Quando os achigãs suspendem na coluna de água tornam-se muito difíceis de localizar e, consequentemente de pescar, porém, ao contrário do que se pensa nem sempre esta sua atitude está relacionada com a falta de actividade, muitas vezes é um frenesim alimentar que os leva a esta situação. Seja como for, estes peixes podem ser pescados recorrendo a diferentes estratégias consoante a sua atitude perante o que passa por perto.

Em que consiste

Antes de mais, vejamos do que estamos a falar. Quem não conhece bem os achigãs e a sua pesca e apesar disso os procura nos seus dias de lazer, de certo já se deu conta de que, às vezes, por muito que tente pescá-los, a verdade é que não consegue. Por exemplo, no Verão, deveria ser fácil encontrarmos achigãs relacionados com algumas estruturas, como bicos, ilhas, ilhas submersas… O que acontece, porém, é que pescamos áreas desses tipos muitas vezes sem resposta por parte deles. Não é que eles estejam muito longe, mas podem estar fora da zona em que os procuramos. Em princípio estarão próximos dessas zonas e relacionados com elas por constituírem os seus pontos de abrigo ou de emboscada, no entanto, podem estar a uma profundidade e a uma distância que os nossos lançamentos e amostras não atinjam, quer seja porque lhes passam demasiado acima ou demasiado abaixo, não alcançando a sua janela de ataque.

O conceito de janela de ataque

É dos manuais a explicação de que os achigãs podem estar activos, neutros ou inactivos. Activos estão quando comem tudo o que podem atacando as presas que passam ou perseguindo-as. Diz-se então que a janela de ataque é muito grande, uma vez que algo que lhe desperte a atenção pode ser engolido ou perseguido com esse fim. Nestes casos a janela de ataque pode ter vários metros, consoante a visibilidade.

Quando estão neutros, normalmente isto ocorre quando acabaram de ter uma boa refeição, não comem, porém, podem atacar uma presa por irritação, por curiosidade ou por instinto (a que muitos chamam acto reflexo), mas não efectuarão grandes deslocações nem perseguirão presas… Estão cheios e só por oportunismo puro aproveitarão algo mais. A sua janela de ataque «encolhe» muito e passa para centímetros em vez de metros.

Quando estão inactivos é necessário colocar-lhes a comida à frente

Quando estão inactivos é necessário colocar-lhes a comida à frente

Se estão inactivos, então, a dificuldade de os fazer atacar é muito maior. Pode atacar pelos mesmos motivos que quando está neutro, contudo, será mais difícil irritá-lo, quase impossível de despertar a sua curiosidade ou o seu instinto. Aqui estaremos nas condições mais difíceis e a janela de ataque quase não existe. Responderá a uma presa que venha na sua direcção e, mesmo assim, pode optar por desviar-se e deixá-la passar.

Porque suspendem os peixes

A pressão de pesca, por incrível que pareça, pode levar os achigãs a abandonarem as suas localizações típicas e a assumirem uma atitude defensiva ficando suspensos na coluna de água, mais ou menos afastados das suas zonas de conforto. Especialmente em charcas pequenas que se percorram facilmente durante um dia de pesca, é normal que a presença de um número elevado de pescadores, ou mesmo a persistência de alguns em toda a massa de água ou numa pequena porção, acabe por obrigar os peixes a abandonarem as suas zonas preferidas. Basta um período de descanso dessas zonas para que tudo volte ao normal, digamos que meia hora é suficiente, porém, se a pressão for constante, essas zonas podem tornar-se improdutivas por muito tempo.

Os achigãs que se abriguem junto desta pedra abandonarão a área se a água baixar mais

Os achigãs que se abriguem junto desta pedra abandonarão a área se a água baixar mais

As variações do nível de água constituem outro dos factores que levam os achigãs a abandonar as suas zonas típicas em qualquer época do ano. Normalmente, nestes casos, afastam-se e ficam suspensos não muito longe dessas zonas, pelo menos enquanto não forem completamente descaracterizadas. O que se passa é que, por exemplo, um cabeço submerso, que é um local de concentração de achigãs ao longo de quase todo o ano, pode transformar-se numa ilha com a descida do nível da água, mantendo-se, mesmo assim, como uma zona de conforto, no entanto, se a água baixar mais ainda e toda a zona envolvente passar a ser margem sem variação, é normal que deixe de ser interessante para os achigãs e que seja abandonada, pura e simplesmente. Assim, uma zona que era muito boa para pescar, pode passar a mais um troço de margem como outro qualquer.

A passagem de uma frente fria provoca um efeito de letargia nos achigãs. As causas dessa consequência são controversas. Há quem defenda que os peixes suportam mal a súbita subida da pressão atmosférica e há quem sustente que durante a tempestade que antecede à passagem os achigãs comem tanto que ficam sem vontade de comer por uns dias quedando-se suspensos não muito longe dos seus locais de caça habituais, porém, sem reacção às presas que por ali passem.

No Verão há outro motivo que os leva a essa atitude e que não se relaciona com inactividade. Com o aquecimento das águas à superfície dá-se a estratificação, ou seja, o volume da água «organiza-se» por camadas de diversas temperaturas. Esta situação dá origem à formação do termoclina que é uma camada em que a temperatura muda mais drasticamente. Trata-se de uma zona de conforto que divide as águas mais quentes das mais amenas, o que só por isso a torna apetecível. Esta camada acumula plankton que, por sua vez, atrai o resto da cadeia alimentar: os peixes pequenos que comem plankton e os maiores que os comem a eles.

Nestes casos os achigãs podem estar activos, mas fora do nosso alcance, pelo menos até os localizarmos.

Outro caso em que isso acontece é quando os predadores perseguem cardumes de presas, como o alburno e a boga. É muito importante conhecermos os hábitos dessas presas para sabermos onde procurarmos os achigãs. Não é que estejam sempre suspensos, mas, ao perseguirem esses cardumes, muitas vezes deixarão de estar relacionados com as estruturas e com as coberturas onde normalmente os encontramos.

No Bassmaster Classic de 2008 havia cardumes de um pequeno peixe, a que por lá chamam «blue herring», que ditou algumas posições na tabela. O segundo classificado, Cliff Pace, sentia dificuldades em localizar os achigãs que perseguiam estes cardumes entre duas localizações base. Quando estavam no meio do braço, era fácil, quando se deslocavam para a margem, mais fácil ainda, agora, quando passavam horas a deambular entre um lado e o outro, tornava-se quase impossível a sua localização. Se a este nível da alta competição os desportistas de topo sentem dificuldades, imagine o que estas condições podem fazer a um dos nossos dias de pesca…

Estratégias de ataque

A chave da questão é a localização. Se os conseguimos localizar só temos de escolher a amostra adequada à profundidade e fazer a apresentação correcta.

Sem dúvida que o conhecimento das massas de água e das espécies presentes é uma mais-valia, porém, não podemos subestimar a preciosa ajuda de uma sonda.

Se pescamos de barco, uma sonda é essencial para localizar estes peixes e vermos, para além do local, a profundidade a que se encontram. Com alguma experiência no uso de uma sonda é fácil sabermos a sua profundidade, e o problema da localização fica resolvido.

Da margem é mais difícil localizar peixes suspensos, mas não é impossível

Da margem é mais difícil localizar peixes suspensos, mas não é impossível

Se pescamos da margem, poderemos ter o caso mais complicado. É certo que a tendência de quem pesca da margem é executar lançamentos longos e em leque para tentarmos encontrá-los, no entanto, em circunstâncias extremas, os achigãs podem mesmo estar fora do alcance dos nossos lançamentos. Se os peixes estão suspensos, a pesca da margem pode, infelizmente, resumir-se a uma questão de sorte.

Se os conseguimos localizar, então, o resto resume-se a escolhermos uma apresentação adequada. Os cenários são imensos e a nossa imaginação terá de trabalhar muito, mas há algumas bases a não esquecer.

Se os peixes estiverem em perseguição de cardumes, consoante a profundidade a que estejam devemos seleccionar amostras que capturem em movimento, imitando as presas, de preferência. Se estiverem suspensos e neutros ou inactivos, teremos de ir com mais calma. Não quer dizer que não se usem os spinners, os cranks, as amostras de superfície e os jerkbaits, mas devemos usá-las com mais calma e, de preferência, fazendo-os passar na janela de ataque e de frente para os achigãs. Para sabermos para que lado estão virados, basta sabermos a direcção do vento ou da corrente. Não havendo corrente nem vento, o meu conselho é que usem amostras que parem mais tempo na janela de ataque, como por exemplo, quaisquer jerkbaits de plástico mole, ou outros iscos moles em empates Texas e Carolina.

A fechar

Haverá dias em que, faça o que fizer, não os vai encontrar… São as lições de humildade, para os que se acham grandes pescadores, e a confirmação da beleza deste desporto, para os que compreendem melhor este nosso peculiar desporto. São a prova de que não está tudo nas nossas mãos e isso deixa-nos a vontade e a abertura necessária para aprendermos mais, para evoluirmos.

Muito importante é percebermos que, nos dias em que os temos a jeito e apanhamos muitos devemos libertar o maior número possível, se não mesmo todos, para garantir que haja mais dias desses para nós e para os outros pescadores, especialmente os das gerações vindouras.

Devolver peixes à água é a única forma que temos de garantirmos que esta pesca tem futuro

Devolver peixes à água é a única forma que temos de garantirmos que esta pesca tem futuro

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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