Depois de muitos terem predito que não se podiam fazer previsões e de o próprio VanDame, além de considerar que esta ia ser uma das provas mais difíceis de sempre, ter dito que o vencedor viria a aparecer sem que ninguém percebesse de onde, é possível fazer um resumo de quase tudo o que se viu.

O vencedor

Jordan Lee, um miúdo de 25 anos, a pescar o seu segundo Classic, disse mesmo na conferência de imprensa que nunca imaginou ser possível. Até à última pesagem ele esteve à espera que alguém o levantasse da cadeira onde se senta o líder antes de serem pesados os seis últimos – os «Super six». Ao final do primeiro dia estava em 36º e a imaginar que ia ser difícil chegar aos 25 que pescam no terceiro dia. Fez uma das melhores pescarias do segundo dia e, mesmo assim, ficou no 15º lugar a cerca de seis quilos do primeiro…

Jordan Lee - vencedor BASSMASTER CLASSIC 2017

Jordan Lee – vencedor BASSMASTER CLASSIC 2017

A iniciar o seu terceiro dia imaginou que se conseguisse um limite com 15 quilos talvez tivesse hipótese de vencer, mas estava muito longe de imaginar que isso fosse possível.

Foi fazer a sua pesca quando teve um problema no motor e teve de parar num local mais do que o que queria. Enquanto esperava ajuda, fez uns lançamentos e apanhou alguns bons exemplares até que percebeu que estava numa zona muito especial. Um bico primário que tinha a cerca de um metro e oitenta uma zona de rocha dura que os achigãs usavam nas suas deslocações de e para dentro de uma zona de marina onde algumas desovas tinham tido lugar. Quando decidiu tirar o blusão deixou o seu football jig parado e, quando voltou a pegar na cana, tinha lá um peixe… Só aí percebeu que tinha de pescar mais devagar para capturar os maiores exemplares.

Os acasos

Sim, sem dúvida uma sequência de acasos que o favoreceram, mas ele soube responder, tinha armas para isso e usou-as da melhor forma. Eu sei que agora se fala da sorte que teve… E teve! Mas! Ele estava a pescar esta prova porque se tinha apurado, não caiu do céu. Ele teve de trabalhar um ano para chegar até aqui e já o conseguiu por duas vezes. Além disso, ninguém o viu baixar os braços. Imaginava que não chegava, mas queria fazer o melhor possível. Sem dúvida que tem um grande futuro pela sua frente, afinal começou da melhor maneira.

Além do jig ele usou também um crank da Strike King 5XD e um shacky head rig que lhe deu dois peixes de dois quilos e meio, mas os maiores exemplares saíram com o conjunto formado pelo football jig de 14 gramas com um Rage Craw, que depois mudou para um Space Monky, nas cores greenpumpkin e summer craw. Veja as imagens para dissipar alguma dúvida.

Sabia-se que isto ia ser complicado para todos. O lake Conroe é pequeno e está muito próximo de uma grande metrópole – Houston – uma das maiores cidades dos EUA. A pressão de pesca tem aqui um dos seus expoentes máximos. Todos os dias o lago é procurado por inúmeros pescadores e todas as semanas se desenrolam várias provas de muitos tipos e de muitas categorias diferentes, fazendo com que os peixes sejam muito condicionados. A espécie mais abundante não é esta, há imensos striped bass e muitos peixes-gato. A somar a isto um inverno atípico, uma época do ano que colocou os pescadores entre pré-desova, desova, e pós-desova e, ainda mais, a instabilidade meteorológica… São demasiados factores para que se consiga estabelecer um padrão que funcione três dias.

Os outros e os seus erros

Dito isto, e tendo ouvido bem os cinco entrevistados além do campeão, houve várias constantes. Ninguém sabia se no dia seguinte conseguiria fazer o mesmo ou melhor. Todos acharam que não venceram «porque não era a sua vez»… Como se houvesse um plano divino ou pelo menos acima da sua compreensão… Mas até aí tudo bem, até se compreende. Agora, os erros, as más decisões que reportaram (desde já lhes tiro o chapéu por terem partilhado) são de «bradar aos céus» refiro apenas duas: Ott Defoe perdeu um peixe grande porque se esqueceu de afinar o travão… Esta é de principiante; Brent Ehrler perdeu peixes por não refazer os nós com mais frequência… Outra de principiante. Enfim, todos sabemos a pressão a que estão sujeitos. O vencedor disse mesmo que se estivesse em segundo a entrar no último dia, nunca conseguiria pescar como pescou.

Quem ouviu os diretos percebeu que Davy Hite foi muito crítico do Iaconelli quando ele decidiu abandonar o padrão que lhe deu dois peixes e um com mais de quatro quilos. Realçou várias vezes que ele devia ter esperado mais algum tempo. Iaconelli reconheceu que foi uma má decisão ter ido tão cedo tentar os peixes mais pequenos. Se ficasse mais uma hora ou uma hora e meia, poderia ter apanhado outro daqueles, quem sabe, poderia mesmo vencer.

Estas ideias que aqui deixo servem apenas para mostrar que más decisões acontecem em todos os níveis e que há sempre margem para evoluir neste desporto. Não estou aqui a denegrir a imagem destes senhores da nossa pesca. São humanos e, sob pressão, cometem erros.

Bonito de ver o «bom perder» que têm estes senhores. Já refeitos e contentes com o que fizeram portaram-se em palco como verdadeiros campeões.

Inovação

Apenas mais uma coisa que me parece importante e apesar de Ehrler não ter aguentado a liderança e ter mesmo caído para terceiro. A sua técnica é uma inovação. É com esta gente que se aprende. Ele estava a executar pitchings para arbustos. Normalmente para esta aproximação usam-se empates Texas com peso ou jigs. Ele usou um D Shad, da Gary Yamamoto (uma amostra muito parecida com um Fluke da Zoom, só que é mais pesada porque a composição do plástico tem sal) num empate Texas sem peso, o que lhe permitia pescar mais lentamente e com quedas mais naturais. Ehrler só não conseguiu perceber que queimou a área em dois dias e gastou quase todo o seu tempo lá em vez de visitar outros pontos que tinha em vista.

D Shad

D Shad

Perder tempo

Por falar em perder tempo… Edwin Evers foi quem mais tempo vimos perder. Duas horas à volta de um peixe num ninho! Parece um exagero, mas sabemos da sua consistência e dos seus nervos de aço… Devia ser um peixe que mereceu todo o seu empenho. Mas pescar em ninhos é assim, nem sempre se consegue o que se quer.

VanDame, sempre ele

Uma palavra final para quem nos ajudou com as suas previsões – VanDame. Acho que foi o primeiro a perceber que fizesse o que fizesse poderia funcionar ou não. Assim, manteve-se fiel a ele mesmo. Elegeu as amostras da sua preferência e deu um espetáculo com elas. É preciso ser mesmo muito bom e mentalmente muito forte para fazer o que ele fez. Cada vez gosto mais dele!

 

Esta vitória, como a de Bryan Kerchal e a de Takahiro Omori, demonstram que os sonhos acontecem ali. Se o seu sonho é estar um dia numa coisa daquelas, o que tem de fazer é inscrever-se na B.A.S.S., depois na BASS Nation de Portugal e participar nas provas portuguesas que dão acesso a um apuramento para o Bassmaster Classic.

Sonhar é bom, mas participar é melhor!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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