Após os rigores do Inverno e com um maior período de exposição solar a determinar o aquecimento progressivo das águas, os achigãs começam a deslocar-se para locais de menor profundidade, procurando alimento e também a escolha de um local para a reprodução. Depois de um curto período de actividade alimentar, os machos escolhem um local de pouco fundo, normalmente virado a sul, que permite um mais rápido aquecimento das águas durante o dia. Este local deverá ser constituído por um fundo arenoso ou de gravilha, ou na falta destes, de pequenas pedras. Com rápidas acções da cauda agitando-a freneticamente enquanto nada em círculo, o macho limpa de sedimentos o local escolhido e remove, usando se necessário a boca, pequenos paus ou detritos que possam contaminar com fungos a futura postura. Com o ninho pronto, parte à conquista de uma fêmea que lhe indique, por via da libertação de substâncias odoríferas que ele identifica, que está preparada para a desova. Com pequenos toques encaminha-a para o seu ninho seguindo-se o ritual de acasalamento, constituído por um bailado nupcial, incrementando o macho estímulos à postura. Esta etapa da desova ocorre com a temperatura da água próxima dos dezasseis graus centígrados.

ninho – foto Gomes Torres, guias Naturpesca

ninho – foto Gomes Torres, guias Naturpesca

No vídeo seguinte pode ver-se um casal de achigãs no processo de desova:

A partir daqui o macho desenvolve uma feroz acção de guarda ao ninho afastando todos os animais que se aproximem incluindo a companheira que acaba por se retirar após algum tempo. No entanto, a futura ninhada é alvo da cobiça de vários habitantes aquáticos, visto que é uma importante fonte de preciosos nutrientes.

Achigã no ninho

Achigã no ninho – foto Gomes Torres, guias Naturpesca

No vídeo que se segue pode-se ver o trabalho do macho a guardar o ninho após a desova da fêmea:

Cerca de dez dias depois – tempo que demora a incubação com a temperatura a dezoito graus – dá-se a eclosão. Dos ovos começam a surgir minúsculos seres com cerca de três milímetros que se posicionam quase na vertical, devido ao peso dos sacos vitelinos. Este saco, localizado no abdómen, contém a reserva de nutrientes para os primeiros dias de vida e irá ser absorvido pelos alevins após esse tempo. O macho, agora rodeado por uma nuvem de pequenos pontos negros, continua na sua tarefa de defesa da prole, que entretanto se tornou muito mais irrequieta. Contudo, a apetência dos predadores pelos alevins não diminuiu, sendo uma boa parte também, dizimada nesta fase.
Depois dos sacos vitelinos serem absorvidos, os novos achigãs começam a procurar outro tipo de alimento. Pequenas larvas, moluscos e seres quase invisíveis passam a constituir a sua dieta. Nesta altura, os pequenos peixes apresentam já o aspecto de um achigã. A linha lateral é já visível, tal como a extremidade da cauda mais escura.
Cerca de vinte a trinta dias depois, os alevins já têm entre dez a doze milímetros. Continuam a nadar em cardume, estratégia que muitos peixes usam para se defenderem dos predadores.

Cardume de alevins

Cardume de alevins

Mas, chega o momento de ficarem entregues à sua sorte, enquanto o pai extremoso e exausto se refugia em águas profundas, mantendo-se praticamente inactivo por algum tempo. Nesta fase, existem relatos que referem que o macho antes de abandonar a prole, a ataca violentamente e crê-se, devore alguns descendentes. Como é possível que o achigã, depois de proteger ferozmente a sua ninhada, a ataque e inclusive devore alguns dos seus rebentos? Este comportamento imprevisível demorou algum tempo até que fosse aparentemente compreendido. Crê-se que o macho ataque o cardume para incutir aos pequenos achigãs, medo dos peixes maiores. Não seria de esperar que o cardume inexperiente se refugiasse de um peixe maior, visto que desde os primeiros dias de vida foi alvo de protecção de um deles…

A partir daqui os pequenos peixes mantêm-se em cardume até que se estabeleçam num determinado território, normalmente já numa fase de maturidade sexual, – cerca de 25 a 30 centímetros. À medida que crescem, é cada vez mais difícil serem alvo de outros predadores.

No topo desta cadeia alimentar estão os pescadores, felizmente cada vez mais sensibilizados para a necessidade de preservação deste peixe, contendo-se nas quantidades retidas e sendo cada vez maior o número dos praticantes da devolução dos exemplares à água, conhecido também por Catch and Release.

Gomes Torres

José Gomes Torres tem 48 anos e pesca desde os 15 anos de idade, praticando várias modalidades. Desde muito cedo esteve ligado a Clubes, Associações de Pesca e Náutica de Recreio, assumindo diversos cargos nas respetivas Direções, condição que ainda mantém. Fez competição na pesca embarcada ao achigã, onde conquistou dois títulos nacionais da APPA -– Associação Portuguesa de Pesca do Achigã, tornando-se colaborador permanente em diversas revistas especializadas de pesca. Faz fotografia por gosto e pela necessidade de ilustrar os textos que produz. Atualmente contribui no desenvolvimento de equipamentos de pesca para uma marca nacional e colabora nas duas únicas publicações nacionais ligadas a esta atividade, a revista “Mundo da Pesca” e o “Jornal da Pesca”.

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