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“Aprender, aprender, aprender sempre”

Lenine

 

Eu sei que isto devia ser uma coisa mais natural, e de facto é. Mas muitos de ficam desorientados quando têm de aprender algo novo. É normal. Temos necessidade de aprender, e aprendemos até morrer, mas sempre nos custa ter de aprender algo novo, temos de sair da chamada «zona de conforto» e enfrentar algo desconhecido. Não sabemos tudo, obviamente, mas gostamos de delirar com o auto-conhecimento, com a carga genética e às vezes com a magia… A muitos de nós custa-nos admitir o quanto não sabemos! Pois bem, sem percebermos o que não sabemos não vamos aprender nada! E no processo vamos cometer erros, cair e levantar de novo… Faz parte do processo. Mas isso é difícil para muitos de nós.

Eu encontrei esta dificuldade imensas vezes na minha vida, na minha aprendizagem e nas acções de formação em que tomei parte, nos artigos e até nos livros que escrevi.

Foi comum ouvir durante todo o meu percurso e da boca de alguns amigos que comigo pescaram: «Não aprendi nada contigo»… Às vezes a frase encerrava tanto de brincadeira como de ignorância, dependendo da pessoa em questão. Costumava e costumo responder: «Para se aprender é preciso saber»… O pessoal ria-se e pensavam que eu estava apenas a jogar com as palavras. Eu ficava na minha e cada um na sua, mas se calhar, e era isso que eu procurava, obrigava a uma reflexão… É esta reflexão que proponho hoje nesta crónica.

Se tiver dificuldades peça ajuda a um amigo mais experiente

Se tiver dificuldades peça ajuda a um amigo mais experiente

Para aprender temos de ter o espírito aberto e a capacidade de perceber o que não sabemos. Temos de querer aprender. É a isso que eu chamo «saber aprender». Há sempre coisas para aprender, nunca saberemos tudo o que há para saber em relação à pesca do achigã. A própria ciência e a sua evolução nos dá, quase todos os dias, novos temas de aprendizagem, seja porque se descobriu mais alguma coisa sobre o peixe, seja porque foram desenvolvidas novas técnicas de pesca, de detecção, de visualização… e até mesmo de aprendizagem. Sim, podemos aprender formas de aprender mais depressa e de maximizarmos os tempos em que não podemos estar na água a pescar. Hoje vou dar-vos uma como prémio, para quem ler até ao fim. A sério!

Antes, porém, passemos em resumo as etapas de qualquer aprendizagem, para que sejamos conscientes delas de cada vez que as atravessamos. Tomemos como exemplo um lançamento novo. O flipping não é novo, mas poucos em Portugal o usam (embora faça falta por vezes).

Na primeira fase, nós não sabemos que este tipo de lançamento nos faz falta. Há quem chame a esta fase «incompetência inconsciente». Não conhecemos, não sabemos que nos faz falta.

Um dia, tropeçamos num vídeo o Denny Brauer, por exemplo, e percebemos: «É pá! Aquilo é bestial! Eu gostava de saber fazer aquilo. Vai fazer-me falta em n situações…». Aqui entramos na segunda fase: «incompetência consciente». Sabemos que não sabemos. Esta é a fase em que começa a construção.

De seguida, olhamos para o vídeo, ou lemos mais uns artigos, ou pedimos ajuda a um amigo que já sabe fazer e vamos praticar… Em pouco tempo entramos noutra fase: colocamos um copo a dois metros e fazemos os movimentos que vamos vendo, até acertarmos muitas vezes no copo… Depois vamos afastando o copo… Depois experimentamos em algumas saídas de pesca… Enfim, entramos na fase da «competência consciente». Sabemos fazer, estamos seguros quando usamos, mas temos de pensar para executar.

Por fim chega a fase sublime: a «competência inconsciente». Executamos sem pensar. Basta-nos colocar os olhos no alvo que a amostra entra suavemente na água sem um «splash» que seja, não cai na água, entra na água…

Estarmos conscientes da nossa evolução nestas fases pode constituir a diferença entre aprendermos e não aprendermos.

Eu sei que esta coisa da teoria não é do agrado de todos, mas, com a ajuda da teoria a prática torna-se muito mais fácil.

Denny Brauer no Bassmaster Classic de 1998

Denny Brauer no Bassmaster Classic de 1998

Agora vamos lá «apimentar» isto.

Há um ponto fulcral neste processo que é o do treino intensivo. Quando já sabemos que aquele lançamento existe e que precisamos dele, começamos a tentar executar. Aí, temos de ter muito cuidado, porque se não fizermos bem podemos correr o risco de ganhar vícios que nos irão impedir de evoluir, por isso eu aconselho sempre que peçam ajuda a quem sabe. Foi o que eu fiz. Pedi ajuda ao Sr. Ventura e fui à pesca com ele. Houve ali momentos em que eu apenas assisti e outros em que fiz e pedi que me corrigisse. Depois, já a terminar o dia, começámos a sacar peixes, uns a seguir aos outros, e a coisa ficou mais ou menos na cabeça.

Muitos anos volvidos voltei a pescar com o Sr. Ventura e reparei que tinha muito que aprender, mas eu já nem me queria comparar a ele, queria apenas que, quando a técnica me fizesse falta, a soubesse aplicar. Alguns anos mais tarde tive o privilégio de estar no barco com o Denny Brauer e percebi outras coisas… O flipping pode ser conjugado com outras técnicas para maximizar as capturas, ou seja, a cada momento podemos utilizar variações e mesmo outros tipos de lançamentos. O Denny usava o pitching e o flipping consoante as necessidades, consoante a distância ao alvo, o que podia variar com cor da água ou apenas com o posicionamento do barco em relação ao alvo seleccionado. Mas o que aprendi foi que eu podia melhorar apenas a ver e a imaginar…

Uma visita à garagem do Sr. Ventura que é um campo de treino para flipping

Uma visita à garagem do Sr. Ventura que é um campo de treino para flipping

É verdade meus amigos. A visualizar pode-se melhorar muito a performance. Há quem ache isto magia, mas não o é de facto. É ciência! O facto de o nosso cérebro comandar todos os processos motores dá-nos uma grande vantagem. A parte da nossa mente que dá as ordens de execução automática é o inconsciente. O inconsciente contém todo o nosso lado instintivo e selvagem, mas também é ele que nos permite respirar sem pensar, caminhar sem pensar, enfim, tudo o que fazemos automaticamente é comandado por ele. Ora, este inconsciente tem uma porta interessante que deixa entrar todos os sentidos, mas não distingue a realidade da imaginação. Ou seja, se nós conseguirmos imaginar um movimento ao ponto da visualização pormenorizada, então vamos fazer com que o nosso inconsciente prepare o corpo para esse movimento. Quanto mais realista for essa visualização, melhor será o resultado.

Nada disto é novo, já desde os anos 1960 que os treinadores de quase todos os desportos usam estas técnicas para preparar os seus atletas. Durante muitos anos, foi um segredo muito bem guardado, mas depressa se difundiram estudos em que se demonstrava que, numa dada fase da aprendizagem, fazer ou visualizar quase se equivalem em termos de resultados.

Aprender a relaxar é essencial para que consigamos uma visualização perfeita e concentrada. Técnicas de relaxamento aprendem-se na internet, basta fazermos busca.

É esta a dica de hoje. Aprenda a relaxar e a utilizar a visualização na fase de aprendizagem e verá resultados, especialmente nos dias em que a barragem está mais longe que a sua vontade de aprender… Eu já vos contei do meu relativo sucesso, ele não tinha sido possível sem o recurso a esta técnica. Aprendam esta técnica e não se esqueçam que têm de passar pelas quatro fases. Com este texto espero ter ajudado a superarem a primeira. Agora já sabem.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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