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Para quem pesca achigãs, começa a fase do ano em que temos de pensar noutras coisas, porque já começou o defeso. Sugiro que treinemos… Podemos começar por treinar lançamentos e esta é uma ajuda para quantos não querem esquecer a pesca ou querem melhorar a sua técnica. Há muitos anos que venho dizendo que é essencial ser versátil e para alargar o leque vamos iniciar uma rúbrica sobre lançamentos.

O flipping

«Flipping» traduz-se por «lançar curto» – em termos linguísticos –, e apanhar muitos e grandes peixes, em termos de pesca. Trata-se de um lançamento pendular e curto, entre os três e os seis metros, que permite uma apresentação vertical.

Bassmaster Classic de 1998 - Uma das árvores...

Bassmaster Classic de 1998 – Uma das árvores…

É uma técnica que remonta aos primórdios dos concursos da B.A.S.S., onde mostrou o que valia afirmando-se como uma especialidade que, em determinadas circunstâncias, bate todas as outras. Em 1998, vi deslumbrado, na minha primeira visita aos EUA e ao Bassmaster Classic, Denny Brauer usar essa técnica e tornar-se campeão. As condições eram perfeitas e posso dizer-vos que ganhou em três árvores caídas, uma delas em menos de 60 centímetros de água, precisamente de onde sacou, diante dos meus olhos, o maior exemplar da prova. No meu segundo livro – «Achigã – Reflexos» – relato esse dia de sonho na minha vida de pescador e na carreira, já terminada, de Denny.

... e o peixe que Denny Brauer arrancou em peso de dentro dela - 3,350 quilos!

… e o peixe que Denny Brauer arrancou em peso de dentro dela – 3,350 quilos!

Condições ideais

Vamos então ver quais são as condições necessárias para que se possa praticar este tipo de pesca. Não depende da época do ano, dado que poderemos sempre variar quer a amostra quer a velocidade, dependendo apenas das condições presentes. Só é possível em «águas fechadas» e este termo quer significar águas em que os achigãs não nos possam ver. Não é preciso que as águas sejam escuras, se o forem serve, mas basta que haja vento a «cortar» ou «escamar» a superfície ou, ainda, que haja coberturas que nos escondam. Reunidas estas condições, que, como se percebe de imediato, não são muito raras, poderemos e deveremos praticar esta técnica de grande percentagem de lançamentos e de peixes pescados, quando tudo corre bem e a praticamos com algum jeito.

Se estiverem reunidas as condições que enunciei e alguma prática, só existe um outro elemento que pode faltar – o peixe. Há alturas em que os peixes não estão colados às coberturas e/ou estruturas e, assim sendo, se não obtivermos resposta ao fim de meia hora deveremos pensar que não é o momento do flipping e teremos de nos afastar para tentar encontrá-los. Seria um disparate a persistência, no entanto, após um par de horas poderemos sempre, e em caso de insucesso com outras técnicas, voltar a tentar a técnica que agora exploramos.

Precisão

O lançamento é de grande precisão e por isso vai atingir pontos que outras técnicas deixam para trás ou que lhes são mesmo inacessíveis. Trata-se, como se disse, de um lançamento pendular que não é muito complicado e que se pode executar em três movimentos: em primeiro lugar, deixamos que a amostra atinja o nível do carreto e abrimos com a mão esquerda toda a linha que pudermos para o lado; num segundo movimento, balançamos, como se de um pêndulo se tratasse, a amostra e, aproveitando esse movimento, fazemos com que ela se desloque para a frente; em terceiro lugar, com a mão esquerda a dar linha, permitimos que a amostra se afaste até atingir o alvo previamente seleccionado. A explicação dada é a aconselhada para quem não seja esquerdino.

Dentro de água

Uma vez que a amostra entre na água, toda a atenção é pouca. Os olhos devem estar a seguir cuidadosamente a linha, no ponto em que esta toca a superfície da água, a mão esquerda, na linha, logo a seguir ao carreto, para facilitar a percepção de um toque e, a mão direita, a «palmar» o carreto, de forma que pelo menos um dos dedos fique em contacto com a parte da cana que penetra no punho. Se nada se passar nos primeiros centímetros de penetração, deveremos elevar e baixar a ponteira da cana, por forma a criarmos um movimento vertical de sobe e desce com algumas variantes pelo meio.

Por norma, os ataques dão-se logo após a entrada na água, mas, se assim não acontecer, não deveremos retirar de imediato a amostra do local, bem pelo contrário, poderemos mesmo parar a amostra por alguns momentos, suspensa ou pousada no fundo, e ainda lançar de novo para o mesmo ponto repetidas vezes.

Ajudas

As plataformas elevadas nos barcos são aqui de grande importância, há mesmo quem lhes chame plataformas de flipping («flipping deck»). A posição elevada que permitem é muito importante, quer na colocação da amostra quer na ferragem. Qualquer margem mais elevada que tenha nas proximidades cobertutas ou estruturas que possam «esconder» achigãs, pode fazer o mesmo efeito, para quem pesca a partir da margem.

As amostras que mais se usam nesta técnica são os jigs com atrelados, ou o empate Texas com anzóis grandes e chumbos presos, para evitar que se separem da minhoca e se prendam. Há no entanto quem use esta técnica para colocar com precisão amostras de superfície flutuantes e também spinnerbaits.

Amostras compactas como esta são ideais para o flipping

Amostras compactas como esta são ideais para o flipping

As canas mais usadas são as especialistas e os carretos também. O dispositivo de flipping existente em alguns carretos permite-nos tirar linha de cada vez que se carrega no dispositivo de soltar a bobina, voltando a ficar presa quando deixarmos de carregar. As canas de 2,25 metros permitem lançamentos até ao triplo do seu tamanho quando bem executados. A sua acção é rápida, permitindo ferragens imediatas e facilitando a manobra do peixe em coberturas fechadas.

Use linhas resistentes e de baixa memória. Neste caso não tenho dúvidas em recomendar as linhas entrançadas de fibras ultra resistentes, como o kevlar, por exemplo. O treino é a base de se fazer bem o flipping. Se tiver um dia em que a pesca está má, experimente ensaiar esta técnica e quem sabe se é assim que a pesca se tornará boa?…

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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