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Como todos sabemos a pesca do achigã é uma pesca de modas. Muitas modas são lançadas pelos profissionais americanos, umas pegam outras não e é assim que se tem processado grande parte da evolução da pesca deste predador.

Nos primórdios as modas eram de técnicas, depois passaram a ser de amostras e agora são de ajustes entre técnicas e amostras.

Já houve uma moda do flipping, uma do pitching e uma do skipping. Já houve a moda dos spinnerbaits, a dos crankbaits e a do jig-e-porco, entre tantas outras. Depois veio o finesse e o Fin-S, em que muitas vezes se baralhou a técnica com a amostra, mais tarde a da Slug-go, a do Senko, do drop-shot e, ainda mais recentemente, dos swimmbaits e dos spybaits. O que é desejável é que, passadas as modas, fique o know-how das condições em que se deve repetir o uso de determinada técnica/amostra.

Já houve mesmo quem dissesse que o próprio achigã é um peixe de modas, como se o animal, que reage por instinto, tivesse a capacidade de obrigar o pescador a determinada moda. Não há dúvida de que a pesca do achigã é uma pesca que leva os seus praticantes a um certo consumismo, levando muitos a acreditar que se não se tiver a amostra da moda não se vai conseguir pescar nada.

Numa das minhas viagens aos EUA apercebi-me de uma moda que acabou por ficar. Um pouco antes, em casa de um amigo espanhol, durante um jantar, foi relatado aos presentes, pelo anfitrião, que os pros americanos estavam a usar um anzol triplo (vulgo fateixa) vermelho na parte de trás dos cranks…Explicaram eles que tal alteração servia para imitar um peixe a sangrar, daí o termo «bleeding» («a sangrar»).

De imediato, pensei que fazia todo o sentido, já em muitos artigos referi que, um pouco de vermelho numa amostra, sempre lhe confere um aspecto mais vulnerável, tão apreciado pelos predadores como o achigã.

crank-popper-rattlQuando me desloquei a Charlotte para assistir ao Clássico de 2004 apercebi-me da dimensão que tal moda tinha assumido. Na Bass Pro Shops de Concord Mills, a mais próxima, havia muitas amostras referenciadas como «bleeding baits», mas nos barcos dos profissionais que estavam alinhados para este Clássico também havia muitas amostras alteradas. Stacey King, que acompanhei no primeiro dia de prova, começou a sua jornada com uma amostra de hélices prateada que tinha uma mancha vermelha pintada na parte dianteira inferior e um anzol triplo vermelho…Quando se começa uma prova como esta com uma amostra destas não deve ser apenas por acaso, deve, aliás ter toda a intenção a escolha do profissional.

Não era dia para grandes perguntas técnicas, apesar de por vezes as fazer, mas o «bleeding» daquela amostra era diferente. Não era o anzol traseiro, mas sim o da frente… que recebia a cor da «mancha» pintada por debaixo dos opérculos da amostra… Confesso que fiquei baralhado.

Pormenor da amostra alterada

Pormenor da amostra alterada

No fim do dia de prova, quando regressávamos ao local de pesagem perguntei ao Sr. King, que de resto foi de uma simpatia extraordinária, o motivo de tal alteração. A resposta também fazia sentido. Disse-me ele que quando um peixe está em perseguição de outro e o ataca, as suas guelras abrem-se para passar a água proveniente da sucção que faz entrar as presas na cavidade bocal, como tal dá-se um reflexo de guelras que, por sua vez, pode transmitir, a achigãs próximos, a vulnerabilidade de outro predador, embora mais pequeno, a comer. Isto pode ter dois efeitos: primeiro, pelo instinto de competição pela comida, pode dar início a um frenesim alimentar; segundo, pela vulnerabilidade que os predadores mais pequenos apresentam quando se alimentam, esquecendo tudo o resto, então, este reflexo, pode indicar aos achigãs uma refeição fácil… Faz sentido! Parece um pouco elaborado, mas faz sentido.

Stacey King usando a sua amostra de hélices transformada

Stacey King usando a sua amostra de hélices transformada

Já durante a Semana Ibérica de Caça e Pesca, num dos seminários, Travis Klein, explicou outro motivo, além do previamente exposto: disse ele que o vermelho é a primeira cor do espectro a desaparecer debaixo de água… Quanto a mim este argumento não colhe, porque o vermelho não desaparece, transforma-se em castanho nos primeiros metros e depois em negro quando a profundidade é mais elevada.

buzz-spinner-hookOs dois primeiros argumentos, no entanto, são aceitáveis e não fará por certo mal que se troque o anzol da frente, o de trás ou mesmo ambos por outros de cor vermelha, ou mesmo que se use um de cor vermelha num isco de plástico mole. Quanto aos buzzbaits e spinnerbaits já os há no mercado prontos a usar na versão «bleeding».

Passaram-se dez anos e ainda se vêem muitas fateixas vermelhas nas amostras de muitos desses profissionais. O que quer dizer que, passada a moda fica mesmo mais uma aplicação que nos pode ajudar a conseguir melhores resultados.

Não se pense agora que com isto vamos conseguir tudo o que não conseguimos até hoje, nada substituirá uma boa técnica e uma execução primorosa. De notar que, mesmo dentro do núcleo dos pros americanos, há quem não acredite nos argumentos expostos e não use os «bleeding» baits. A mim parece-me que, pelo menos, não prejudica e, como temos de usar e trocar anzóis, qual a diferença entre trocar por pretos, prateados, dourados ou vermelhos? Experimentar não custa nada. Talvez nos traga um pouco mais de confiança.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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