Para nós, habitantes de uma zona temperada, é tudo muito simples, as estações são quatro: primavera, verão, outono e inverno. Como somos antropocentristas, temos a mania de extrapolarmos as estações que nos condicionam para tudo o que nos rodeia e de ver tudo em função delas.

Há muitas aproximações a pesca do achigã feitas por este prisma, e, pessoalmente, já tenho elaborado algumas. Não é de todo incorrecto dado que somos nós que vamos pescar, daí vermos as coisas pelo nosso prisma, mas a vida de um achigã tem, períodos muito diversos dos nossos.

Existem teorias elaboradas em função dos períodos que condicionam a vida destes seres. A mais completa que até hoje estudei foi a que a «In-Fisherman» desenvolveu e que não coincide com a que estamos habituados a lidar. Sem querer baralhar e, pelo contrário, para esclarecer, vou tentar simplificar e tornar acessível a todos essa preciosa informação.

Antes, porém, quero lembrar que esses períodos são impostos aos achigãs, como a nós, pela Natureza e pelas alterações que provocam no meio ambiente e não dependem de nenhuma vontade.

Como estamos habituados a planear as nossas pescarias de acordo com o nosso calendário, vamos tentar sobrepor os dois.

Deveria começar o ciclo pelo mais importante – a primavera – em que se passa a reprodução do achigã, mas já falámos sobre isso e basta relerem se acharem necessário aqui mesmo.

Verão

O verão é a estação mais estável o que facilita a pesca

O verão é a estação mais estável o que facilita a pesca

Com o despontar do verão – que produz um aquecimento das águas – há um certo continuar daquela necessidade de comer, e as pescarias podem ser muito boas. Para capturar nesta altura não é preciso muito esforço. Amostras como os spinnerbaíts, os cranks e os buzzbaits são as que melhor servem por haver uma determinada dispersão dos peixes e, cobrindo maior quantidade de água, será mais fácil ter êxito.

Mais adiante, nesta estação, a água estratifica-se e isso provoca diversos comportamentos nos peixes. Alguns preferem zonas de águas baixas, outros fixam-se perto do «termocline» e, outros ainda, nas zonas inferiores, se tiverem oxigénio suficiente para isso. O «termocline» resulta da dita estratificação da água em camadas térmicas e é definido por uma diferença mais acentuada das temperaturas. É uma zona que concentra partículas suspensas e «plankton» de forma que pode ser detectada por sondas electrónicas. A sua localização pode ser a chave do sucesso, dado que concentra sempre achigãs, e esta fase do verão é aquela também em que as condições meteorológicas se mantêm mais estáveis, correspondendo os peixes a essa estabilidade.

Outono

O outono é incerto mas há sempre peixes a atacar temos é de os encontrar

O outono é incerto mas há sempre peixes a atacar temos é de os encontrar

No final do Verão as águas começam a arrefecer, e isso provoca de novo movimentos. Com a eminente aproximação de mais um período de águas frias, os achigãs começam a preparar-se para essas agruras e tratam de procurar alimento. Com a chegada do outono dá-se um revolver das águas, que põe fim a estratificação estival. É o chamado «turnover». Os peixes continuam a alimentar-se e mais uma vez se dispersam, tornando-se necessário o recurso a amostras de maior movimento para percorrer o máximo de área possível em cada lançamento. Agora já é mais eficaz usar amostras que penetrem na água, porque a disposição dos achigãs nem sempre lhes permite os ataques a superfície. Crankbaits e spinnerbaits são boas opções para esta fase.

Inverno

O inverno sendo mais difícil o êxito nunca devemos desistir

O inverno sendo mais difícil o êxito nunca devemos desistir

Durante o inverno as águas estão frias, normalmente abaixo dos dez graus centígrados, e o achigã reage a essas temperaturas com uma redução do seu metabolismo e uma deslocação para águas mais profundas, desde que aí haja alimento e oxigénio suficientes e que essas águas não sejam demasiado ácidas ou alcalinas, isto é, que possua um pH suportável, entre os 5,5 e os 9,5. Como não consome muitas energias, não tem necessidade de se alimentar tanto, e isso torna-o mais difícil de pescar, mas nem tudo joga contra nós. Os locais ideais para a sua invernia não são tantos como isso, o que o obriga a constituir aglomerados em determinadas zonas específicas. Portanto, apesar de não necessitar de muito alimento, tem muitas das vezes de lutar por ele, tornando-se assim mais vulnerável às nossas técnicas, que devem ser executadas de forma lenta, de acordo com o modo de estar do achigã nesta fase.

À medida que nos aproximamos do fim desta estação, entre fins de fevereiro e princípios de março, assiste-se a uma subida das temperaturas. Os achigãs começam a procurar e a frequentar zonas mais baixas com vista a posterior preparação de ninhos. Há movimentos mais ou menos esporádicos de águas mais profundas, para zonas mais baixas, de que podemos tirar partido. Não se trata de deslocações de grupos, mas sim individuais, o que torna difícil a sua localização. Uma técnica que uso nesta altura é a de ter sempre uma cana preparada com um jig e porco ou minhoca e, ao avistar coberturas em zonas baixas, executo cinco ou seis lançamentos. Tenho tido alguns resultados coroados com maiores exemplares, que são os que se deslocam mais cedo. Mesmo durante todo o Inverno não deixo este procedimento, porque muitas das vezes existem indivíduos isolados que manifestam comportamentos desse género extemporaneamente.

Depois vem a primavera, mas já falámos disso, podem reler aqui.

O pouco que se pode pescar na primavera pode render boas pescarias

O pouco que se pode pescar na primavera pode render boas pescarias

Outra visão do calendário

A divisão em dez períodos proposta pelos cientistas da «ln-Fisherman» está integrada nesta explicitação que se acaba de fazer. Não se procedeu a enumeração de cada fase e faltam estudos que nos indiquem as transições precisas entre uns e outros. Daí que se considere desnecessário proceder-se a uma calendarização tão compartimentada e em pormenor. Não se tratando de intervalos de tempo iguais entre si, a sua longevidade varia de clima para clima.

Em termos abstractos resumir-se-ia ao seguinte esquema:

1) Pré-desova; 2) Desova; 3) Pós-desova; 4) Pré-verão; 5) Pico do verão; 6) Verão; 7) Pós-Verão; 8) Turnover; 9) Água fria; e 10) Inverno.

Na descrição que se levou a cabo, inclui-se 1), 2), 3) e 4) na nossa primavera; 5), 6) e 7) no verão; 8) e 9) no outono; 10) corresponde ao inverno a que se pode seguir uma fase igual a 9) (água fria), que dará lugar a uma nova fase de Pré-desova, 1).

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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