizontal, e de preferência dentro de água, mas mais que isso, nunca devemos forçar a mandíbula inferior de forma a aguentar o seu peso, isso é meia morte, até porque vai impedir o peixe de se alimentar convenientemente no futuro.

Nesta posição um achigã grande pode suportar melhor o momento fotográfico

Nesta posição um achigã grande pode suportar melhor o momento fotográfico

Os peixes têm um muco externo que faz parte do seu sistema imunitário, quando lhe tocamos com as mãos secas e/ou quentes vamos causar damos nessa camada que depois poderá permitir agressões de vírus e bactérias que partilham o seu habitat. Portanto, molhar as nossas mãos antes de o agarrarmos garante menos danos pela humidade, mas também por baixar a nossa temperatura. Como sabem os peixes são animais de sangue frio e muito sensíveis às variações que determinam o seu metabolismo e, como tal, a forma como reagem à comida.

Voltemos ao momento da captura. Arrancar um peixe da água é um trauma enorme para ele, como devem calcular. Normalmente não usamos o camaroeiro, no entanto, com os peixes maiores façam esse esforço. Se estiverem a pescar da margem, aproximem-se o mais possível do peixe e evitem levantar da água peixes com mais de quilo. Evitem também o arrastamento, a menos que a margem seja suave, se estiver húmida e se não tiver pedras ou paus que possam ferir o peixe. Mas o uso de um bom camaroeiro, de malha suave e não abrasiva, é a melhor garantia em todos os aspetos: garante a captura e ajuda muito à posterior sobrevivência do espécime. Depois de o termos controlado, a melhor forma é segurá-lo pela mandíbula inferior sem o forçar, tratamos de lhe retirar o anzol. Nesta fase é muito importante o uso de alicates porque os nossos dedos nem sempre ajudam tão bem. Se o peixe tiver o anzol nos arcos branqueais ou próximo, devemos ter o máximo de cuidado para evitar o sangramento. Se sangrar, a primeira coisa a fazer é mergulhá-lo na água de onde veio, porque isso muitas vezes ajuda à coagulação. Já assisti a casos em que é instantâneo. Se persistir a hemorragia, devemos oxigená-lo bem antes de o libertarmos.

Quanto a anzóis, é bom que se saiba que, quando um anzol fica espetado na entrada do estômago e não se consegue retirar com facilidade, é melhor que se deixe ficar, cortando-se apenas a linha. Claro que o ideal é retirá-lo cortando a parte da farpa do anzol, mas, se o peixe for pequeno, dificultando a manobra, ou se o anzol estiver de forma que seja difícil cortar a ponta, então, é preferível deixar ficar o anzol, cortando-se a parte que se vê.

Segurar os peixes grandes na posição vertical para a fotografia deve ser uma manobra rápida

Segurar os peixes grandes na posição vertical para a fotografia deve ser uma manobra rápida

Se quisermos ainda começar antes de lançarmos a amostra à água podemos amaçar as farpas dos anzóis. Eu sei que vamos perder mais peixe e que nos vai ser mais difícil controlar, mas a sua libertação é muito mais fácil. No caso da competição das trutas é obrigatório e os pescadores já se adaptaram, penso que pode acontecer o mesmo na pesca do achigã nos anos mais próximos. É apenas mais um desafio, aliás, há alguns anos atrás, a Gamakatsu lançou um anzol para achigã já sem a farpa… Mas parece ter sido descontinuado. Pessoalmente acho que é esse o caminho mais correto e que vamos ter de nos adaptar mais tarde ou mais cedo.

No momento da libertação do peixe também é necessário ter alguns cuidados. Sempre que se trate de um peixe que tenha dado muita luta, que tenha sangrado ou que pareça em mau estado, devemos fazer oxigenação. Esta oxigenação é muito simples de fazer e muito eficaz porque coloca o peixe no seu estado normal antes de ser libertado. Basta segurarmos o peixe pela boca e pela cauda e executarmos movimentos de vaivém obrigando a água a entrar pela boca. Ao fazer este movimento a água passa pelas guelras e o peixe é obrigado a respirar e a retomar o seu estado normal.

Nunca se deve atirar um peixe para a água, especialmente os peixes acima de meio quilo, mas, de a margem for pouco inclinada e o peixe não conseguir nadar na profundidade que tem, é preferível atirá-lo suavemente e de forma que não absorva o impacto com a barriga, é melhor que entre de lado ou de cabeça. Outra opção será sempre escolher outra zona mais profunda se houver. No caso dos peixes grandes e dos que necessitem de oxigenação é preferível escolher-se uma zona com mais profundidade.

Concluindo, pescar e libertar pode ser o início da pesca sem morte, mas não é a mesma coisa em rigor. É necessário ter muitos cuidados para aproximarmos um conceito do outro e transformá-los numa atitude.

4 – E se ferir um peixe durante a captura, devo deixá-lo na água? O que fazer quando pescamos muito fundo e os peixes ficam a boiar? Se o peixe sangrar morre? Se um peixe ficar à superfície o que devo fazer?

Se ferirmos um peixe durante a captura devemos ser capazes de avaliar a sua condição, se virmos que pode sobreviver devemos sempre libertá-lo, se percebermos que vai morrer de certeza podemos agir de duas maneiras: trazer o peixe e consumi-lo ou dar a alguém que o consuma; ou deixá-lo na água porque, mesmo morto, vai contribuir para a alimentação de outros animais e para o desenvolvimento de plâncton. Eu deixo lá o peixe, mesmo morto.

Órgãos internos do achigã

Órgãos internos do achigã

Quando pescamos a profundidades superiores aos nove metros é normal que os peixes não consigam descomprimir a bexiga-natatória na rápida subida, o que vai fazer com que fiquem inchados e não consigam afundar, às vezes nem conseguem mesmo manter-se de forma a poderem respirar convenientemente. Então temos de fazer uma de duas coisas: devolvê-lo de imediato para que ele volte à profundidade onde estava, se conseguir, se não conseguir vamos pela segunda opção: perfurar a bexiga-natatória com uma agulha de ministrar vitaminas, ou seja, com alguma espessura. Este procedimento é de evitar e deve ser um último recurso, uma vez que é invasivo e corremos sempre o risco de atingir um outro órgão, provocando danos irreversíveis e até mortais. O local a perfurar deve ser calculado imaginando uma linha que ligue o intervalo da barbatana dorsal e o ânus, fazendo a perfuração a um terço da linha a contar de baixo, de forma que a agulha entre num anglo de 45 graus em direção à cabeça do peixe. Perfura-se sempre entre escamas ou retira-se uma escama. Depois da perfuração, que deve ser entre meio e um centímetro, deixa-se sair gás até que o peixe assuma a sua posição normal na água. Claro que é melhor executar a manobra dentro de água e o mais rápido possível. Procurem na Internet, num motor de busca, pelos termos «fizzing bass» que encontrarão imensas explicações, inclusive filmes onde se percebe melhor como proceder. Aqui fica um deles:

 

Um peixe pode sangrar e não morrer. É melhor que não sangre e até é raro isso acontecer. Quando sangra, normalmente, é porque se atingiu um dos arcos branqueais com o anzol, aí devemos ter muito cuidado. Primeiro, como já vimos acima, podemos colocá-lo na água de onde saiu para ver se estanca se não estancar de imediato devemos manuseá-lo o mais rápido possível, oxigenando-o rapidamente e deixando-o regressar ao sei ambiente… Podemos apenas esperar que corra tudo bem, a partir desse momento já não controlamos, mas é preferível do que assumirmos que vai morrer e trazê-lo para casa…

Os peixes de barriga para o ar não estão mortos - foram pescados muito fundo e não conseguiram «descomprimir» a bexiga natatória

Os peixes de barriga para o ar não estão mortos – foram pescados muito fundo e não conseguiram «descomprimir» a bexiga natatória

Se o peixe depois de libertado ficar à superfície e não tiver a bexiga-natatória inchada, então devemos recolhê-lo de novo e oxigená-lo. Muitas vezes entram em estado de choque e não recuperam o reflexo respiratório ficando à tona com os opérculos fechados, nesses casos temos de os despertar de algum modo. O ideal é recuperá-lo e proceder à sua oxigenação, mas, por vezes, basta que se lhe toque para ele voltar à normalidade.

Conclusões

Só podemos contar CONNOSCO. Não nos temos de comparar com os outros: soltamos porque queremos e não temos nada a ver com as atitudes alheias, gostemos ou não. Um peixe libertado, pelo menos, já duplicou a sua capacidade de nos dar o prazer da sua luta. Depois de morto não é indiferente o seu destino, na água faz mais falta. Pescar e libertar é APENAS o primeiro passo para pesca sem morte. Sejamos CONSCIENTES pesquemos e libertemos com todos os CUIDADOS!

VÃO VER QUE NÃO DÓI NADA…

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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