Que me perdoem todos os meus parceiros de pesca da minha careira competitiva, mas o meu amigo André Fidalgo fez anos há dias e também fez anos que tivemos uma prova de sonho… Hoje vou tentar fazer um apelo à memória e relatá-la para que todos possam participar esse nosso momento, dessa nossa prova de sonho. Pedi perdão a todos os outros porque tive provas de sonho com todos, dava quase para fazer uma rubrica aqui no basspt.com: «Provas de sonho de Hermínio e seus parceiros»…, mas não vou fazer isso, vou apenas usar a nossa rubrica «À pesca com…» para ir contando essas aventuras. Depois de toda esta conversa, espero estar mesmo perdoado. Também, os meus parceiros são todos pessoas bem formadas, é um dos meus critérios de escolha, como tal, sei que vão compreender.

O Adrfé tem participado em todos os momentos importantes da minha vida, mesmo quando se trata de ajudar os mais novos a aprender, ele é como eu e ajuda

O André tem participado em todos os momentos importantes da minha vida, mesmo quando se trata de ajudar os mais novos a aprender, ele é como eu e ajuda

Há 14 anos… numa prova muito especial

Era o ano de 2001. Ainda havia uma APPA muito forte, e um clube crescente em Elvas – o ELBASS – de que me orgulho ter sido membro. Nunca renego o meu passado, assumo-o! A ideia era boa, as pessoas eram boas, o projecto teve impacto até na forma como se pesca achigã hoje em Portugal… Pois. Não posso explicar como. Mas teve! Resolveu então a direcção do ELBASS realizar um torneio em 2000 e eu, com muita pena, não pude participar, mas afinei logo estratégia para reunir os patrocínios necessários para participar na segunda edição em 2001.

A primeira prova decorria nos dias 10 e 11 de março, na barragem de Santa Clara que se encontrava a transbordar. Era a primeira vez que o André entrava numa prova e ainda por cima completaria 16 anos no derradeiro dia de prova, um domingo.

Era também a estreia do meu Cabril 470 em competição. Enfim, muitas coisas novas a alinharem-se para um desfecho sensacional.

No sábado a prova começou quase ao início da tarde e lá fomos nós pôr em prática o plano de prova que eu delineara. Havia águas muito turvas de meio da barragem para cima, estávamos na pré-desova e o tempo era solarengo. Enquanto a maioria dos concorrentes decidiu pescar nas águas límpidas, eu decidi procurar zonas baixas e de transição em que a água estivesse turva. Por dois motivos, o primeiro e o mais importante é que as águas barrentas aquecem muito mais depressa devido às partículas em suspensão, depois, porque numa fase em que os peixes se movem bastante, são mais fáceis de enganar em águas tapadas, por vários motivos, mas o que me interessava mais era poder aproximar-me das zonas baixas sem ser visto.

Fomos então para o largo das Águas Belas e escolhemos a zona mais exposta ao sol. O André começou a prova a perder um exemplar, na entrada de um recanto. Estava a pescar à Texas na plataforma traseira do Cabril e eu, ia com crankbait, na dianteira. Mal o meu parceiro mostrou o seu descontentamento, eu apressei-me a retirar a pressão, dizendo-lhe que voltaríamos no dia seguinte e talvez nos fizesse falta.

Um grande pescador, um grande amigo e um GRANDE HOMEM

Um grande pescador, um grande amigo e um GRANDE HOMEM

Lá apanhámos dois peixes e, de repente num recanto largo, o André ferra um peixe na casa dos 600 gramas e eu, com o meu crank da Norman, um com 2,200 quilos… O que se passou de seguida mostrou-me a garra daquele miúdo. No seu primeiro encontro com o mundo das provas, não acusou a pressão, embarcou o peixe dele sozinho e, quando o meu estava pronto para se entregar, já o camaroeiro estava nas mãos do André e dentro de água. Fizemos uma festa breve e prosseguimos. O André estava impressionado porque nunca tinha visto um peixe de mais de 2 quilos a sair da água. Eu estava impressionado com a maturidade dele como pescador no seu primeiro dia de prova. Pouco depois capturou um peixe de 1,600 quilos que eu ajudei a colocar no barco. O insólito foi que no lançamento seguinte partiu a cana com que tinha capturado o peixe. Grande André! Não só ajudava a tirar os exemplares que faziam falta como conseguia boas capturas… Pena foi a cana, mas pensam que o nosso amigo se aborreceu? Enganam-se! Estava pronto para tudo! Com o peixe dele concluímos o limite e seguimos para tentar trocar os mais pequenos.

Pouco depois veio outro problema. A bateria, que deveria chegar para arranque e para toda a electrónica que se usa, motor eléctrico, sondas, bombas, etc., tinha sido gasta… Não que isso nos deitasse a baixo, felizmente já havia telemóveis, mas queríamos melhorar o nosso limite. Deixámo-nos derivar com o vento para dentro do braço pequeno paralelo ao rio Mira e, com crankbaits tentámos compensar o vento para não batermos na margem. Não foi surpresa, já me tinha acontecido outra vez… Com esta acção, acabámos por trocar dois dos exemplares.

Ligámos para a organização. Vieram dar arranque ao nosso motor e seguimos para a zona de pesagem quando ainda faltavam umas três horas para acabar a prova.

Tínhamos uma bela pescaria, superior aos seis quilos, mas nunca imaginei que poderíamos estar em primeiro lugar… Mas assim foi de facto. Terminámos o primeiro dia com 6,140, uma vantagem de 300 gramas para a dupla José Freire/Fernando Silva e a meio quilo da dupla Pedro Félix/José Balbina que conheciam a barragem como ninguém até porque são da zona.

Apenas uma captura de tantas e tantas com muito mais signifcado, mas todas importantes

Apenas uma captura de tantas e tantas com muito mais significado, mas todas importantes

Fomos para o jantar e depois dormir, sempre comigo a tentar retirar a pressão sobre o André, dizendo-lhe que o Pedro era muito forte e que era provável que conseguisse ultrapassar-nos no segundo dia, ainda para mais, depois de saber onde e como tínhamos pescado… Nós não escondemos nada a ninguém, nem podíamos depois do pedido de auxílio.

O domingo amanheceu com um vento fresco, e nós deslocámo-nos para a mesma zona. Havia pouca actividade e custou a dar com um padrão. Vi na sonda peixes muito perto do fundo e a cerca de 3 metros. O André tentou pescar com jig e perdeu um exemplar que nem vimos, mas a julgar pelo peso que fez, deveria ser de bom porte. Depois disse ao André que ia colocar o barco de forma que ele teria poucas hipóteses de pescar, mas que me parecia a melhor forma de eu lhes apresentar o meu Norman. Foram quatro capturas quase seguidas que o André tirou da água com o camaroeiro e colocou no viveiro, quase todos a rondar o quilo, não chegava, não era o que queríamos, mas era um princípio. Depois disse ao André para irmos ver do peixe que ele tinha perdido no dia anterior e… Não é que ele estava lá! Aproximei o barco e nem lancei o meu crank, disse ao André que mandasse lá a minhoca dele a ver… Já era um peixe melhor, na casa dos 800 gramas. E aqui, limite feito, já nos parecia mais perto a vitória.

Batemos a zona do dia anterior sem capturas e decidimos mudar de local para o braço da primeira ponte. Havia na época umas árvores próximas do recanto das casas dos alemães… A água estava mesmo muito barrenta, mas não conseguimos nada aí. Depois o tempo piorou. Vieram nuvens escuras e muito vento. Já vínhamos a descer quando vi a ilha, um pouco abaixo, quase totalmente submersa. Parei e controlei o barco para poder executar uns pitchings, com um jig azul e preto e lagostim preto como atrelado. O primeiro trouxe um peixe de 1,800, mais uma dúzia de lançamentos depois, quando já fazia o de despedida à ilha, num pequeno arbusto, em pouco mais de meio metros de água… Um ataque brutal! Aí estava o André à espera dele com o camaroeiro… Pesou 2,745 e foi o maior exemplar da prova e do torneio. Que peixe! A essa altura já acreditava que tinha dado uma bela prenda e anos ao André. Uma que ele nunca mais esqueceria!

Ainda fomos às águas límpidas a ver se nos tinha escapado alguma coisa, não fosse o caso que as diferenças na meteorologia pusessem os peixes mais ativos nessas áreas. Mas não. Conseguimos apenas uma captura com um senko branco que nem deu para trocar o mais pequeno. Falámos com vários competidores que nos deram conta das dificuldades que sentiram. E então percebemos que poderíamos mesmo vencer.

Vencemos. Mas fizemos mais que isso. Estabelecemos recordes que ainda hoje não foram batidos em Santa Clara. Um limite com 8,005 quilos, o mesmo peso que tinham os terceiros classificados, nos dois dias de prova. Também totalizámos 14,145 quilos, outro recorde que permanece embatido naquela barragem em provas. Começávamos assim o torneio em beleza com uma prova de sonho no 16º aniversário do André. Poderia ser mais perfeito? Acho que dificilmente.

Acabámos por vencer o torneio com mais um segundo lugar noutra prova na barragem do Maranhão. Sendo que a última prova não correu tão bem, mas nem era preciso, só contavam as duas melhores e o primeiro critério de desempate era a participação em mais provas. Os segundos Classificados fizeram também 3 pontos, mas só participaram em duas das três provas. Eram eles João Grosso e Fernando Cruz, que venceram no Maranhão e ficaram em segundos na última prova, na barragem de Alvito.

O maior exemplar da prova da ARBAPD, 2,400 que o André pescou

O maior exemplar da prova da ARBAPD, 2,400 que o André pescou

Eu e o André ficámos ligados para o resto da vida, ainda hoje comunicamos bastante, embora tenhamos apenas voltado a pescar juntos numa prova realizada pela Associação Regional do Baixo Alentejo de Pesca Desportiva. Nem me lembro em que lugar ficámos, mas lembro-me que dessa vez quem fez o peixe com mais de dois quilos foi o André. Como ele fez anos dia 11, assim como a nossa prova, quis dar-lhe esta prenda e fazer-lhe uma singela homenagem que merece como amigo, como homem e como pescador.

Por tudo o que foste e és – OBRIGADO ANDRÉ!

A pesca é feita de momentos e depois das suas memórias. Seja em competição ou não, numa mesa ou num qualquer recanto onde se juntem pescadores, as histórias nunca faltarão. Aproveitem todos os momentos e todas as recordações porque ambas alimentam uma coisa que se chama felicidade! Divirtam-se e sejam felizes!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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