Um dos principais instintos de qualquer espécie animal é, sem dúvida, a reprodução. Nos achigãs, particularmente, trata-se de um período de tempo pequeno, mas crucial. Em cerca de mês e meio passam-se três fases do seu calendário: a pré-desova, a desova e a pós-desova.

Depois da fase final do Inverno, em que as águas aquecem um pouco mais, surge o período da pré-desova. Os machos preparam os locais seleccionados e alimentam-se avidamente para enfrentar o desgaste da desova. As fêmeas também procuram alimento para o mesmo fim, tornando-se fáceis de capturar. Nas barragens do Sul, isto poderá acontecer no início de Março, nas do Centro e Norte já sucede no defeso (que, como se sabe, tem início a 15 de março terminando a 15 de maio) e muitas vezes depois de terminado este período.

Há factores determinantes. O aumento do nível das águas é benéfico, mas não determinante. Determinante é o chamado foto-período, ou seja, a duração de luz diária e, por outro lado, o aquecimento gradual da água, este sim, o mais importante.

Achigã no ninho - foto Gomes Torres, guias Naturpesca

Achigã no ninho – foto Gomes Torres, guias Naturpesca

A pré-desova pode durar várias semanas. Se o tempo for instável, os achigãs avançarão e recuarão conforme as frentes frias passam. Fogem para zonas mais protegidas quando o tempo lhes é desfavorável e acorrem a patrulhar as zonas baixas, logo que o tempo melhora, em busca de locais ideais para fazerem ninho.

Quando a água atinge os 16 a 18 graus, os machos preparam um local que escolheram previamente e atraem as fêmeas que, de passagem, desovam e seguem viagem. Por vezes, desovam em mais do que um ninho e podem ir de imediato para zonas mais fundas ou ficar pelas baías mais baixas, mas nunca por perto de um ninho, pois seriam tratadas como qualquer intruso pelos machos, que tratam da limpeza e da protecção dos ovos e posteriormente dos alevins até que estes nadem livremente. Haverá excepções, já vi fêmeas a ajudar na protecção do ninho, no entanto, a regra geral é esta.

No vídeo seguinte pode ver-se um casal de achigãs na desova:

 

Durante a fase da desova a pesca é muito fácil. Qualquer achigã ataca uma amostra que ameace o seu ninho, e a questão reside em descobri-los.

A desova não é simultânea. Na mesma massa de água os achigãs maiores desovam primeiro, e as zonas de postura são situadas a montante, nos braços correspondentes a antigas ribeiras, por serem mais baixos e de fácil aquecimento. Os locais mais expostos ao sol são os primeiros a serem ocupados. Quando toda a massa de água atinge os valores mínimos, os achigãs fazem ninhos em qualquer ponto. Mesmo a profundidade não é um factor determinante, já se registaram ninhos a profundidades superiores ao normal, que é entre o metro e os dois… Talvez para fazer face às variações dos níveis de água ou em busca de outras condições mais favoráveis, como a proximidade de uma cobertura ou de uma estrutura que facilite o seu trabalho.

Neste outro vídeo podemos ver um achigã a guardar o ninho, e como reage a uma amostra que lhe vai sendo apresentada. É ainda possível ver que depois de capturado e libertado, volta de imediato para o ninho:

 

O período que se segue é ingrato para a pesca. Num esforço de recuperação, e ao contrário do que seria de esperar, os peixes vão para zonas mais fundas onde permanecem em letargia quase total, reagindo muito pouco ao que se lhes ofereça. A desova provoca-lhes um desgaste que se mantém durante o período pós-desova, que pode durar uma ou várias semanas. Passado este período, as pescarias começam a melhorar devido a necessidade de recuperação de forma que os peixes sentem.

Cardume de alevins

Cardume de alevins

Porém, não desanimem os meus amigos pescadores, porque em qualquer massa de água não acontecerá uma reprodução simultânea, os achigãs desovam por grupos e, haverá sempre achigãs dispostos a comer ou a atacar uma amostra por qualquer outro motivo.

Um dia falaremos das razões pelas quais um achigã pode atacar uma amostra… Fica prometido para outra vez… Divirtam-se!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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