Uma das coisas que mais confunde os iniciados, e não só, na pesca do achigã é a questão de escolher uma cor que leve os achigãs directamente à sua amostra, seja ela de plástico mole, de plástico rijo ou de arame, chapa e chumbo. Desiludam-se os que pensam que existe uma cor certa e que isso se sobrepõe a tudo o resto. As escolhas certas têm mais a ver com o tipo de apresentação que determinado isco artificial nos proporciona executar, sendo a cor mais um complemento do que a questão fulcral. É mais difícil saber quando devemos usar um determinado tipo de amostra do que escolher a cor certa.

Da Física aprendemos que a cor é uma propriedade que os materiais têm que lhes permite reflectir a luz numa determinada cor do espectro perceptível pelos nossos olhos. Daí se pode depreender que se não houver luz, tudo será negro, e também que, à medida que a profundidade aumenta, o decréscimo de penetração de luz altera essa cor até tudo ficar negro. Tanto quanto se sabe as últimas cores a desaparecer são os lilases. Um material que reflicta vermelho, a dois metros de profundidade, numa água transparente e num dia de boa luminosidade, reflectirá castanho.

Cores, padrões, que papel têm na pesca do achigã...

Cores, padrões, que papel têm na pesca do achigã…

O que nos ensinam os manuais mais avalizados é que as cores claras devem ser usadas em águas claras, as escuras em águas escuras e as cores vivas em dias de céu nublado, ou em horas de menor visibilidade. A escolha tem de ter em atenção o estado em que vamos encontrar os peixes. Se eles estiverem activos a escolha da cor pode não ser o mais importante. Os achigãs podem ser realmente selectivos se estiverem a comer, mas nem sempre assim sucede. Como é do nosso conhecimento, os seus ataques não se confinam à necessidade de se alimentarem, muitas vezes atacam por irritação, por agressividade, por necessidade de defenderem o seu território e… por tantos outros motivos de que nunca viremos a suspeitar sequer, dado tratar-se de um animal que reage a instintos, uns mais básicos que outros, mas todos eles importantes na sua vida. Por exemplo, a curiosidade de um achigã pode levá-lo a atacar uma amostra, em determinadas circunstâncias e noutras não. Depende muitas vezes mais da forma como essa amostra lhe é apresentada que da sua cor ou padrão de cores.

Voltando às cores, é normal que tentemos «alimentar» os achigãs quando vamos à pesca, isto é, a nossa primordial aproximação às cores passa por oferecermos aos achigãs aquilo que pensamos que eles querem comer. Em última análise, aprendemos que mesmo com o estômago cheio, um peixe não deixará de atacar uma amostra se ela tiver o tamanho ideal, neste caso deve ser pequena e parecer-se com algo fácil de comer. Como sabemos isto vamos, em noventa por cento dos casos, tentar arranjar uma amostra ou um conjunto que se assemelhe a algo de comestível.

Variedade de amostras de vinil com cores e formas naturais

Variedade de amostras de vinil com cores e formas naturais

Se encontramos uma água muito transparente vamos seleccionar criteriosamente algo que se pareça com a comida mais abundante nesse momento nessa massa de água.

Tomemos como exemplo o lagostim. Se vamos colocar um lagostim de plástico mole que cor devemos escolher? Sabemos que há lagostins mais esverdeados, outros vermelhos e outros ainda mais para o castanho… Como vamos sair deste dilema? A melhor solução é tentarmos ver alguns dos lagostins e imitar a sua cor, mas é muito pouco prático, portanto, o que fazemos é usar a nossa intuição e escolher o que nos parece ser mais correcto naquela situação. Aquilo a que chamamos intuição pode ter muito mais a ver com a nossa memória e com o que acumulamos. Para quem dá os primeiros passos, é bom que fique desde já a saber que não há caminhos fáceis, nem atalhos: nada, mas mesmo nada, pode substituir as nossas experiências de pesca.

Parece quase ameaçador a forma como quis deixar a última sentença bem clara, mas, na verdade, meus amigos, não é motivo para entrarem em pânico. Em grande parte das nossas pescarias a cor não vai ser o elemento determinante como muitos querem crer.

A indústria levou a que um grande leque de cores e de padrões possa ser apresentado nas lojas de pesca da actualidade. Essa quantidade pode até enervar alguns, que ficam sem saber se estão a comprar a cor certa, porém, a cor certa é aquela que estiver dentro de água quando um achigã atacar. Há pouco tempo li num artigo americano sobre esta questão que «uma cor nunca está errada se está a capturar peixe».

Parece mais que óbvio, mas esta frase é sábia e deixa um recado muito importante aos pescadores que já fixaram algumas cores como boas e outras cores como más, nunca se pode afirmar que o chartreause ou o vermelho estão errados se eles estiverem a dar resultado.

Numa das primeiras provas que se realizaram no Castelo do Bode, alguém teve imenso êxito com um spinner chartreause, mas mesmo todo dessa cor, lâminas e tudo… Alguns pescadores tiveram a desfaçatez de pensar que estava errado… Na sua ideia não podiam conceber que numa água transparente uma cor tão viva desse resultado… Porém, tinha dado e isso colocou essa cor entre as melhores para essa massa de água. Ao contrário de «estar errado», e a prova estava à vista, passou a fazer parte de um padrão, passou a ser mais uma arma. A lição a retirar daqui é que nunca devemos abordar a pesca com ideias preconcebidas, mas sim com um espírito aberto e sempre a querer aprender mais.

Amostras de arame, chapa e chumbo com um amplo leque de cores

Amostras de arame, chapa e chumbo com um amplo leque de cores

Como muitos dos meus amigos sabem sou uma das pessoas que tem o leque mais alargado de cores no que respeita à confiança que me proporcionam e isso permite-me ter mais opções de escolha que a maioria. Não acredito que um achigã rejeite um lagostim por ele ser watermelon com pigmento preto em vez de vermelho. Não acredito que uma cor rootbeer seja muito diversa de um pumpkin aos olhos de um achigã. Acho que as amostras em negro são excepcionais para a grande maioria das situações de pesca.

As situações em que as cores são mesmo determinantes são muito poucas, mas vale a pena o seu estudo.

Se usamos amostras de fundo em águas baixas, até dois/três metros, é provável que os peixes vão ter tempo para ver as cores. Se vamos trabalhar um jerkbait, um spinner ou mesmo um crank de forma mais lenta daremos tempo aos peixes para perceberem as cores, o que pode acontecer em águas transparentes muito frias ou muito quentes, porque o normal é trabalharmos as amostras mais depressa quanto mais transparente for a água. Em circunstâncias como estas é necessário usarmos cores próximas das presas disponíveis e no tamanho ideal para a época do ano. Todavia, só se houver boa luz é que essa questão se coloca.

A importância das cores às vezes assume outros contornos. Por exemplo, se o dia está muito escuro ou se a água está um pouco tomada, o mais importante é mostrarmos o nosso isco ao peixe, então fará sentido o uso de cores vivas, como o chartreuse, o amarelo, o branco ou o laranja. Claro que a vibração e o som que emitem também ajuda à sua localização pelos peixes, mas é de cores que estamos a falar.

Crank de cor viva, ideal para dias com pouca visibilidade e águas tapadas

Crank de cor viva, ideal para dias com pouca visibilidade e águas tapadas

A magia das cores não tem apenas como destinatário o pescador que compra a amostra, os achigãs também têm preferências, mas a verdade é que não está provado sequer que eles distinguem as cores. Sabe-se que têm os olhos munidos de bastonetes e de cones e, portanto, que têm estrutura para ver cores, mas se as distinguem ou não é uma grande incógnita.

Mesmo que as distingam, é importante retermos que um spinner ou um crank a passar emite apenas um reflexo e é esse que dará origem a um ataque ou não. Temos de ter em conta que o momento da decisão do ataque por parte do peixe normalmente acontece num instante em que pode estar mais ou menos perto da amostra, consoante a limpidez das águas, a vibração e o som que emite. Quando parte para o ataque, muitas vezes não é a cor o factor de decisão.

A cor funciona também como um complemento na nossa confiança numa determinada amostra. Assim sendo, é normal que nos apetrechemos de amostras com as cores que mais nos agradam. Depois de pescarmos alguns anos vamos perceber que esse leque que começou muito largo se vai apertando e fixando em três grandes famílias: cores claras, cores escuras e cores vivas, incluindo em todas as gamas padrões mais naturais e outros mais fora do comum.

A «melhor cor» é, pois, mais uma variável do que um dado adquirido. É no dia-a-dia que nos vamos apercebendo como, numa determinada fase do ano, com certo tipo de água e de luminosidade, os achigãs atacam bem esta cor. Todavia, se voltarmos um ano depois e as condições forem semelhantes não nos deveremos admirar se os peixes já não quiserem essa cor e tivermos de fazer o trabalho de pesquisa de novo. Poderemos ter pontos de partida, mas nunca certezas absolutas. No decorrer da I Eurobass Cup, em Setembro de 2004, tive o prazer de pescar com vários profissionais, um deles, Mark Tyler, afirmava, a meio de uma jornada de pesca, que não lhe estava a correr como ele queria, que este tipo de pesca tem demasiadas variáveis para se poder perceber tudo, seremos mais eficazes à medida que vamos colocando mais peças no puzzle, mas estaremos sempre longe de uma abrangência total de tudo o que se está a passar. Preocuparmo-nos com isso já é um grande passo e para começar é melhor não nos tornarmos redutores, ou seja, temos de evitar a todo o custo atribuir êxitos e inêxitos a um factor apenas.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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