As palas metálicas começaram a ser usadas em imitações de madeira, muito antes de se usar o plástico no fabrico de iscos artificias. Algumas resistiram às mudanças e continuam a ser usadas por alguns dos melhores especialistas portugueses em matéria de crankbaits, embora em versões mais recentes e já com o uso do plástico o que facilitou a implantação de rattles. Campeões como Joaquim Moio e Mário Nelson são frequentemente vistos a usar estes iscos e a difundir o seu uso por quem se cruza com eles na água ou em qualquer conversa sobre o assunto.

O factor C

Tendo acompanhado os dois em muitas jornadas de pesca, é-me fácil concluir que o factor C (confiança) é fundamental. As amostras que vão mais vezes à água acabam por ser as que mais peixe apanham. No entanto, não é apenas o factor C que funciona, estas amostras possuem algumas particularidades que as tornam únicas e que não podem deixar indiferentes os pescadores de achigã. Estes dois pescadores, bem como muitos seguidores, passam muitas horas à procura de alguns modelos que deixaram de ser fabricados. As Rattle-Tot, da Storm, que foi descontinuada há alguns anos, são cada vez mais raras e, muitas vezes marcam a diferença. Por outro lado, com as Mudbug, da Arbogast, sucede o mesmo. Claro há imitações, mas os puristas não se ficam por aí. Usam-nas, claro, mas preferem de longe as originais.

Uma bela coleção...

Uma bela coleção…

A Rattle-Tot…

Mário Nelson em preparação para mais uma escolha

Mário Nelson em preparação para mais uma escolha

Deixando de lado as imitações e concentrando-nos nos originais, digamos que são dois casos muito diferentes. Há quem prefira as Rattle-Tot e não é difícil perceber porquê. A pala é metálica e brilha muito. Quando se desloca pelo fundo, levantando lodo, oferece um brilho inigualável, ao mesmo tempo que emite o som característico de um lagostim em movimento. Esta acção é tão apelativa que as capturas são muito facilitadas se passarem por perto de um achigã, o suficiente para lhe atraírem a atenção. Repare-se que, debaixo de água, o brilho imita um pequeno peixe e o corpo do crank parece-se com um lagostim ou outro pequeno peixe, então temos pequeno predador em deslocação com algo brilhante preso… Haverá achigã que resista a este cenário? Duvido muito.

Esta combinação, de resto, funciona tão bem, que, quando quer pescar mais fundo recorrendo a uma Mudbug, este pescador limpa a pala da sua pintura original para que emita o mesmo reflexo…

A verdade é que cada vez se vêem mais pescadores a usar este tipo de estratagema. Há algum tempo participei num convívio com o André Soares, organizado pela Associação Desportiva de Figueiró dos Vinhos, tendo ele capturado o maior exemplar da prova, um peixe com 1,580 kg, com uma Mudbug assim modificada. Não foi o único exemplar que pescámos, mas valeu-nos um segundo lugar. Quinze dias depois, o seu companheiro de equipa de então, Nuno Ezequiel, capturou um exemplar com 2,250 kg numa prova do Campeonato Nacional que lhes valeu outro segundo lugar… Estes casos são apenas alguns dos que confirmam o número crescente de utilizadores e as razões para que isso aconteça. O mais difícil mesmo é arranjar as amostras, uma vez que não estão em produção e o número de exemplares que aparece nos leilões da Internet são cada vez menos.

… E a Mudbug

Joaquim Moio em treino no Castelo do Bode... Lá está a Mudbug alterada

Joaquim Moio em treino no Castelo do Bode… Lá está a Mudbug alterada

Outros preferem as Mudbug e nem se importam que tenha a pala pintada. Há mesmo quem use a Mubbug na maioria das suas pescarias com crankbaits. O que mais sobressai na amostra é a forma como se desloca, imitando um lagostim a passear pelo fundo, e a maneira como passa por coberturas em que poucos pescadores arriscariam lançar os seus cranks. Há quem tenha sempre uma destas amostras montada e pronta para a acção. As únicas coisas que podem variar são a cor e o tamanho que, neste caso, é indicador de profundidade, quanto maior for a amostra maior é a pala e, consequentemente, mais profundidade atinge. Não é difícil avalizar o uso destas amostras na minha equipa actual. Há já alguns anos, tendo como parceiro o Mário Nelson, ele capturou, com uma amostra destas, todos os peixes do segundo dia da prova Yamaha, do Torneio APPA, que teve lugar no Castelo do Bode, em meados de Julho passado… Claro que o seu factor C acabou por me contagiar e sou cada vez mais fã quer das Mudbugs, por sua influência, quer das Rattle-Tots por influência do meu amigo e também antigo parceiro, Joaquim Moio.

Para trabalhos «pesados»

Tecnicamente pode dizer-se que estas amostras servem para quase todo o tipo de trabalho exigível a um crankbait, mas o seu ponto de excelência é o trabalho em coberturas rijas, como madeiras de todos os tipos, pedras soltas, estruturas em metal ou mesmo em betão. Uma coisa é certa, é que é no contacto com estes elementos, e no consequente desvio de rota, que as amostras de pala metálica dão o seu melhor. Se não estivermos a provocar contacto com todo o tipo de obstáculos presentes não estamos a retirar o melhor partido delas. Nem que se trate apenas do fundo, há que provocar contacto, tanto faz que se trate de um fundo arenoso, lodoso ou rochoso. Para isto devemos escolher a amostra segundo a profundidade em que estamos a procurar os peixes. Se estamos num fundo com 2 metros devemos escolher uma amostra que vá aos 2,5, se o fundo estiver a 4 metros temos de usar os deep divers que podem atingir os 5 e assim por diante. Claro que há limitações, por muito que queiramos, mesmo a maior das Mudbugs não ultrapassará os 6 metros, mas isso já cobre muita água e mais de 50 % das situações de pesca que enfrentamos nas nossas pescarias.

O mercado actual

Estas amostras, como disse, são difíceis de encontrar, mas há algumas marcas que insistem na produção de modelos muito semelhantes. A Brad’s fabrica Rattle-Tots (os Brad’s Rattlin’Dad) e mesmo Mudbugs (Bait Diver Mud Dog), embora com outras designações e até mesmo para outros fins além da captura. O seu Bait Diver Mud Dog é um dispositivo para ajudar outras amostras a afundar, no entanto, com a junção de fateixas, serve perfeitamente de Mudbug, embora só esteja disponível nos tamanhos maiores.

Outra marca que as produz amostras parecidas com as Hot-N-Tot e as Rattle-Tot é a Dave’s Ka-Boom Baits que tem versões com e sem rattles. David Storm, o seu dono, é o criador deste conceito e, quando a Storm foi comprada pelo Grupo Normark, descontinuando a maior parte dos seus conceitos prévios, decidiu lançá-los de novo no mercado através da sua nova empresa. Não avançou para as Mudbugs porque estava fora dos seus conceitos.

É uma pena que o conceito da Mudbug, como amostra, tenha sido de todo abandonada… Coisas do capitalismo de mercado. Porém, a julgar pela procura na Internet, pode ser que alguma marca se aventure ou que a Padco, actual detentora da Fred Arbogast, a recoloque no mercado. Vamos esperar que assim seja.

Tunning

Outras alterações são bem vindas nestas amostras. Normalmente é necessário deslocar o dispositivo onde se ata a linha, que não é uma anilha normal, mas sim um braço em arame que é fundamental para afastar a linha destas palas metálicas, evitando o risco de se a cortar, para o orifício dianteiro. Dobrar um pouco a pala para baixo, ajuda a entrar na água mais depressa e a ter mais acção lado a lado. Há ainda quem solde um pouco de arame de aço no exacto local onde se coloca o braço de amarração para retardar a acção de desgaste entre este e a própria pala.

Esta coisa de pescar com amostras de pala metálica tem muito a ver com o tunning de amostras. Não é que se possa dizer que as amostras não capturam peixes antes das modificações, mas respondem muito melhor depois.

Nas Mudbug, a alteração mais comum consiste em limpar a tinta da pala, nos modelos em que estão pintadas, para emitir o tal reflexo que pode fazer a diferença entre capturar ou não… Vá-se lá entender estes peixes. Aconteceu-me numa prova que os achigãs mordiam a pala e não ficavam presos, neste caso, foi preciso usar uma amostra com a pala pintada para conseguir que os peixes atacassem a amostra na parte onde tinha as fateixas.

É muito importante ver que tipo de fateixas traz a amostra e, se não forem da nossa confiança, é mudá-las logo. Nada pior que termos na água a tentar executar, um isco que não nos proporciona a confiança necessária… Isso pode fazer tudo correr mal. O factor C tem de trabalhar em nosso favor e nunca contra nós.

Rattle-Tot antes e depois do Tunning. Um trabalho de Jorge Bragança

Rattle-Tot antes e depois do Tunning. Um trabalho de Jorge Bragança

Tirar partido do metal

Há muitos motivos para se usar um metal em vez de plástico. Inicialmente usou-se apenas porque era mais fácil, hoje usa-se porque é mais resistente e, em alguns casos porque é mais pesado. De facto há algumas evoluções recentes que usam o titânio, pela leveza e durabilidade. Qualquer destas amostras tem a vantagem de colocar a pala dentro de água com mais facilidade, mas é necessário que não comecemos a dar à manivela assim que tocam a água, porque necessitam de tempo para se posicionarem. Outra coisa que acontece muito é vermos a amostra a rodar no ar quando a lançamos, o que reduz a distância de lançamento. Para resolver este problema é necessário esperarmos um pouco antes do lançamento, ou seja, se vemos a amostra a rodar devido à torção da linha devemos esperar que este movimento acabe antes de as lançarmos.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

More Posts - Facebook