Como em tudo na vida, na pesca do achigã há maneiras correctas e incorrectas de fazer as coisas. Não quer dizer que as formas incorrectas não acabem na captura de peixes e até na de bons exemplares… Nada disso, mas, uma técnica tem e deve ter parâmetros e uma aproximação deve tê-los também. Além disso, há todo um conjunto de cuidados a ter com os materiais que usamos e, a falta de atenção aos pormenores, pode mesmo resultar num enorme lote de maus resultados que, em determinados momentos, podem fazer-nos passar maus bocados à pesca e até levar alguns a desistir, por não verem a recompensa que tanto desejam.

Há erros e erros. Uns mais importantes outros menos, mas se pudermos evitá-los, teremos, pelo menos, a sensação de que estamos a fazer as coisas bem e de que, se não capturamos, é porque há factores que não controlamos que assim o ditam. O objectivo deste artigo não é, diga-se em abono da verdade, apenas apontar os erros ou culpar quem os comete, isso não teria qualquer interesse, pelo contrário, o que interessa é que se note que tipo de erros estamos a cometer para podermos ultrapassá-los e tornarmos-nos pescadores mais eficazes e, consequentemente, bem mais felizes.

A opinião do mestre

Há já algum tempo falei com o mestre Ventura e perguntei-lhe quais eram, na sua opinião, os erros mais comuns que os pescadores de achigã cometiam: «Os erros que nós cometemos são quase sempre os mesmos.» E continuou: «O erro maior é a gente querer que os achigãs façam aquilo que a gente quer. A gente deve fazer o que eles querem, e não esperar que eles façam aquilo que a gente quer. Você repare, eu estou a pescar, por exemplo, com uma amostra qualquer, e o colega que está ao meu lado diz: ‘O peixe está nisto’, e eu respondo: ‘não, ele tem de comer o que eu quero!’ Estou lixado, já não vou a lado nenhum… Porque ou a gente lhe dá o que ele quer, ou então não há nada para ninguém…» Muita gente acha que ter uma amostra favorita é muito bom, porque isso lhe permite apreciar mais a pesca, porém, se não for versátil, a maior parte das vezes será contrariado pelos próprios peixes.

Também há quem pense que é melhor bater muita água do que pescar em zonas mais localizadas e sobre isso Ventura avisa: «Às vezes lançamos quatro, cinco, seis, sete vezes e lá se apanha o achigã. Porque aí ele está raivoso, mas temos de estar num lugar onde tenha estrutura, onde tenha casa. Se não for aí, estamos lixados, lançamos, lançamos, lançamos e vamos embora porque não apanhamos nada.»

Já para a pesca à vista, especialmente quando os peixes nos vêem também «O melhor é: quando vemos o peixe, marcamos, ‘deixa-te estar aí descansado’. Vamos embora; passadas duas ou três horas, se tivermos atenção e se não formos mesmo em cima dele, vamos apanhá-lo. Mas depois temos de ter o cuidado de o devolver à água, senão ele na semana que vem não está lá…» (risos) Muitas vezes é preferível resistir e não lançar a um peixe que nos está a ver e deixar para mais tarde.

A escolha de uma zona de pesca tem de ser criteriosa, tendo em conta o que se está a passar

A escolha de uma zona de pesca tem de ser criteriosa, tendo em conta o que se está a passar

Outro problema é o da localização, ou melhor, dos locais favoritos. Ventura chama a atenção para outro erro comum que consiste em: «Irmos pescar, por vezes, onde não devemos. Na semana passada deu, por isso esta semana também tem que dar! Ora, não é bem assim…» Acrescenta ainda que: «Depende do nível da água, depende do vento, se estiver a bater vento numa margem, maravilha (porque o peixe não nos vê), e também o peixe pequeno anda perdido, ali, anda a alimentar-se, não sabe, e é caçado pelos achigãs. Nós é que temos de apresentar aquilo que o achigã não suspeita…»

Temos ainda de ter atenção à barragem onde estamos a pescar, diz o mestre: «Olhe, vá para o Castelo do Bode e vai ver o que é difícil. A água é limpa; se você não estiver a usar a cabeça como deve ser, vê-se à rasca para apanhar um peixe. E não é que ele não esteja lá! Eles estão! Só que estão lá peixes já muito desconfiados, cada vez mais desconfiados. Já no Pego do Altar, é diferente: eu vou buscar uma cana, faço o lançamento exacto (treino aqui na minha garagem a fazer lançamentos ali para aquela caixinha!), lanço para o sítio certo e não preciso de mais. Aquilo é uma barragem que, se nós lançarmos a um meio metro mais para cá, já não apanhamos nada. Porque ele é enganado como se o isco fosse natural. O achigã não pode estar a perguntar ‘ouve lá, tu és verdadeiro ou não?’»

Muito importante é o treino, como salienta Ventura, mas quantos de nós se dão a esse trabalho? Poucos, acredito. O lançamento exacto e suave são armas que só a repetição nos pode ajudar a conseguir, se vamos pouco à pesca, temos de arranjar algum tempo para praticar nem que seja num jardim público ou mesmo num parque de estacionamento perto de nossa casa. Treinar é muito importante mesmo.

Linhas: escolha e substituição

A escolha de uma linha não deve ser descurada. Falando apenas de diâmetros, e não indo a mais pormenores, eu aconselhava os meus amigos pescadores a irem para uma zona de águas limpas, ou até para uma piscina, e experimentarem o uso do mesmo isco com linhas de diâmetros diferentes. É uma boa maneira de aprendermos como escolher os diâmetros. Depois saberemos que as linhas finas deixam afundar mais os cranks e que as mais grossas podem ajudar a evitar o contacto com o fundo quando necessitamos de um crank grande em pouca água. Este é apenas um exemplo mas há mais coisas que se podem aprender com este tipo de treino.

Outra questão com as linhas é a de saber quando devemos substituí-la. Pouca gente liga a este pormenor que é um dos mais importantes. A maioria dos peixes que se perdem é por partirem a linha e isso só se pode evitar de duas formas em simultâneo: termos muito cuidado e fazer inspecções à linha de x em x lançamentos, consoante as condições, cortando a linha deteriorada e refazendo o nó; além disso é preciso saber quando devemos mudar a linha. Consoante o uso que lhe damos assim devemos agir. Por exemplo, eu faço competição e, antes de cada prova, mudo a linha de todos carretos. Posso até levar a mesma linha às pecarias intercalares, porque faço cerca de duas provas por mês, mas às vezes até a mudo entre dois dias de prova. Se a linha foi muito usada, se passou por muitos obstáculos, se usei técnicas que provocam torção, nestes casos é imperativo que se mude, caso contrário podemos ter problemas no dia seguinte.

Levantar um peixe em peso, como Kevin Wirth faz aqui, implica uma boa escolha de linha e a sua frescura

Levantar um peixe em peso, como Kevin Wirth faz aqui, implica uma boa escolha de linha e a sua frescura

Mesmo o pescador de fim-de-semana deve ter cuidado com as linhas. Se estiver muito tempo sem pescar, não leve as mesmas linhas, vai ver que perde menos peixe.

Luta com o peixe

Outra questão que se prende com a anterior é a forma como se luta com o peixe. Vejo muitos pescadores baixarem a ponteira da cana para evitar que o peixe salte, e isso pode até estar correcto, mas a cana deve estar bem dobrada, não deve ser apontada ao peixe como muita gente faz. Se a cana não estiver dobrada, não estará a fazer nada, é isso que mantém a tensão que evitará que um achigã vença a luta. Normalmente estes peixes tentam saltar para se libertarem do que os prende, a minha estratégia de luta consiste em ter a cana levantada até que ele se aproxime da superfície, quando ele está quase a atingi-la eu dedico-lhe toda a minha atenção e baixo a cana no preciso momento em que ele tenta sair da água, sempre com a linha tensa e com a cana em curva, ou seja, em acção.

Por falar em canas

Outro dos erros mais comuns é o uso de qualquer cana para qualquer técnica. A escolha de uma cana deve ter em atenção o que queremos fazer com ela. Se usamos uma cana para tudo ela deve ser de acção média, com a ponteira entre o regular e o rápido, para que se possa usar todo o leque de amostras, no entanto, tenho visto pescadores até em competição com canas perfeitamente desadequadas. Usar uma cana com a ponteira lenta para o empate Texas é um erro que nos pode custar uma má ferragem e a consequente perda do peixe. Usar uma cana com a ponta rápida para pescar à superfície ou com crankbaits terá o mesmo efeito. Consultem as marcas e perguntem a quem está ao balcão da loja, eles devem saber quais os usos adequados de cada cana.

Jeff Kriet está a pescar com um jerkbait, a cana é a ideal, com uma acção quase total

Jeff Kriet está a pescar com um jerkbait, a cana é a ideal, com uma acção quase total

Uso do destorcedor

Os destorcedores são apetrechos muito úteis para evitar a torção exagerada das linhas. A preguiça, e a falta de informação, levam muitos pescadores a usar este apetrecho ligado a um «alfinete» (espécie de clip para ligar a um elo), para troca de amostra com mais facilidade. O destorcedor só faz sentido em iscos rotativos como as colheres (ou medalhas) que se usam para a truta ou para evitar a torção da linha. Há quem o use, por exemplo, acima do anzol no empate de drop-shot e é normal noutros empates, como o Carolina, agora, em amostras pequenas como as poppers, as passeantes e os mini jerkbaits não faz sentido. O peso extra à frente vai inibi-los de trabalhar correctamente. Outro tanto se diga para o empate Texas, um aparato destes entre o anzol e o peso só poderá atrapalhar e fazer rodar o isco, coisa que não se pretende, uma vez que, seres que se deslocam no fundo ou a meia água, como sejam um peixe, um lagarto ou um lagostim não rodam sobre si naturalmente.

Atenção aos dados da equação

Por muito que queiramos nunca vamos entender todo o cenário, teríamos de ser peixes, mas podemos aproximar-nos bastante. Normalmente uma captura provoca em nós um efeito anestesiante. Por momentos enchemos-nos de felicidade e esquecemos o mais importante: o modo como tudo aconteceu. Pois é. Sabemos que a padronização é a chave do sucesso, que, se percebermos bem o que está a acontecer no momento do ataque, podemos resolver o puzzle que é a pesca do achigã, no entanto, raríssimas vezes nos recordamos dos elementos essenciais de uma captura: como foi o ataque? Voraz, subtil? De que lado da cobertura? Onde batia o vento, onde fazia sombra? Foi na queda? Foi no fundo? Foi quando deflectiu? Enfim, esta lista de perguntas nunca mais acabaria tendo em conta a época do ano, as condições atmosféricas, a localização, o tipo de amostra e de técnica empregadas. Se conseguirmos lembrar-nos desta informação poderemos procurar condições idênticas e ver se confirmamos um padrão, depois é só utilizá-lo em nosso proveito. O nosso erro consiste em não procurarmos recordar imediatamente e limitarmos-nos à celebração, ainda que interior e fugaz.

Capturas como esta dependem da percepção de tudo o que se passou em ataques anteriores

Capturas como esta dependem da percepção de tudo o que se passou em ataques anteriores

A concentração

É muito vulgar a perda de concentração, especialmente nas nossas barragens onde passamos horas à espera de um ataque. Todos sabemos que pescar concentrados é a melhor forma de nos apercebermos de tudo, inclusive do mais pequeno toque, da mais pequena variação no evoluir normal do isco que estamos a usar. Como manter a concentração num dia inteiro de pesca? Todos sabemos que, ao nosso nível, é impossível, mesmo para quem faz competição que apenas pesca quatro ou sete horas. Como fazer então? Há muitas formas. Uma das mais inovadoras consiste uma espécie de meditação constante que se pratica todos os dias para se poder executar em prova. Os profissionais de todos os desportos nos EUA chamam-lhe «estar na zona». Claro que isso é demais para qualquer um dos nossos pescadores, mas há algo que podem fazer e que pode ajudar. Trata-se de pescar concentrado por períodos de uma hora, o que já é muito bom, e intercalar com repouso, em que se pode estar a lançar por lançar ou mesmo parar de pescar. Em competição é melhor continuar a lançar, embora com um nível de concentração baixo, pode sempre conseguir-se um ataque e uma captura.

A terminar

Porque este texto é um bocadinho negativo, apesar de bem intencionado, decidimos usar, para o ilustrar, apenas fotografias de boas execuções. É para contrabalançar, além de que seria de mau tom mostrarmos alguém a executar mal o que quer que fosse. Não se preocupe se habitualmente cai em algum destes erros, está sempre a tempo de passar a fazer bem. Esperamos sinceramente que este artigo o ajude, é para isso que trabalhamos.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

More Posts - Facebook