O conceito de «panic box» foi lançado por Michael Iaconelli no seu livro «Fishing on the Edge», uma biografia publicada em Maio de 2005 e que, além de contar como alcançou a posição que detém no mundo da pesca profissional do achigã nos EUA, dá uma dicas sobre técnicas de pesca. O livro é interessantíssimo e recomendo-o a quem leia bem inglês, mas é este conceito que quero que compreenda e que o use como ferramenta, quer seja um pescador de lazer ou de competição.

A aproximação do finesse fishing

A pesca do achigã não tem estado nada fácil. Foi num desses dias de grade que me pus a pensar em alargar os nossos horizontes estudando, e comunicando depois de estudar, como fazem os mais criativos dos pescadores profissionais americanos quando se lhes deparam condições tão adversas.

Na generalidade, todos dizem o mesmo: «em condições difíceis devemos adoptar uma atitude mais cuidada, e ‘reduzir’ é a palavra de ordem». Devemos reduzir o tamanho das amostras, em primeiro lugar, o diâmetro das linhas, o peso que empregamos e até a velocidade de recuperação. Esta é a máxima para condições difíceis, sejam estas provocadas por frentes frias, demasiado calor ou elevada pressão de pesca. Isto já nós fazemos há anos e, mesmo assim, muitas vezes sem os resultados desejados.

Um caso concreto

Estávamos no fim-de-semana em que se disputaram as duas primeiras provas do Campeonato Nacional de Pesca do Achigã da Margem, que tinha um formato que nos permitia pescar quatro horas em cada dia e ser observadores durante outras quatro. A pesca estava tão difícil que, nas primeiras quatro horas, no meu sector, apenas um pescador tinha conseguido um exemplar, quando faltavam alguns minutos para terminar a mão. No meu sector havia oito participantes em acção de pesca, durante quatro horas, e sete não tinham conseguido uma única captura legal… Estava mesmo mau. No outro sector, o mesmo cenário! Apenas um pescador com peixe! Acho que foram as piores condições de pesca que encontrei numa prova até à data e já levava 16 anos de competição.

As grades sempre me ajudaram a evoluir. É assim que as encaro, não como um desaire ou como um falhanço, mas como uma boa oportunidade de evoluir, de aprender mais sobre o desporto de que tanto gosto e que pratico. Nessa perspectiva trocámos muitas informações com os pescadores que acompanhámos e mesmo com outros que estavam por perto e, numa conversa dessas, surgiu a ideia de fazer este artigo sobre a «panic box»… De facto não podíamos estar mais descontentes com os resultados, de tal forma que, em vez de nos protegermos como pescadores enquanto observávamos, estávamos sempre a dar ideais aos pescadores. O que interessava era que alguém conseguisse apanhar peixe. Mas as coisas só se complicavam mais. Os dois pescadores que observei não conseguiram uma única captura e eu também não. No total, em 34 pescadores, que pescaram oito horas cada, apenas oito conseguiram capturas!

Um pescador destacou-se de todos os outros ao conseguir dois primeiros lugares. De facto, houve um pescador que usou uma das amostras sugeridas na tal «caixa de pânico» para conseguir o que conseguiu. No primeiro dia já contámos que conseguiu uma captura quase a terminar a prova, mas, no segundo, com recurso a uma colher rotativa, conseguiu duas capturas que o colocaram em primeiro lugar com dois pontos apenas, correspondentes a duas vitórias.

As colheres rotativas estão entre as mais usadas entre os pescadores da margem

As colheres rotativas estão entre as mais usadas entre os pescadores da margem

As escolhas de Iaconelli

Iaconelli usa uma caixa Plano 3600 para este efeito e recorre a ela quando se encontra em situações muito difíceis. Armazena quatro tipos de amostras nessa caixa: spinners in-line, finesse worms, grubs e hair jigs.

Com este tipo de amostras podemos salvar um dia de pesca

Com este tipo de amostras podemos salvar um dia de pesca

Os in-line spinners são as colheres rotativas que sempre usei para as trutas e com que comecei a pescar achigãs. Muitos pescadores recorrem a este tipo de iscos e nunca usam outra coisa. A verdade é que tendem a capturar peixes pequenos, porém, quando não se consegue pescar nada, um peixe com medida pode fazer a diferença entre pontuar ou não pontuar, entre vencer ou não vencer, como vimos na prova. Estas amostras são muito simples e qualquer cana de spinning média serve para lançar e recuperar. No entanto, não se pense que é fácil e básico pescar com estas amostras, de facto, a precisão e a velocidade de recuperação irão ditar o sucesso ou insucesso, bem como a correcta escolha de cor, do peso e da forma da lâmina. A velocidade tem de ser encontrada consoante a disposição dos peixes. O peso tem importância na distância de lançamento e na velocidade, porque não se pode trabalhar rápido uma amostra leve, pois subirá à superfície de imediato. No que respeita à forma das lâminas, quanto mais longas mais brilho reflectem e menos vibração emitem, temos de saber o que precisamos mais, claro que em águas limpas precisamos de reflexo e, em águas mais tomadas, o que nos faz falta é a vibração, o que nos deverá levar a usar as lâminas mais arredondadas. A cor continua a ser uma coisa muito subjectiva que afecta acima de tudo a confiança do pescador. Porém, as regras dizem que em águas limpas se usam os prateados, em águas tomadas, os dourados e em dias de céu encoberto as cores sólidas, como o chartreause, o branco ou outras. Claro que se estivermos em águas com alburnos poderemos sempre usar o prateado ou o branco e, onde achigãs comerem mais percas, podemos sempre usar o chartreause, o laranja ou mesmo o padrão fire-tiger. As lâminas douradas imitam muito bem os pequenos barbos, as bogas e até as carpas juvenis.

As finesse worms

As minhocas de dez centímetros, com uma cauda direita ou perto disso, são excelentes amostras de finesse para estas condições. Uma selecção de cores que imite as opções de comida do achigã, especialmente dos peixes, pode fazer a diferença entre capturar e não capturar. É difícil usá-las sem peso, mas as montagens ligeiras, split-shot ou drop-shot, são as principais escolhas do campeão americano. Pessoalmente, acho que um pequeno cabeçote pode ajudar e, mesmo o estilo wacky, muitas vezes fará a diferença. Sobre o drop-shot já publicámos um artigo nesta revista. Para quem não sabe o que é o split-shot fica aqui a ideia geral: empata-se uma destas minhocas sem peso e depois aperta-se um chumbinho na linha, um ou dois palmos acima. Isto vai permitir um trabalho mais natural. Já o estilo wacky é conseguido prendendo a minhoca pelo meio, quer se use um anzol simples ou um pequeno cabeçote. Com pequenos toques podemos fazer o conjunto dançar de forma errática, o que pode fazer a diferença. As canas variarão consoante o que escolhermos fazer, mas o mesmo conjunto que sugerimos para as colheres serve para quase todas estas técnicas.

Uma finesse worm num empate split-shot

Uma finesse worm num empate split-shot

Os grubs

Este tipo de amostras tem hoje muitos tamanhos, porém, nesta caixa queremos os de cinco ou oito centímetros. Podemos usá-las de muitas formas, mas as preferidas do inventor deste conceito são como atrelado num cabeçote ou mesmo num jig. Os movimentos que executamos com um vulgar empate Texas ou um corrico lento são excelentes formas de conseguir ataques de achigãs mais renitentes. Relativamente a canas é preciso ter cuidado se usarmos cabeçotes com antierva, neste caso devemos recorrer a uma cana média-pesada, para o corrico, e com cabeçotes sem antierva, serve a média. Sobre as cores estamos conversados, nestas condições, imitar a alimentação dos achigãs é o ideal.

Os grubs são excelentes opções para os dias mais difíceis

Os grubs são excelentes opções para os dias mais difíceis

Os hair jigs e os micro-jigs

Este tipo de material é quase desconhecido dos pescadores portugueses. Os jigs feitos com pelos de veado nunca foram consistentemente importados para Portugal. Pessoalmente prefiro os micro-jigs que os japoneses colocaram no mercado. Não é a mesma coisa, mas é uma excelente aproximação de finesse que proporciona boas capturas em condições muito difíceis. Iaconelli prefere juntar-lhe um «porco» (amostra feita em courato de porco para imitar lagostins e outras presas), porém, hoje, há imensas opções para atrelados de jigs.

O conceito

A ideia é ter as amostras para as condições difíceis todas num local de fácil acesso quando estes dias aparecem. Mas não devemos complicar. Tudo se deve resumir ao estritamente necessário, caso contrário, damos connosco a encher mais caixas do que o que podemos levar. Este conceito de «panic box» pode salvar o dia ou uma prova, como, de resto, já o fez imensas vezes, mas deve ser mesmo deixado para estes casos, uma vez que se trata de conjuntos e aproximações que tendencialmente nos vão proporcionar peixes mais pequenos.

Eu era capaz de juntar a este grupo alguns mini-jerkbaits e mesmo mini-crankbaits, na verdade também estes já me têm resolvido muitos dias difíceis. Sem querer aumentar muito a «panic box» eu juntava alguns destes iscos que sempre classifico como amostras de finesse.

Portanto, não se iniba, se achar que alguma amostra, dentro deste conceito, lhe vai dar mais confiança, junte-a à caixa. Ao fim de algum tempo, cada um de nós terá a sua caixa para estas condições e isso significa que estamos a pensar e a evoluir à custa de nós mesmo e de alguma ajudinha de quem sabe mais.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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