Sei que vou provocar polémica e sei que vou desiludir alguns dos meus amigos pescadores de achigã… Mas, antes agora que mais tarde. Acho que há um esclarecimento que se impõe depois de me lerem e ouvirem a defender que devemos libertar a maioria dos achigãs que pescamos. Eu defendo o pescar e libertar a cem por cento nas águas públicas que são pressionadas por pescadores profissionais, por quem pesca para comer e para vender e para verem apodrecer por terem mais olhos que barriga…

Porém… E este não é um «porém» qualquer… PORÉM! Quando se fala de gestão de massas de água com determinados fins teremos de olhar para os achigãs como gado… Pois, como gado.

Muita gente trata os achigãs por amigos, acham que eles são inteligentes e acham que matar um achigã é crime… EU NÃO ACHO! Os achigãs são animais selvagens e não de estimação.

Não me interpretem mal. Eu gosto dos achigãs. Gosto deles porque os pesco e para os pescar, que é coisa que nunca fiz aos peixes de aquário que tive. Eu sei que é fácil confundir s coisas, mas se queremos ter uma massa de água para produção de troféus, de achigãs grandes, temos de matar muitos peixes. Se quisermos fazer uma gestão a privilegiar quantidades… Teremos, de qualquer modo, de matar achigãs. A gestão de uma massa de água com um determinado fim é como a produção de animais para o nosso consumo. Temos de saber se queremos leite, se queremos carne e que tipo de carne. Temos de saber se fazemos uma exploração intensiva com vista a fazer face aos mercados globais ouse queremos que os nossos animais sejam de topo alimentando-os com verdes pastos para que a sua carne seja melhor.

Gerir uma massa de água para grandes exemplares é um fim que exige meios e esses meios passam pela colheita seletiva de determinadas faixas etárias.

Esta é uma questão que foi colocada a Ray Scott que foi quem primeiro defendeu a pesca sem morte. Este ícone da pesca do achigã tem algumas barragens, uma delas, é-lhe particularmente querida porque foi construída ao redor da casa onde habita. Interrogado sobre se acha que todos os achigãs devem ser libertados nem hesitou… Sim! Sem dúvida!… Nas águas públicas, agora nas privadas bem geridas… NÃO! Ele mesmo leva os miúdos à pesca para fazer uma colheita seletiva de forma a garantir que o alimento disponível não é absorvido pela miudagem em vez de engordar os possíveis troféus.

As massas de água concessionadas e privadas com projetos de pesca do achigã devem ter um plano de gestão direcionado para agradar aos pescadoresAs massas de água concessionadas e privadas com projetos de pesca do achigã devem ter um plano de gestão direcionado para agradar aos pescadores

As massas de água concessionadas e privadas com projetos de pesca do achigã devem ter um plano de gestão direcionado para agradar aos pescadores

Eu pesquei no Ray Scott Lake em 1998. Na sequência da sua visita a Portugal em 1997 fui convidado para assistir ao Bassmaster Classic do ano seguinte e a passar uns dias em sua casa.

Eis o momento mais desejado na carreira de um pescador - a pose de foto para recordar junto de quem proporcionou o feito

Eis o momento mais desejado na carreira de um pescador – a pose de foto para recordar junto de quem proporcionou o feito

Na véspera, Ray estabeleceu um objetivo: «Pescamos duas horas ou 40 exemplares». Connosco estava Jim Kientz, mais um amigo do Ray que passou a ser meu também. Começámos cedo, seriam umas sete da manhã… Eles apanharam muito peixe… Era um ano incaracterístico devido ao então recente fenómeno do «El Niño». O lago estava baixo e os peixes que se apresentavam aos spinners e a amostras rápidas eram pequenos, 25 a 30 cm. Eu vinha do Classic e resolvi experimentar duas ou três amostras que Dany Brauer me tinha dado. Eram tubejigs de grandes, negros com flocos metálicos vermelhos, que eu empatava como tinha visto – Texas com a bala de enroscar que ficava bem preso. Eu só pesquei dez peixes, mas nenhum tinha menos de 2 quilos e bati o meu recorde com um peixe que tinha 71 centímetros, embora tenha pesado apenas 3,230 quilos… Ainda hoje é o meu recorde. Jim Kientz disse-me que eu podia dizer a quem quisesse que o era um peixe de dez libras, porque tinha tamanho para isso… Mas na verdade estava muito magro. Claro que o peixe tem o peso que tem quando o pescamos e isso, para mim, basta.

Esta conversa toda para vos dizer que é isso que pretendo de uma massa de água em que se paga para pescar (apesar de não ter pago nada). Quem tem massas de água privadas e concessionadas e não consegue produzir troféus tem necessariamente de estudar gestão de pesca. E tem de perder o amor aos peixes. Acho que deve mesmo abrir atividade de produtor para poder capitalizar-se com a venda dos peixes que estão a mais na sua massa de água. Se não tiver necessidade dessas verbas poderá sempre oferecer esses peixes para fins humanitários ou o produto da venda, mas… E este não é um «mas» qualquer… MAS, gerir é isso mesmo – dar aos utilizadores-pagadores os troféus que procuram quando pagam para pescar.

Um momento decisivo na captura do meu recorde numa massa de água gerida com vista à criação de troféus

Um momento decisivo na captura do meu recorde numa massa de água gerida com vista à criação de troféus

Não deixa de ser curioso que Aaron Martens, num vídeo sobre conservação publicado na página de Internet da BASS, tenha mesmo dito aos pescadores que, se pescam para levar alguns peixes para comer, que libertem os maiores e que levem dos mais pequenos… Mesmo em águas públicas! Aconselha que selecionem a classe que tem mais exemplares e deixem os exemplares de grande porte. Se compreender inglês não deixe de ver aqui.

Peço desculpa se os desiludi, mas não sou realmente amigo dos achigãs. Sou amante da pesca do achigã, o que é uma coisa muito diferente.

Ah… É verdade. Já me esquecia. No Ray Scott Lake, pescámos apenas hora e meia e o Jim fez o 41º peixe já no regresso. Aquilo é GERIDO!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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