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Drop-shot ou down-shot são designações para muitas técnicas com origem na mesma e com o mesmo princípio, mas com formas diversas de aplicação prática. Basicamente, temos uma forma de montar, e consequentemente de apresentar, a amostra que escolhermos diferente daquilo a que estamos habituados. O peso é colocado na ponta da linha e o isco é atado um pouco acima na mesma. O resultado prático é um peso no fundo e uma amostra a «dançar» suspensa. Mover a amostra de modo a que o peso se mantenha no fundo é a forma tanto original como difícil de executar quando damos os primeiros passos nesta técnica.

Foram os pescadores de achigã japoneses que lançaram esta técnica, adaptando-a de uma forma semelhante que se usava na pesca de mar. O nome que lhe deram significava em português «sempre com sorte», dada a propensão para a captura de achigãs mesmo em condições difíceis e sobretudo nestas.

A técnica foi levada para os EUA no final dos anos 90 e depressa se espalhou pelo mundo. Inventaram-se canas, pesos, amostras e anzóis específicos. Haverá quem não veja vantagem nestes materiais e continue a usar o material de sempre com este novo empate, porém, torna-se necessário parametrizar o que é e o que não é importante quando se executa esta técnica.

Montagem drop shot

Montagem drop shot

Em primeiro lugar, temos de estar cientes de que a forma de colocação do isco, com o anzol exposto ou com o anzol embutido, faz toda a diferença na escolha dos próprios anzóis, das linhas e das canas. Esta primeira divergência de aproximação deve ter em conta o tipo de coberturas e a sua presença ou ausência. Se vamos pescar no meio de árvores ou de coberturas que facilitem as prisões, então devemos optar pelo anzol maior, podendo ser o usado no estilo Texas ou não, de forma a podermos esconder a ponta do anzol, evitando que se enganche em tudo o que encontra. Neste caso, teremos de optar por uma cana mais rija e por uma linha mais grossa, no mínimo um 0,25, para nos permitir uma ferragem eficaz sem provocar rotura.

Joaquim Moio, ao contrário do que muitos pensam, também usa esta técnica quando necessário

Joaquim Moio, ao contrário do que muitos pensam, também usa esta técnica quando necessário

Não me parece que esta seja a forma mais eficaz de usar este revolucionário empate. O uso de anzóis pequenos, como sejam os normais 5, 6 e mesmo 7, permite usar este aparato em zonas com algumas coberturas de forma relativamente fácil sem muitas prisões. Pelo menos o risco vale a pena. Isto porque se trata, no meu entender, de uma forma finesse fishing em que, não sendo limitador, a espessura da linha joga um papel importante na apresentação. Um anzol pequeno prende-se sempre menos que um anzol grande e o isco cobri-lo-á melhor, além do que, como se trata de uma forma de pesca mais vertical que qualquer outra, quanto mais sair lateralmente o anzol da linha, mais se vai prender. Uma coisa é termos um anzol que na perpendicular à linha sai menos de um centímetro, outra é termos um anzol mais longo que sai dois, três ou mais centímetros. Quando os iscos são trabalhados, os mais pequenos permitem maior liberdade de movimento ao isco, enquanto que um anzol vulgar de minhoca, ocupando metade ou mais do corpo da amostra, vai manietar a sua livre «dança».

O uso de linhas mais finas, permitido com uma cana de acção leve a muito leve e com estes anzóis mais pequenos, completará o conjunto potenciando uma apresentação muito mais viva e natural, tão importante quando esta pesca se aplica no meio de cardumes de achigãs neutros ou inactivos.

Manuel Pascoal com um belo exemplar pescado com drop-shot

Manuel Pascoal com um belo exemplar pescado com drop-shot

O empate é simples se o fizermos com cuidado. Muitas coisas se disseram e escreveram sobre a forma como atar o anzol para permitir que ele fique com a ponta penetrante virada para cima. O nó de palomar quase sempre serve se tivermos cuidado no aperto final, porém, esta é preocupação que não tem quem faz o trabalho de casa. O que quero dizer é que levo baixadas previamente empatadas no sossego de casa longe do reboliço que separa uma captura de outra em termos mentais. Nem sempre temos pachorra para reempatar, às vezes até arrumamos a cana e experimentamos outra técnica, o que não é mau de todo, revela abertura de espírito, mas se estamos mais um bocado sem ataques lá vamos ter de empatar de novo. Assim, faço os empates em casa e maximizo as vantagens que isso me proporciona. Todos sabemos que os melhores pesos para esta técnica têm um destorcedor incorporado, e que este serve para que a linha não se deteriore com a torção provocada pela execução da técnica. A verdade é que continua a provocar alguma torção. O problema não é apenas do peso, mas também do modo como queremos que o isco se mova livremente, esse movimento também provoca alguma torção. Em busca de solução para esse problema segui o conselho do Manuel Pascoal e passei a usar um outro destorcedor, muito pequeno, acima do anzol cerca de um palmo. Os resultados são muito satisfatórios e, como o Manel me mostrou, permitem-nos levar de casa, numa cortiça cilíndrica, uma dúzia de empates prontos a ser atados como qualquer outra amostra. O modo de proceder em casa ajuda muito porque cortado um pouco de fio e usando o anzol palomar vê-se logo para que lado fica virada a ponta. É só colocar o destorcedor desse lado e deixar a outra ponta da linha sem nada para colocarmos o peso. Simples, fácil e muito mais eficaz.

Em 1999 tentei pela primeira vez usar esta técnica. Estava num treino na barragem de Santa Clara e depressa me apercebi das dificuldades do uso de anzóis grandes. Foi tão frustrante que coloquei a técnica de lado por mais uns tempos. No seguimento desta experiência li tudo o que conhecia sobre a técnica e, reli mesmo alguns artigos, e percebi duas coisas que me tinham escapado: o posicionamento do anzol era muito importante, devendo ficar com a ponta virada para cima, e que os anzóis mais pequenos estavam a ser usados com muito êxito.

Mark Risk, no Bassmasters Classic de 2000

Mark Risk, no Bassmasters Classic de 2000

No ano seguinte assisti ao Clássico de Chicago onde Mark Rizk conseguiu um brilhante segundo lugar usando exclusivamente esta técnica, pude conversar com ele e perceber o que fazia de diferente, nomeadamente encurtando drasticamente a distância entre o peso e o anzol para facilitar o uso menos vertical da amostra, executando lançamentos e trabalhando a amostra, ao mesmo tempo vertical e longitudinalmente. Tudo isto me deu que pensar e, no ano de 2001, logo nos primeiros treinos com o meu recente parceiro, Manuel Pascoal, experimentámos várias versões até conseguirmos resultados…

Provavelmente uma das componentes que mais preocupa os iniciados nesta técnica é a escolha do peso, não apenas pela sua massa como também pela sua forma. Hoje, o mercado proporciona muitas alternativas que se podem resumir em duas, os esféricos e os longos. Os primeiros são os de uso mais corrente e até os mais fáceis de encontrar, os segundos servem para situações em que se esteja em presença de coberturas densas ou sobre rochas fendidas e fracturadas. Estes últimos conseguem com mais facilidade entrar e sair de fendas. Quanto à massa, ou seja, ao que na realidade chamamos peso, poucas vezes uso menos de cinco gramas e nunca usei mais de 14, no entanto, a profundidade e a força do vento é que ditam as suas regras. Se o vento for muito forte, os cinco gramas serão incapazes de levar o isco ao fundo, por outro lado, se estamos a pescar abaixo dos dez metros devemos usar um peso que nos ajude a passar essa distância o mais depressa possível e que, ao mesmo tempo, consiga «ancorar» o empate para podermos agitar o nosso isco.

Haverá sempre um drop-shot para quem gosta de pescar fino e um para quem gosta de opções mais musculadas. Uma aproximação finesse e uma outra para quem gosta de usar linhas mais grossas. Cada um de nós deve aprender a usar ambas para poder tirar partido da sua leitura das condições presentes na situação de pesca com que tiver que lidar. Claro que quem gosta de pescar mais fino levará sempre a sua preferência até ao limite e até o excederá por vezes, com óbvio prejuízo na eventual perda de bons exemplares difíceis de controlar. Por outro lado, os que preferem a aproximação oposta também vão tentar adaptar o seu empate às condições presentes por mais adversas que possam parecer. O que me parece a mim é que quem pesca mais fino e com os tais anzóis mais pequenos terá mais facilidade em mudar para uma aproximação ao material mais pesado do que o contrário.

Devemos estar preparados para tudo quando estamos a pescar. Fazer drop-shot com uma linha 0,40, um anzol 1/0, ou mesmo 3/0, por exemplo para fazer flipping, pode valer uma excelente pescaria, é bom que tenhamos isso em consideração numa aproximação a uma água muito turva, a uma zona repleta de vegetação, a uma árvore caída…

Enfim, vale a pena cruzarmos tudo o que aprendemos noutras técnicas e aplicar as suas valias ao drop-shot.

(Este é um excerto de um capítulo dedicado ao drop-shot no meu livro «ACHIGÃ – REFLEXOS» publicado em 2005)

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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