Antes de começar quero explicar que por águas públicas entendo todas as águas de acesso livre e por águas privadas entendo todas as águas de acesso reservado (reservas, concessões, etc.).

A questão em torno das águas públicas e privadas é algo com que me tenho debatido nos últimos tempos. O último artigo do Hermínio Rodrigues aqui no basspt.com fez-me voltar a pensar no assunto, e gostaria de aqui expor a minha opinião e saber a vossa.

Também já aqui foi publicado um artigo onde se falava no problema da actual lei da pesca, com o qual estou totalmente de acordo.

Bem, começando pelo inicio, a primeira coisa que julgo que todos temos que compreender é que a pesca pode ser encarada de várias formas, e os pescadores não têm todos os mesmos objectivos. A acrescentar a isso, existe ainda a maior ou menor informação de cada pescador em relação ao ambiente e ao habitat dos peixes, mas isto vai dar novamente aos objectivos de cada pescador.

Para mim, existem os pescadores de fim-de-semana, os pescadores com necessidade de reconhecimento e os pescadores sérios. Passo a explicar.

Para mim um pescador de fim-de-semana não é aquele pescador que apenas pesca nos fins-de-semana, nada disso, isso somos praticamente todos, para mim estes pescadores são aqueles que vão à pesca sem terem qualquer interesse em saber o que quer que seja sobre as espécies que vão pescar. Limitam-se a utilizar uma ou duas técnicas que alguém lhes ensinou só porque lhes apetece, sem qualquer tipo de  preocupação se é ou não a adequada para a situação de pesca em que se encontram. São também aqueles que não ligam nenhuma ao tipo de material, nem sabem  adequar as amostras à cana de pesca. Não quer com isto dizer que não gostem de pesca, gostam, e por isso é  que vão, mas se gostassem mesmo a sério certamente que se esforçavam por aprender mais qualquer coisa. Muitas vezes são pescadores de achigã mas com bóia e pardelha/verdemã ou mesmo com asticô. Estes são os que pescam 10 ou 15 peixes para fritar, independentemente do tamanho que tenham, normalmente até são pequenos.

Para mim um pescador com necessidade de reconhecimento (peço desculpa, mas não me ocorre neste momento um termo melhor) é a evolução do pescador de fim-de-semana, ou seja, é um pescador que tem realmente o vício da pesca, informa-se e aprende técnicas de pesca, sabe utilizar o equipamento de forma correcta mas não tem noção do seu impacto ambiental uma vez munido dos conhecimentos e equipamentos adequados. São aqueles pescadores que apanham todos os peixes que conseguem, mas muitos já respeitam a lei no que toca ao tamanho dos peixes capturados, devolvendo à água os achigãs com menos de 20cm. No entanto estes pescadores sentem a necessidade de apresentar os peixes que pescam perante outros pescadores, como prova de que são bons pescadores, e se não forem grandes, ao menos que sejam muitos!

Para mim um pescador sério é mais uma vez a evolução do último. São pescadores que aprofundam ao máximo os seus conhecimentos sobre técnicas e equipamentos, apanham todos os peixes que conseguem mas, no final, estando cientes do impacto que causam no ambiente, acabam por libertar novamente quase todos, senão mesmos todos os peixes que capturaram. São os verdadeiros desportivos!

Enfim, cada um tem os seus objectivos na pesca, como referido pelo Hermínio Rodrigues, e isso é escolha de cada um. O problema que se vive neste meio é que os objectivos de uns colidem com os objectivos de outros, e mais grave ainda, é o facto de o mesmo pescador ter objectivos contraditórios para consigo próprio, se não vejamos: um pescador que perde tempo a informar-se, investe em material de pesca de qualidade e a aprender como utilizá-lo, é um pescador que gosta de ser reconhecido no seu meio como um bom pescador. Ora para mim, um bom pescador é aquele que consegue apresentar resultados consistentes e que tem uma boa média de capturas de peixes grandes, no entanto, se não libertar esses peixes grandes, com o passar do tempo vai capturar cada vez menos peixes grandes, o que é contraditório. Chamo a atenção que ao fazerem isto não acabam com os peixes nas barragens, simplesmente acabam com os exemplares mais atractivos e que mais gozo nos dão a capturar, tornando este  desporto menos atractivo e mesmo desencorajante.

Para mim, o cúmulo da contradição existente entre pescadores que levam peixe para casa e os que libertam o peixe é quando um pescador liberta um  peixe maior e o outro manda vir com ele por o ter feito, dizendo que aquilo não se faz, que o peixe era grande e devia ter ficado com ele. É óbvio que apenas dizem aquilo porque estão perante uma situação que desconhecem e que vai contra aquilo que lhes foi incutido, não percebendo ali logo que essa situação lhes é favorável, ou seja, se eu liberto um peixe maior, existe uma boa probabilidade de esse peixe voltar a ser pescado, e até pode vir a sê-lo por esse pescador que acha que isso não se devia fazer, mas se não libertar, aí é que mais ninguém tem hipótese de o pescar. Só depois de confrontados com este ponto de vista é que percebem que afinal quem liberta os peixes lhes está a fazer um favor.

Uma das capturas de ontem numa massa de água de acesso livre (as outras forma semelhantes)

Uma das capturas de ontem numa massa de água de acesso livre (as outras foram semelhantes)

Os pescadores que libertam os peixes fazem-no por vários motivos. Os meus são simples, quero continuar a ter o maior número de peixes possível para capturar e, acima de tudo, quero ter as melhores hipóteses possíveis de capturar grandes exemplares. Sou assim da opinião de  que os grandes exemplares devem ser protegidos, e julgo que todos os que praticam o pescar e libertar também partilham desta opinião. A meu ver, na lei da pesca, mais importante que a existência de uma medida mínima para o peixe que se pode reter, seria a existência de uma medida máxima.

Expressos estes vários pontos de vista, não me parece que os dois primeiros tipos de pescadores tenham qualquer problema com os últimos, que libertam os peixes, muito pelo contrário. O choque acontece quando se matam os peixes maiores. Ninguém está a cometer nenhuma ilegalidade, e os pescadores estão no seu direito, mas os pescadores que libertam sentem-se indignados, pois vêem ser-lhes retirada a possibilidade de virem a capturar um peixe record.

É aqui que entra a minha questão inicial, sobre o futuro da pesca do achigã passar por águas públicas ou privadas. Pois bem, eu acho que passa pelas duas.

Para qualquer pescador seria sempre melhor que todas as águas fossem públicas, no entanto, não vejo outra saída para os pescadores sérios que libertam todos os peixes que não sejam as águas privadas, à semelhança do que já aconteceu em Portugal com a caça. Só dessa forma conseguirão garantir a qualidade de capturas por que aspiram. Claro que o simples facto de se libertar os peixes não é garante disso, será necessário efectuar uma gestão activa dos recursos, mas já é meio caminho para lá chegar. Mesmo na caça, os caçadores que antes matavam tudo o que conseguissem, agora têm que se reger pelas regras das reservas, e não foi por isso que deixaram de caçar, mas em contrapartida, ao serem obrigados a fazê-lo de forma controlada garantem o futuro.

Uma das capturas de uma pescaria numa massa de água de acesso reservado (as outras forma semelhantes e muitas melhores)

Uma das capturas de uma pescaria numa massa de água de acesso reservado (as outras foram semelhantes e muitas melhores)

Não sou a favor de que todas as massas de água se tornem privadas, mas estou convicto que os pescadores sérios se devem organizar, criando reservas de pesca, onde possam praticar o seu desporto com uma média de capturas acima do quilo.

Quero ainda deixar claro que eu passei pelas três fases de pescador que menciono neste artigo, e embora seja defensor do pescar e libertar, percebo e respeito todos os outros pontos de vista enquanto forma legal, mas discordo enquanto mentalidade. Eu escolhi evoluir a minha mentalidade, pois verifiquei que os conhecimentos e técnicas que tinha ao meu dispor se tornavam uma vantagem injusta para os peixes, e se não começa-se a libertar os peixes que capturava, rapidamente ficaria sem peixes nos locais onde costumo pescar.

Exposto o meu ponto de vista, gostaria de saber as vossas opiniões nos comentários abaixo, e se concordam ou não com a privatização das massas de água.

Alberto Nunes

Alberto Nunes é um profissional de Informática viciado em pesca ao achigã. Criou o basspt.com para partilhar as suas ideias e experiências de pesca ao achigã, e para colmatar a falta de informação em Portugal sobre esta temática.

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