De todos os meus sonhos, a busca por um achigã de grande porte, é talvez o que mais me tem feito andar pelo mundo. Já todos ouvimos falar como são grandes os achigãs na Florida e na Califórnia, e até no Texas… África seria destino menos procurado por quem quer bater o seu recorde… Eu também pensava assim até um amigo me convidar para pescar em Moçambique… Fica esta singela homenagem a quem me deu a conhecer esse outro mundo.

Achigãs em Moçambique

A convite do meu amigo Francisco Eusébio, que tem uma reserva de caça em Moçambique e que visita este país há cerca de década e meia, decidi cumprir um velho sonho de visitar um país africano. Falámos dessa possibilidade em Agosto e, como não podia deixar de ser, comecei a ver o que poderia pescar por aquelas paragens. Pesquisei a Internet e encontrei referências ao micropterus salmoides floridanus na barragem de Chicamba Real, mas parecia-me muito longe, embora as capturas relatadas fossem tentadoras. Na verdade, só a mais de mil quilómetros de Maputo é que poderíamos encontrar achigãs…

Tinha de ir lá. Era a única hipótese de os pescar em Moçambique e eu já lá estava, agora era uma questão de convencer o Francisco. Uma vez que adora pescar, e pescar achigãs, não foi difícil de convencer.

Chicamba Real

Chicamba Real, a barragem onde decorreram alguns dos meus melhores dias de pesca

Chicamba Real, a barragem onde decorreram alguns dos meus melhores dias de pesca

À chegada, o azul da água contrastava com o imenso verde das margens recortado, aqui e ali, pelas pedras de cor castanha claro. O cenário era de cortar a respiração e a ambição de conseguir um peixe grande animava-nos enquanto procurávamos alojamento. Chegados ao local, confirmámos que a espécie existia em número e peso. Chamam-lhes corvinas, mas que interessa isso se o peixe é o mesmo. Logo que nos instalámos desloquei-me à barragem e, em menos de nada consegui o meu primeiro achigã. Era pequeno, mas era uma garantia.

Tínhamos de procurar alguém que nos levasse de barco, já que da margem é muito complicado bater muita água. Depois de nos apresentarem um empresário local que trabalha no transporte de pessoas e cargas pela barragem, negociámos com ele o preço e ficámos de ir pescar cinco vezes: ao entardecer desse primeiro dia, e nos períodos mais frescos dos dois dias seguintes, respectivamente, sábado e domingo.

Porque tinha pouco combustível, nesse dia, fomos pescar perto, não me pareceu das melhores zonas, mas o nosso «guia», garantia que ali se pescavam bons peixes. Conseguimos algumas capturas, mas nada do que queríamos. Era realista pensar que, as dezasseis horas de pesca que tínhamos pela frente, não eram suficientes para uma completa percepção do que os peixes estavam a fazer e onde os encontrar. No entanto, estávamos ali e tínhamos de tentar, de dar tudo que sabíamos.

O que se diz

Nessa noite, ao jantar conhecemos vários sul-africanos que se tinham deslocado para tentar o mesmo que nós. Dois deles estavam ali pela primeira vez e não tinham experiência de pesca do achigã, porém, outros dois, conheciam bem a massa de água, tendo um deles capturado já um de quatro quilos e meio. Esperávamos que, entre todos, saísse, pelo menos, um gigante. Tivemos uma conversa animada em que nos foi relatado que, no ano de 2008 tinha sido ali capturado um achigã de mais de oito quilos à cana e que, um de nove e seiscentos, tinha sido apanhado numa rede. Este senhor sul-africano disse-nos que não se admirava nada de ver aqui batido o recorde mundial. Quando lhe perguntámos sobre as outras massas de água de África, disse-nos que esta é a melhor de todas na produção de grandes exemplares.

Os peixes e a pesca

A minha primeira «corvina» (como lhe chamam por lá) de Moçambique

A minha primeira «corvina» (como lhe chamam por lá) de Moçambique

No dia seguinte, pelas cinco da manhã, não havia sinais do nosso barqueiro… Esperámos até desesperarmos e voltámos para o bar, à espera de uma notícia qualquer. Fomos informados que o transporte de combustível tinha falhado e que ele tinha ido tratar do assunto; resultado: menos uma sessão de pesca. Só pelas três da tarde é que chegou com o depósito de combustível.

Uma vez na água, dirigimo-nos a uma zona de pedras que tínhamos visto e que nos tinha sido aconselhado por um pescador local. Parámos antes para preparar a pesca e capturámos alguns exemplares de pequeno porte, a pesca baseava-se no uso de iscos de plástico mole com algum peso, os Senkos e outras minhocas sem cauda, serviam perfeitamente para pescar entre as ervas e os paus que havia junto das margens pedregosas. Com o levantamento de uma brisa moderada mudei para um jerkbait, no caso um Rudra, da OSP, de cor branca, que mal caiu na água capturou um exemplar a rondar os dois quilos, com os mesmos sinais: o peixe media cerca de cinquenta e dois centímetros, mas estava mesmo muito magro. Confirmava-se o cenário de pós-desova.

Um exemplar magro, dada a época do ano, mesmo assim a rondar os dois quilos

Um exemplar magro, dada a época do ano, mesmo assim a rondar os dois quilos

Os peixes davam muita luta, tinham muita força apesar da má condição física, parecia um paradoxo. Continuámos a pescar e, num intervalo entre duas ilhas, uma zona baixa e exposta ao vento, capturámos mais sete exemplares idênticos. Aqui foi a vez de os spinnerbaits brilharem, embora o Senko tenha dado capturas também. Seguimos pelo lado da sombra de uma das ilhas e encontrámos dois sul-africanos que não tinham pescado nada. Voltámos ao mesmo intervalo entre ilhas onde conseguimos mais quatro bons exemplares. O tamanho era mais ou menos o mesmo, faltando o peixe que procurávamos. Era quase noite, e regressámos satisfeitos, com uma boa pescaria em qualquer lugar do mundo, mas a vermos o peixe grande cada vez mais longe… Faltavam apenas duas sessões.

Francisco Eusébio e o nosso «guia» remador

No dia seguinte, mais uma vez, o nosso homem atrasou-se… Saímos pelas cinco e meia e subimos o rio durante cerca de uma hora. A pesca estava difícil. Ao todo conseguimos duas capturas cada de peixes do mesmo lote e alguns mais pequenos. Pelas nove regressámos à base com fotografias pitorescas, desde as belas coberturas, até aos pescadores locais, sempre muito simpáticos, passando pelos crocodilos que apareceram e que se deixaram fotografar de bem perto. As coisas estavam a complicar-se…

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Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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