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Para escrever sobre o meu maior segredo na pesca, não posso deixar de vos dizer o que já consegui como pescador… Vou, por certo, esquecer-me de muitas coisas, porque prometi a mim mesmo não consultar dados e escrever só o que a minha memória guarda. Como na pesca do achigã se trabalha em pares, nunca fiz nada sozinho, mas as pessoas com quem fiz parceria, por certo têm o mesmo segredo.

Se não tiver pachorra para ler… vá directo ao fim do texto, se, pelo contrário, é como eu e quer perceber como cheguei até lá… Então boa leitura, espero que seja agradável. Que, pelo menos, lhe dê tanto prazer a ler quanto a mim me deu a escrever.

Vou dispensar os adjectivos para os nomes que são por demais conhecidos neste meio (ou deveriam ser)… Com o Manuel Pascoal, venci o Torneio APPA 2001 e, no mesmo ano o primeiro Campeonato Nacional da história da pesca federada em Portugal. Ainda nesse ano, com o André Fidalgo como parceiro, venci o Torneio do ELBASS. 2004, na mesma com o Manuel Pascoal, fui medalha de bronze no Campeonato Nacional, o que permitiu o nosso apuramento para a selecção nacional de 2005, para o primeiro Campeonato do Mundo da disciplina. Em 2005, com o Joaquim Moio, venci de novo o Torneio APPA e, no mesmo ano, como membro da selecção nacional de pesca embarcada ao achigã, fui campeão do mundo por nações. Mais tarde, sozinho, em 2008, fui medalha de bronze no Campeonato Nacional de Pesca do Achigã – Margem e, em 2009, com o Mário Nelson Fonseca, fui segundo no Torneio APPA… Coloquei tudo no singular porque estou a falar de mim, claro que todo o êxito é plural… Uma pessoa sozinha não faz nada. Pelo menos tem de ter com quem competir.

Mundial de Pesca do Achigã 2005

Mundial de Pesca do Achigã 2005

Com os meus parceiros venci várias dezenas de provas e tive muitos mais parceiros que não quero esquecer. O Fernando Pereira, com quem me iniciei na competição em 1992, tendo vencido a segunda prova do Torneio dos Mestres, promovido pelo CAPP. Esta foi a minha primeira vitória e, na sequência, conseguimos apuramento para a final onde fomos terceiros… Logo no primeiro ano de competição. Depois pesquei com o Gomes Torres e com o Jorge Inácio, com o Diamantino Domingues, mas andei arredado das vitórias até 1999, embora tivesse ficado muitas vezes bem classificado e em lugares de destaque, estava mais empenhado em que a APPA crescesse e em que a competição se afirmasse no panorama da pesca em Portugal… Eu organizava as provas e participava, muitas vezes sem vontade, apenas para que houvesse mais um barco. A vontade de vencer? Essa nunca me faltou e sempre que participava queria ganhar…

De certeza que me esqueci de muitos parceiros… Pesquei numa prova de lúcios em Espanha com o Miguel Cachola e ficámos em segundo; pesquei com o José Manuel Cunha, em Caspe, em 1997, e ficamos em nono lugar, no meio de mais de cem equipas… No virar do século, fui a uma prova em três mãos, que se chamou «Masters del Siglo», duas mãos em Espanha e uma em Portugal, nesta prova pesquei com o Rui Diogo e fiquei em Terceiro… Enfim, já viram que o sucesso foi uma constante na minha carreira competitiva, portanto, basta de gabarolices que, apesar de verdadeiras e muito boas para o ego, fazem-nos perder a modéstia e ameaça a humildade necessária à explicação do meu segredo… Na verdade não é só meu, é de muita gente séria, de todos os meus parceiros e de todos os profissionais com quem tive o prazer de falar, pescar ou apenas acompanhar em acção de pesca, nos oito Bassmaster Classics em que estive presente.

No Ray Scott Lake, com o dono e o meu recorde pessoal 1998

No Ray Scott Lake, com o dono e o meu recorde pessoal 1998

Este meu segredo é um bocadinho complexo e não é fácil de explicar porque, ao contrário da maioria dos segredos que me contaram em todo este processo, não se trata de uma técnica de pesca, de uma amostra ou mesmo de uma cor.

Lembro-me de muitos segredos de muitos amigos pescadores que se resumem a isso: uma amostra, uma técnica ou uma cor… Depressa percebi que não ia resultar sempre. Acima de tudo na pesca do achigã devemos saber fazer tudo, saber executar todas as técnicas, devemos conseguir estabelecer padrões, e mais que um para não nos falhar no dia da prova, devemos saber reagir às condições presentes no dia de pesca… Sim, mas isso não são segredos, são coisas que se aprendem… Devemos saber escolher a amostra, a cor e a técnica adequada a cada momento – a isso é que se chama encontrar um padrão; mas depois temos de executar na perfeição e, acima de tudo, percebermos quando largar um local, quando abandonar uma técnica, quando mudar a amostra ou apenas a sua cor… Chama-se a isto afinar o padrão, mas não chega, temos também de perceber quando ele deixa de funcionar e como vamos encontrar outro… Ou então, vamos apenas à pesca e esperamos que as coisas aconteçam… Que é o que fazemos quando pescamos para relaxar, apenas por lazer. Em competição, esta não é uma boa opção, por isso se deve treinar para as provas…

Mas não. Ainda não é este o segredo.

Eu sei que neste momento os caros leitores já estão fartos de ler e querem é que eu vá directo ao assunto… Mas tenham um pouco mais de paciência, afinal somos todos pescadores e a paciência é um dos nossos pontos fortes… Eu já vos conto.

Claro que não devem esperar que eu vos dê uma dica em vez do verdadeiro segredo, não esperem que eu vos diga numa frase tudo o que há para dizer… Não! Aliás esse é o mal dos segredos que me contaram e que eu tive de desvendar para perceber que eram falsos.

Denny Brauer  Bassmaster Classic 1998

Denny Brauer Bassmaster Classic 1998

Ah, em cima esqueci-me de referir que o conhecimento dos locais de pesca também é muito importante, aliás faz parte do padrão, mas não os locais exactos. Não se pode dizer apenas que nas Águas Belas normalmente se apanha muito e bom peixe… Isto não é saber, é constatação de facto! Precisamos de categorias de locais, para quando vamos a uma barragem nova podermos encontrar peixes. Temos de ter uma tipologia de locais conforme as estações do ano e o ciclo de vida dos achigãs… Sim! Muito importante, mas não é esse o segredo ainda.

Sabem que durante a minha vida de jornalista de pesca eu entrevistei muitos profissionais americanos, estive nos barcos de alguns, aprendi muito com eles em ambas as situações. Eu estive no barco do Denny Brauer, em 1998, quando ele subiu ao primeiro lugar, acabando por vencer o Bassmasters Classic, estive em prova com o Larry Nixon, com o Paul Elias, com o Kevin Wirth, com o Ron Shuffield, com o Art Ferguson, com o Stacey King… Já nem me lembro de todos e não me apetece consultar apontamentos só para impressionar… Mas também conto entre os meus amigos verdadeiras lendas da nossa pesca, a começar pelo fundador do desporto que praticamos, o Senhor Ray Scott; passando por um dos mais conhecidos pescadores de achigã de sempre, Roland Martin; e até um grande génio desenhador de amostras e grande pescador também, Gary Yamamoto… Quero só que percebam que, quando falei de um segredo, ele tem todo este manancial de informação e não me saiu apenas da ponta dos dedos agora que o escrevo pela primeira vez sobre o assunto.

Para terminar a introdução quero que saibam que sou um ávido leitor de tudo o que sai de novo nos EUA, que ainda coloco questões a pescadores como o Mike Iaconelli, entre outros, e que vejo todos os vídeos que posso sobre a nossa pesca. Leio regularmente a revista Bassmasters, mesmo quando não a recebo, e visito regularmente sites como bassmaster.com, bassFan.com, bassresources.com, bassdozer.com, flwoutdoors.com, entre muitas outras pesquisas sobre temas concretos… Mas não. Também não é este o segredo!

Torneio APPA 2005

Torneio APPA 2005

Compreendo que estejam cansados de ler… Vamos lá a ele, ao tal SEGREDO…

É mais simples do que possam imaginar, mas é uma conclusão que me levou algum tempo a atingir. Aí vai!

Meus caros amigos… não há segredos! Essa é a minha conclusão. Há, isso sim, dedicação, muito tempo gasto a estudar e muito tempo na água a experimentar… Ninguém pode fazer esse caminho por si. Cada pescador tem de fazer o seu e todos serão diferentes em muitos aspectos, mas em algum tempo perceberão que há dicas, há informação, há opiniões e há ideias e que isso vale o que vale na nossa formação, mas temos de nos formar… Tudo isso faz parte da pesca e da vida. A pesca como a conhecemos é um conjunto de técnicas que todos podem aprender… Aprendam! Não esperem que alguém aprenda por vocês! Pura e simplesmente não dá! Agora querem uma dica? Aí vai a mais importante que vos posso dar: não se preocupem com os erros que cometem na aprendizagem, fazem parte do processo, mas preocupem-se se não compreenderem porque erraram, porque dessa forma nunca poderão aprender com o erro. É isso mesmo: errar não é apenas humano é a melhor maneira de aprendermos.

Fiquem bem e até breve

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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