A passagem das frentes frias é normalmente «culpabilizada» pelo insucesso nas nossas pescarias. Vamos tentar perceber como funcionam, o que há de verdade nessa fatalidade e o que fazer para tentarmos contrariar o insucesso.

Pois é. Sempre que passa uma frente fria a pesca fica mais difícil e nós aceitamos isso como uma fatalidade sem percebermos muito bem o que se passa. Há dois factos a registar para começar: antes da passagem da frente e à medida que ela se aproxima os peixes ficam mais activos; depois da passagem da frente, como muitos dizem, eles fecham a boca. Antes de mais nada vamos tentar perceber o que é uma frente fria e como acontece.

Definição e dinâmica

A dinâmica da atmosfera terrestre é uma coisa muito complexa e difícil de entender, basta vermos como o pessoal das previsões meteorológicas se engana de amiúde, para nos apercebermos dessa dificuldade.

As frentes frias afectam os peixes... Não devem afectar os pescadores

As frentes frias afectam os peixes… Não devem afectar os pescadores

Se pescar achigãs é um puzzle com demasiados elementos na própria ecologia da espécie, a maneira como reage às mudanças súbitas do tempo é talvez o conjunto de peças mais difíceis de encaixar.

Uma frente fria é originada por uma massa de ar polar (frio), que se desloca em direcção ao Equador, embora seja desviada pelo movimento de rotação da terra e pelos ventos dominantes. No momento em que encontra ar mais quente, a massa de ar frio, forma uma frente que gera uma dinâmica que obriga a massa de ar mais quente a subir, entrando como uma cunha por ela dentro. Consoante a diferença de temperaturas e de pressões atmosféricas envolvidas, assim esta frente terá muito ou pouco trabalho, fará muito ou pouco mau tempo. Uma coisa é certa, a massa de ar frio vai abrir o seu caminho até que se estabilizem numa mistura perfeita. Passada a frente, normalmente o céu fica limpo e o ar arrefece.

A pressão atmosférica é outro elemento importante nesta dinâmica. A pressão é o peso do ar, ou seja, da própria atmosfera que é maior no ar frio e mais leve no a quente. A massa de ar frio tem maior pressão atmosférica e por isso consegue fazer subir o ar quente, porque ele é mais leve. Resulta que o ar quente quando sobe condensa-se e dá origem a nuvens altas que de onde depois resulta precipitação.

Então, um local que tinha uma massa de ar quente e baixas pressões é invadido por uma massa de ar frio e altas pressões o que provoca uma frente de ataque até que se instala um ar mais frio e a pressão suba e passe a instabilidade. É mais um jogo de opostos que funciona em ciclo e são mais frequentes nas estações de transição, Primavera e Outono, e no Inverno. No Verão as frentes são muito raras e pouco activas na zona do globo em que nos encontramos.

Explicado o fenómeno analisemos a sua acção ao longo do ano e como afecta os peixes.

Estações

Desde o final do Verão que começam a surgir algumas frentes frias, mas nestas alturas até podem melhorar a pesca, à medida que se vão tornando mais frias e mais activas é que começam a afectar mais as nossas pescarias. No Inverno, o normal é passarem frentes quase todas as semanas até que, nos primeiros vislumbres de Primavera, com o aquecimento do ar, elas começam a ser mais raras, porém afectam mais os achigãs na Primavera que no Inverno, já que eles se começam a preparar para a reprodução e qualquer instabilidade vai obrigá-los a retroceder nos seus intentos.

Porque afecta os achigãs

Muito se tem escrito e opinado em fóruns sobre este assunto. Há quem diga que a subida da pressão afecta directamente a bexiga-natatória dos peixes, há quem diga que a pressão da água varia significativamente e que isso afecta os peixes deixando-os mal dispostos… Há mesmo quem ache a diferença das temperaturas pode ser prejudicial ao apetite dos peixes… Bem. Nada disto está provado cientificamente. O que sabemos é fruto da prática, é um conhecimento de facto: comem mais antes da passagem da frente e deixam quase de comer depois. Também sabemos que se aproximam da superfície antes da passagem e que se afastem dela depois, ou então, se não afundarem, dirigem-se para as coberturas ou estruturas mais próximas. Quando afundam, mantêm-se suspensos e afastados das estruturas embora, de alguma forma relacionados com elas. Podem ficar afastados das margens pairando sobre elevações no fundo, ou próximos de estruturas submersas, como grandes rochas, árvores ou arbustos.

De tudo o que li até hoje o que me pareceu mais bem credenciado foi um artigo de Steve Quinn, um editor da revista In-Fisherman, que é também biólogo e desenvolve trabalho para a American Fisheries Society. Segundo Steve Quinn, todos estes movimentos dos achigãs se devem aos movimentos da sua comida. O zooplâncton (animais minúsculos) aproxima-se da superfície antes das passagens de frentes trazendo consigo os peixes-pasto do achigã. Por outro lado, quando passa a frente, o zooplâncton afunda ou dirige-se para as coberturas e estruturas mais próximas… Ora aí está algo que faz sentido.

Mas também, se analisarmos de outra forma, poderemos compreender. Antes da passagem da frente surgem nuvens que cobrem a luz solar, o que por si só poderia colocar os achigãs mais activos a comerem que nem loucos. Com a passagem da frente vêm os dias de céu limpo e luz intensa, o que normalmente é mais que suficiente para afastar os achigãs das zonas baixas e obrigá-los a procurar coberturas e estruturas de protecção. Faz sentido, não faz?

Saber o que fazer em condições difíceis é uma das chaves do sucesso na pesca

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Como dar a volta

Felizmente há várias maneiras de resolver este contratempo. Em primeiro lugar devemos esperar peixes inactivos, o que nos avisa da sua baixa capacidade para se deslocarem em perseguição de comida. O melhor mesmo é procurarmos coberturas e tentarmos oferecer-lhes a falsa comida o mais próximo possível. Isto consegue-se com técnicas de aproximação mais vertical como flipping e o pitching com amostras pequenas. Em vez de percorrermos grandes quantidades de água através de lançamentos longos, devemos fazê-lo com mais lançamentos curtos.

Também se sabe que estas alterações afectam mais os peixes que se encontram em zonas menos profundas, assim sendo, podemos procurar os peixes das águas mais fundas com crankbaits e spinnerbaits recuperados muito lentamente. Mesmo em águas menos profundas podemos optar por esta variante, é possível provocar um ataque de reacção se aproximarmos os nossos iscos das zonas em que se protegem e não formos muito rápidos a fazê-los passar.

Regra geral, para peixes mais difíceis é sempre bom reduzir os diâmetros de linhas e os tamanhos dos iscos. O drop-shot e o jigging vertical são excelentes técnicas para os peixes que suspendem sobre estruturas ou coberturas.

Não podemos controlar as condições meteorológicas, podemos apenas adaptar a nossa performance

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Uma coisa deve ficar bem clara. Nunca é melhor solução ficar em casa, porque um dia de pesca é sempre um dia de pesca. Não se trata apenas de pescar peixes, embora seja essa a essência, a verdade é que o contacto com a Natureza e o que podemos aprender num dia destes supera, do meu ponto de vista, qualquer bom filme ou tareia no sofá.

É melhor ir à pesca e já sabe: se pescar e soltar pode voltar a pescar!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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