Estávamos em 1992… Eu pescava achigãs «à maneira americana» desde 1988, mas não me sentia atraído pela competição… Eu achava que a pesca era para me divertir e nem tinha ideia de como me viria a divertir na competição… Enfim, maneiras de ver… E eu mudei muitas na minha vida. Felizmente!

Com o meu colega de pesca e de trabalho, Fernando Pereira, decidimos que esse seria o ano de experimentarmos a competição.

Felizmente surgiu uma iniciativa do mítico CAPP (Clube dos Amadores de Pesca de Portugal) que, não tendo agradado a muita gente pelo título pomposo de «Torneio dos Mestres», não nos assustou a nós que íamos começar. Não seríamos mestres, mas sabíamos inglês e estudávamos a realidade americana, como tal, compreendemos a tradução livre de «masters tournament» sem que isso nos assustasse ou nos elevasse o nível… Eramos iniciados e, o nome do torneio, era apenas isso – um nome.

No panorama da pesca, ao momento, estávamos considerados bons pescadores. Apesar do pouco tempo de pesca que tínhamos eramos ávidos pescadores de fim de semana e de folgas… Pescávamos uma nédia de 2 a 3 dias por semana havia já dois anos e tínhamos o necessário dentro de nós para esta experiência.

A primeira prova, no Alvito, tinha corrido mal… 8º em 17 equipas estava longe do nosso objectivo que passava pelo apuramento para a final que teria apenas 12 equipas… Havia duas formas de conseguir esse patamar, vencer uma das provas ou ficar nos 12 primeiros.

Como de costume fomos treinar no fim de semana anterior e a pesca estava mesmo má. Típica pós desova e peixes muito difíceis de localizar. Ainda por cima estava mau tempo e um vento fortíssimo, condições que dificilmente se repetiriam no dia da prova. Já a terminar o dia fomos arrastados pelo vento enquanto arrumávamos o material de pesca e aí aconteceu o imprevisto… O vento arrastou-nos para a margem oposta e reparei numa árvore que estava encostada num canto. Nem sequer estava presa, notava-se que flutuava, que estava suspensa, mas o vento segurava-a num ligeiro recanto. Efectuei um lançamento e… senti um ataque a uma minhoca empatada à Texas… Tive a «delicadeza» de não ferrar e deixei o peixe – um exemplar de mais de quilo – saltar e libertar-se. O Fernando já se ia preparar para lançar, mas eu pedi-lhe que não o fizesse e fomos logo embora dali.

Ao jantar, no Sr. Roberto, falámos sobre o assunto e eu disse-lhe: «Se aquela árvore não sair dali e se ninguém a descobrir ou chegar lá antes de nós… Venceremos ali a prova!»

O Fernando ficou entre o céptico e o esperançoso… Mas concordou que teríamos a nossa hipótese de um apuramento directo para a final.

Durante a semana toda eu, obsessivo como era e sou, não cabia em mim de tão empolgado que estava… Fui logo na segunda-feira à Loja do Peixe à Porta e disse para quem estava: «Encontrei um lugar que me vai dar a vitória». E prossegui: «Se ninguém lá chegar antes de mim, vou ganhar lá mesmo!»… Os meus amigos de tertúlia olhavam-me desconfiados a pensar que eu estava a fazer «bluff» para os assustar… Houve mesmo quem dissesse: «Já não há lugares assim!» Foi o Rui Diogo quem fez a afirmação…

Eu continuei com a confiança em cima e com a auto-estima elevadíssima, embora cheio de medo… O meu receio era que houvesse alguém com um motor mais potente que o meu que conhecesse o tal recanto e a tal árvore. Eu tinha um pequeno barco de 3,30 metros com um motor de 12 cavalos… Ia demorar uns 20 minutos a chegar ao desejado local. Os barcos mais potentes desse tempo possuíam motores de 30 e até havia um de 40 cavalos…

Na véspera da prova aluguei um dos quartos que há por baixo do Mondina Bar, do Sr. Roberto, na altura. Eu ia dormir… Mas não consegui pregar olho. Estava de tal forma empolgado que não vinha o sono… E não veio. Passei a noite em claro.

De manhã chegou o Fernando e arrancámos para o largo de Santa Suzana, de onde iria ser dada a partida.

Lembro-me vagamente do José Manuel David ter feito o «briefing» e de termos arrancado para os vinte minutos de viagem até à nossa árvore… E lá estava ela à nossa espera e sem ninguém por perto… Que visão! Acho que vi logo aí o troféu que iria premiar a nossa vitória. Nem cabia em mim de contente!

Mas… As coisas não estavam assim tão fáceis e, na primeira meia hora, nem um toque tivemos… De vez em quando, afastávamo-nos da árvore e fazíamos intervalos entre os lançamentos. Faltavam cinco minutos para terminar a primeira hora de prova quando conseguimos a primeira captura… Estávamos já a pescar muito leve à Texas e a fazer descer a montagem pelos lados a tentar conseguir capturas de peixes que estivessem abaixo da copa… Resultou! A amostra já não existe, só sei que se chamava Repeater Worm e que era azul com flakes, no empate Texas usávamos um chumbo de 3,5 gramas e com um anzol 3/0 da Gamakatsu. O peixe pesava 550 gramas, mas era o primeiro e tinha medida, o resto… Bem o resto não se fez esperar! Cinco minutos volvidos e… Mais um! Desta vez um daqueles que já dava garantias – um exemplar com 1,700 kg! Mais dez minutos e outro – irmão gémeo do primeiro – e, pelas 10:25, mais uma captura melhor – 1,300 kg! – para enfeitar o ramalhete… Nem cabíamos em nós de alegria!

Estávamos nisto, a ver que os toques estavam a abrandar, quando ferramos um peixe maior. Só que este não esteve pelos ajustes e deu duas voltas à árvore… Bem! Se apanhássemos aquele… Estava ganho. De certeza! Mas o peixe acabou por partir a linha depois de um braço de ferro que acabou por vencer, embora ficasse preso na linha e na árvore… Mais tarde trataríamos disso se fosse necessário.

De repente surge o Sr. Ventura na sua embarcação – Lailoca – acompanhado do Gustavo Gouveia que vinha a registar em vídeo tudo o que conseguia… Nem vou descrever, prefiro que vejam esse bocadinho aqui mesmo…


O Sr. Ventura deu-nos conta de que era a melhor pescaria que tinha visto até ao momento e mostrou a sua admiração pelo nosso feito… Nem cabíamos em nós de vaidade… Mas, tínhamos de continuar, ainda faltava um peixe para o ponto de honra que era o limite de cinco peixes, que era quantos podíamos levar à pesagem.

Só um aparte… Eu sei que se calhar hoje choca um bocadinho ver os peixes pendurados numa corrente, mas naquele tempo era assim. Os barcos com viveiros eram raros e nós tínhamos apenas uma tina com água para os transportes nas deslocações. Tínhamos todo o cuidado que podíamos e sabíamos. A tina era coberta por um pano molhado e tínhamos de fazer paragens para os peixes poderem recuperar um pouco. De qualquer maneira, os peixes tinham de chegar vivos à pesagem, segundo o regulamento.

O Sr. Ventura e o Gustavo seguiram e nós voltámos ao nosso trabalho. Com um peixe preso na árvore, fazia pouco sentido insistirmos a pescar ali. Coloquei uma rattle trap da Norman, de 14 gramas, de cor dourada, e, aproveitando o vento desloquei-me até ao bico mais próximo onde conseguimos o quinto peixe. Era o mais pequeno de todos, mas para nós… Foi uma festa! Um limite e dois peixes acima da média… Estávamos no bom caminho!

Voltámos à árvore a ver se conseguíamos trocar este exemplar, mas ainda se via lá o outro peixe preso. Lançámos… Mas sem êxito.

Eram horas de começarmos a viagem de regresso. Ainda tínhamos de parar, pelo menos uma vez, para, como dizíamos nós: «Dar de beber aos peixes».

O meu registo pessoal de capturas do dia da prova

O meu registo pessoal de capturas do dia da prova

Combinei com o Fernando que parávamos na «pedra do Cetra» (nome dado em homenagem a um amigo nosso que ali adorava pescar). Tratava-se de um bico em pedra que dá entrada para um braço pequeno do lado direito de quem desce o braço principal. Quase a chegar ao local, o Fernando, que ia à frente na embarcação, avisou-me que estava lá um barco e nem sequer entrámos, mas tínhamos de parar para tratar dos peixes e… Não fui de modas, mudei de rumo para a margem oposta e parei. O Fernando colocou o peixe dentro de água e eu… Toca a lançar. Ao primeiro lançamento as coisas melhoraram muito! Senti um toque suave e ferrei… Não estava à espera daquilo… Depois de alguma luta o Fernando agarrou a boca de um exemplar de 2,200 kg que veio servir para confirmar, pelo menos para nós, a vitória na prova. Já não estava com o mesmo isco, no mesmo empate tinha colocado a que ainda hoje é conhecida, pelos pescadores do tempo, como a «minhoca do Pego», A Phenom Worm, da Mister Twister, de 15 cm e de uma cor especial: um vermelho translúcido com um veio central mais escuro… Era uma das primeiras minhocas de plástico com sabor – banana, sal e óleo… Imaginem!

 Ainda pescámos mais um exemplar, mas não deu para trocar nenhum dos outros.

Foi uma grande honra, recebermos das mãos do Sr. Ventura os troféus relativos ao primeiro lugar, mas foi uma honra maior percebermos como a nossa vitória tinha sido aceite com naturalidade por todos os outros que nos cumprimentaram e aplaudiram. A partir daí sentíamo-nos entre os melhores… E estávamos! Que excelente grupo de pescadores! E que saudades… Mas essas ficam.

Classificação do Torneio dos mestres 1992

Classificação do Torneio dos mestres 1992

Fez no dia 30 de maio 22 anos e a minha vida ficou mais rica nesse dia!

O dia, porém, não terminou sem que depois do almoço voltássemos a colocar o barco na água para confirmarmos se o peixe ainda estava preso na árvore. Tinha prometido a mim mesmo que nem que tivesse de mergulhar ele não morreria assim… Felizmente já lá não estava o que nos deixou satisfeitos. Pescámos mais umas horas e regressámos cheios de nós mesmos pelo dia que tínhamos acabado de viver… e foi assim a nossa primeira vitória numa prova de pesca embarcada do achigã.

Foi com este limite que conseguimos a nossa primeira vitória

Foi com este limite que conseguimos a nossa primeira vitória

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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