Depois da brevíssima homenagem que fiz ao nosso mestre Ventura procurei formas de o homenagear… Não queria escrever nada de novo porque acho que isso seria mais transmitir o meu estado de alma do que ser conciso sobre quem foi este nosso amigo e o que faz na sua vida. Lembrei-me que o entrevistei duas vezes e que seria bonito republicar essas preciosidades que devem ser únicas. O nosso amigo não se dava muita a exposição pública, a não ser que de defender os achigãs se tratasse. A primeira entrevista foi feita para o primeiro número do jornal «Achigã» que era o órgão de comunicação interna da APPA. Mas a esse, de onde me encontro não posso, não consigo aceder. Procurei e encontrei aquela que penso ser a sua última entrevista e que remonta a 2009. Como foi elaborada com o Dinis Ermida, solicitei permissão para esta publicação, pedido a que acedeu de imediato. As fotos são de uma tarde de 2005 que passei na sua garagem na altura da publicação do meu segundo livro… Fiquemos com as suas palavras…

Entrevista com Ventura Silva

Uma vida a pescar e meia a proteger

 A história da pesca ao achigã em Portugal; o potencial do País e dos nossos pescadores; e a vida e obra de uma figura única na nossa pesca são os pontos em destaque nesta conversa franca que dá que pensar.

 Texto: Hermínio Rodrigues e Dinis Ermida

Fotos: Hermínio Rodrigues

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Ventura Silva é mais do que uma simples testemunha, em primeira fila, da história da pesca ao achigã em Portugal: é também um dos pioneiros da pesca com amostras no nosso País e uma das primeiras vozes a erguer-se em defesa do achigã e da Natureza.

Quando começou a pescar achigãs?

Comecei em 1958, na Rodésia. O primeiro achigã que apanhei… não sabia que era um achigã! Eu costumava pescar aos tilápias… e o raio daquele peixe começou a saltar fora de água! E eu disse para o inglês que estava ao pé de mim: «Epá, esta tilápia deve estar maluca!» Nunca tinha visto um peixe assim… Só depois é que ficámos a saber que era um achigã. Tinha eu 28 anos.

E o que sentiu, quando apanhou esse achigã?

Não cheguei a sentir nada porque pensei que aquele peixe estava doente! Eu nunca vira um peixe daqueles… se fosse um tigerfish… Esses já eu tinha apanhado e esses sim, saltavam fora de água, mas nunca tinha visto nada como aquele. De modo que na segunda-feira seguinte fui à casa da pesca e disseram-me: «Eh, pá, isso é um achigã! Que grande achigã que tu apanhaste!». E depois fui receber uma taçazinha que está aqui para comemorar o primeiro achigã.

Depois voltou a pescar esse peixe? Na loja deram-lhe logo amostras, ou como foi?

Não! Naquele tempo eu não percebia nada de achigãs… nem ninguém na Rodésia sabia que a ‘DGRF’ de lá, que se chama National Parks and Wildlife, tinha posto achigãs em três barragens! Mas depois começou-se a desenvolver… Eu pescava muito mais, e era muito mais conhecido, por ‘predador das tilápias’… só depois passei para os achigãs.

Mas ficou-lhe logo o vício, na altura…

Sim. Começou logo o vício porque aquele bicho ‘dá-nos cabo da cabeça’. O achigã é especial, ele salta, faz todos os truques possíveis para mandar o isco dali para fora… e nós temos de ver se somos ou não capazes de o dominar!

E ainda se lembra da primeira cana e do carreto que comprou?

A primeira cana e o primeiro carreto que eu comprei… ao fim de uma hora mandei-os para a água! Foi em Moçambique… tinha ido de férias, fui a uma loja e ele vendeu-me uma coisinha baratinha, 300 escudos… Quando fui à pesca, aquilo não prestava para nada e deitei logo tudo à água (risos). Só depois de ter comprado um pouco mais caro é que comecei a pescar.

Lembra-se que cana era?

Não… era uma americana… Mas não era de casting! Era uma cana de spinning. Depois na Rodésia, quando comecei a ir à pesca mais os ingleses, vi que eles lançavam longe com o carreto de casting, e eu não sabia! Pensei: eu tenho de aprender! Nesse tempo não havia carretos com a manivela à esquerda, era só à direita. Tanto que eu tinha um carreto que lançava a 80 m da praia! O meu espírito era aprender o máximo que eu pudesse. Por isso é que fui evoluindo…

Quando é que decidiu vir para Portugal?

Quando a minha mulher ficou doente… infelizmente na Rodésia não havia os cuidados necessários. Foi em 1984.

E pouco tempo depois descobriu o Pego do Altar, não foi?

Foi! Fui com um amigo, que me quis levar lá… já sabia que eu era pescador! E além disso eu tinha o barco, trouxe-o da Rodésia…

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Quando chegou a Portugal tinha conhecimentos na área da pesca?

Tinha alguns conhecimentos, porque, quando vinha para cá de férias, eu trazia umas rapalas… Houve uma vez que eu trouxe cinco ou seis rapalas. Fui com um amigo, que era o Jorge, para a barragem do Tijolo, ao pé de Lavre, e disse-lhe: «Ó Jorge tens aqui estas rapalas!». E ele disse: «Bah, para que é que eu quero essa porcaria!», e deu ao filho, que era um miúdo com 9 anos. Ora, eu continuei a pescar ao pé do filho, e, passado um bocado, ele apanha um peixe com quilo e meio! E ele vem logo a correr para o pé do filho e diz: «Dá cá a rapala que ainda a podes perder!» (risos). Isto foi mais ou menos em 1978, ou 79… Depois, quando vim de vez para Portugal, já vinha preparado, já sabia que havia cá boa pesca, para me divertir…

E nessa altura vinha carregado de material.

Eu trazia tanto material… levei-o à casa «O Anzol», no Areeiro, que tinha um senhor, o sr. Gonzalez, e fui lá, gostei da casa, e gostei dele! Então levei-lhe algumas amostras, porque tinha um baú cheio. Ele de início não as queria, pensava que eu estava a vender, mas eu disse: «Ó homem, eu estou a dar! Eu dou-lhe isto! Você agora oferece uma a cada amigo; e depois quando eles voltarem você vende!» E assim foi que começou… logo em 1985.

Quais eram as reacções das pessoas, quando o viam a pescar e a devolver o peixe?

Diziam: «Olha, este deve estar maluco! Este tipo vem até aqui, gasta combustível, dinheiro, e depois deita o peixe à água?». Mas eu já fazia aquilo de propósito, sabe porquê? Porque nós começámos aquilo para defender o peixe… Uma vez, estava lá um senhor a pescar na margem, e eu perguntei «Como vai isso?», e o homem diz: «Já tenho aqui um saco cheio!». E pedi-lhe para mostrar e ele mostra-me um saco grande… mas cheio de achigãzitos pequenos! E então daí é que nós começámos a tentar que as pessoas fizessem alguma coisa para mudar isso. Outra vez, na barragem de Monte Novo, em Évora, eu ia a sair de lá quando vimos um homem a pescar na margem… era um homem educado, nós não temos de falar mal das pessoas! As pessoas eram o que eram, tinham a mentalidade que podiam ter… Mas ele tinha vinte e oito achigãs, numa rede! Peço-lhe para mos mostrar, ele levanta a rede e eu só me lembro de pensar: ai meu deus! E eu tinha cinco achigãs, todos com mais de um quilo… Então eu disse-lhe: o senhor não se importa? Manda esses achigãs todos para a água e eu dou-lhe estes! «O quê?!», diz ele. «Eu dou-lhos, tome lá, mas deite esses para a água!». Eu não queria os meus achigãs, não precisava deles para nada… O homem ficou tão querido, tão querido, que foi fazer uma amostra para eu pendurar no espelho do carro!

Foi por isso que começaram as reuniões com o Governo?

Percebi que era preciso fazer qualquer coisa! Tive a primeira reunião em 1984, em Novembro, com uma senhora, Teresa Ferreira, da então Direcção-Geral de Florestas [ndr: hoje, ICNF]… puseram-me de lá para fora!

Porquê, o que aconteceu?

Porque eu fui lá dizer que queria que me devolvessem o dinheiro da licença de pesca… «Então porquê?», disseram. E eu respondi: «Porque os senhores dizem aqui na licença que não se pode apanhar peixes sem medida mas estão a apanhar, portanto… eu não quero!» E eles: «este homem está maluco!». De maneira que queriam pôr-me de lá para fora… Depois, estive com o director aqui na Azambuja, o tal que quis proibir a pesca com as amostras, porque apanhavam muito peixe! A malta dizia «Este Ventura apanha o peixe todo!», e ele dizia-me: «O senhor há-de dizer-me qual é a amostra, que é para proibir!», e eu comecei-me a rir… «Ó meu amigo, não é da amostra… Não é a amostra que apanha peixe… É o homem, são os anos da experiência!» (risos).

Qual era o objectivo desses contactos que mantinha com a então DGF?

Era a conservação, a defesa dos peixes e da Natureza… Instaurar o defeso, os tamanhos mínimos… Esta reunião em Outubro de 1992 foi uma reunião histórica, com a engenheira Teresa Guimarães e todos os responsáveis da DGF de Coimbra, Castelo Branco, Leiria, Viseu e Évora. Falámos sobre a protecção da fauna piscícola, medidas para as capturas, limites de capturas, protecção dos pegos pequenos e médios contra as redes… na nossa ideia estava o benefício de todas as regiões e de todos os portugueses. Essa reunião foi um sucesso, apesar de ter ficado a anos-luz do pretendido. Esta senhora, de início era do contra, não concordava com nada do que dizíamos! Mas depois mais tarde veio para o nosso lado, deu-nos razão… Foi nessa altura que conseguimos introduzir o defeso… Porque era uma pouca-vergonha… É que o defeso não era preciso, se nós, portugueses, tivéssemos outra atitude, outra mentalidade… Mas não temos!

Que balanço faz da situação actual?

Olhe, há vinte anos, nós tínhamos, que eu conhecesse, três pisciculturas: uma na Azambuja, uma em Mira e outra no Minho. Acabaram com isso tudo… A do Minho existe só para as trutas. Antigamente, lutava-se pelas coisas… Alguém queria peixe para pôr numa quinta qualquer, eles tinham ali na Azambuja, comprava e punham lá. Hoje tudo o que nós temos é a Natureza que nos dá. E nós ainda estragamos! Não temos ninguém no Governo, nem nas Autarquias, que nos faça qualquer coisa. Querem é acabar com os peixes. Porquê?! Então que vão acabar com esses peixes-gato, que esse sim está a destruir tudo… E queria dizer outra coisa, e quero que o senhor se lembre disso: eu tenho a certeza que, tudo quanto nós estamos a fazer… não vai valer de nada nada [ndr: trabalho da APPA juntos das instituições]. Tenho quase a certeza que no fim destes anos todos a poluição e a má gestão vão acabar com isto tudo. Mas, pelo menos, nós temos o dever de continuar a lutar contra isso. E isso devia ser um trabalho das pessoas que estão ‘lá em cima’, nas posições de destaque do poder, que deviam fazer isso e não fazem. É a minha maior tristeza. Não é para mim, porque já estou velho… já vou fazer 80 anos. É para os novos! Antigamente, há cem ou duzentos anos, o que é que as pessoas passavam o tempo a fazer? À beira de água, a pescar e a divertir-se! Hoje não há nada disso… Querem é discotecas, p**** e música… [risos]

Mas temos muita gente jovem a pescar.

Pois temos, mas por cada dez jovens bons que temos, temos setenta ou oitenta que não prestam para nada! Porquê? Porque não vem a ordem lá de cima. Olhe, eu faço a minha parte: levo toda a gente à pesca comigo. Tenho gosto em levar as pessoas! Tenho gosto em levá-las para elas verem o que se passa lá, é para isso que eu os levo, não é só para apanhar peixe que eu as levo!

O que é que lhes mostra?

Chamo a atenção para a Natureza… Num dia de pesca, as horas passam tão depressa que nem se dá por isso.

Se fosse ministro da pesca e da agricultura, o que é que fazia?

Ó meu deus, é difícil… Primeiro, ia começar do princípio, proteger as nossas águas, proteger e dar condições para as pessoas passarem o tempo a divertir-se. A ter saúde! Porque as pessoas não têm a saúde que teriam se andassem mais perto da Natureza. Agora quando saem é só para ir beber, para aqui e para ali… as pessoas querem ir à pesca e eles não as deixam! Você convence alguma criança a gostar da pesca se ela está o dia inteiro sem apanhar um peixe? Essa criança foi porque o pai tem aquele vício, mas para a próxima já não quer ir com o pai! Mas se houvesse cuidado com a água e com a Natureza, havia lá peixe, e as pessoas entrariam na pesca… E mais, esses guardas venatórios que temos aí, e que dizem que são poucos para fazer a fiscalização… Eles não são poucos, na minha opinião eles são muitos! Só deviam era fazer o trabalho deles bem feito. Se fizessem uma vez por semana em cada barragem, eles acordavam as pessoas! «Eh, pá, cuidado, porque os homens andam aí!». Mas não, eles chegam lá e um é primo deste, o outro é cunhado daquele, «coitado do homem veio divertir-se, deixa lá o homem levar os achigazitos para fritar»… quando eles sabem perfeitamente que aquela pessoa está a transgredir! Mas nós, portugueses, somos assim. Mas não somos parvos… porque eu estive 30 anos no estrangeiro e nunca me comportei assim… Se nós no estrangeiro aprendemos a fazer tudo bem, e temos grandes homens, e procedemos de modo irrepreensível, porque é que cá não agimos do mesmo modo? A mim dizem-me: «Ah, o senhor Ventura manda o peixe para a água, e depois os outros apanham-nos e levam-nos…» E eu respondo: «Mas eu não estou interessado nos outros! A gente não tem de seguir o pior exemplo, quando tem o melhor exemplo ao lado…» Olhe, o senhor é de uma revista, e as revistas que transmitam esta visão, que esse é o papel que têm de ter.

O seu diário de pesca inclui uma página para dados pessoais. No campo ‘Em caso de acidente, contactar’, escreveu: os achigãs. Temos então de avisar os achigãs… Até sempre amigo!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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