Quando em 1995 fiz, pela primeira vez, uma intervenção numa feira, a questão foi levantada e ainda hoje há muito quem coloque a questão de saber se os achigãs crescem no norte como no sul e o que é diferente entre eles.

Já na altura referi que o achigã que cá temos está bem adaptado a um leque variado de latitudes. Podemos encontrá-los em muitos países, mas, na região de onde são originários, eles distribuem-se desde zonas mais quentes que o nosso país até zonas com seis meses de neve…

Isto para dizer que os achigãs crescerão no norte e no sul do nosso país, não haverá motivo para pensarmos que são pequenos porque não podem crescer mais, aliás, um achigã cresce desde que nasce até morrer.

Há, no entanto, alguns fatores que influenciam o ritmo de crescimento, sendo o principal a temperatura das águas que habitam. Como animais de sangue frio dependem muito da temperatura. É que não gostam nada de águas abaixo dos 10 graus, assim como não gostam delas acima dos 28. Dentro destes limites eles crescem, desde que, e aqui entra outro fator também muito importante, dizíamos, desde que haja comida abundante. A qualidade da comida será outro fator, mas de menos importância para o nosso caso.

Achigã grande capturado na zona centro de Portugal

Achigã grande capturado na zona centro de Portugal

Dito isto, poderemos facilmente compreender que no Algarve e no Alentejo as temperaturas das massas de água de média e grande dimensão, poucas vezes baixarão dos 10 graus, no entanto, é provável que ultrapassem os 28, no pico de verão, embora por pouco tempo e nunca em toda a coluna de água, dando oportunidade aos achigãs de se refugiarem em zonas mais frescas onde também possuem alimento. Já no Centro e no Norte do país… Infelizmente não poderemos dizer o mesmo. No verão as c02oisas equilibram-se, mas no inverno, as temperaturas vão mesmo abaixo dos valores mínimos de que falámos.

Poderemos então facilmente perceber que os achigãs, em condições de alimentação semelhantes, vão crescer mais depressa no Sul do país do que no Norte. O nosso país é demasiado pequeno para que a diferença seja muito grande, mas ela nota-se. De tudo o que vi até hoje os peixes demoram mais tempo a crescer no Norte, mas, irão atingir tamanhos consideráveis. Veja-se o caso de pequenas massas de água como Vilarelhos que já produziu excelentes troféus.

Nuno Duarte com o 2º maior exemplar do dia - 1,400kg

Nuno Duarte em Vilarelhos com o 2º maior exemplar do dia com 1,400kg na 3ª prova do circuito de margem da BASS Nation Portugal 2014

Em princípio, uma massa de água que nos proporcione capturas de muitos peixes pequenos, apenas indica que esses são os que mais existem. Em todas as massas de água há um lote de peixes que é mais abundante. Medidas de gestão mais recentes apontam, como dissemos na semana passada, para a colheita de exemplares dessa classe para potenciar a produção de exemplares de bom porte.

A prova de que as coisas são diferentes a diferentes latitudes é o processo de reprodução. A pré-desova começa mais cedo no Sul, como também nos EUA, na Florida, onde já há peixes a desovar na altura que escrevo. Embora se trate de outra subespécie, a verdade é que se nota a mesma tendência. Mesmo no Estado de que falamos há diferenças de arranque do ciclo reprodutivo consoante a latitude. O lago mais a sul – o Okeechobee – tem desovas em dezembro, já no lago Seminole, mais a norte, elas só acontecem a partir de março.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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