Serve esta pequena crónica para falar sobre a queda de Jason Christie no último dia do Bassmaster Classic do fim-de-semana passado. Quero mesmo fazer-lhe uma homenagem e parra isso vou ter de dizer muitas coisas que todos sabemos e que muitas vezes são esquecidas.

Jason teve dois dias de luta árdua para manter a liderança. Quando ninguém conseguia perceber os achigãs do Grand Lake O’ the Cherokees, ele estava em cima dos melhores exemplares. Agarrou-se a uma amostra – um spinnerbait de 28 gramas com uma lâmina colorado grande e um pequeno swimbait como atrelado – que ele mesmo tinha montado e colocado uma saia de borracha por vibrar mais na água mais fria, e demonstrou que sabia o que queria daquele conjunto. Ele tinha o conjunto perfeito e estava a pescar na perfeição. Um conjunto deste tipo vibra imenso e, os ataques eram tão subtis, que quando a vibração pára ele tinha de ferrar para só depois perceber se era peixe, pedra, pau… Ele estava certo. Tudo parecia perfeito. Ele é daquela terra, aquele é o seu lago, e a sua estratégia funcionava muito bem. Começava mesmo a ser admirado por isso e, no último dia, Mark Zona, no estúdio do Bassmaster Classic Live, perguntava mesmo se alguma vez alguém teria conseguido vencer um Classic apenas com uma amostra e com o mesmo padrão… Até que a notícia chega: o seu conterrâneo Edwin Evers tinha já cerca de 25 libras de peixe no viveiro. No estúdio ponderava-se se Jason quereria saber ou não. Davy Hite foi perentório a afirmar que, se estivesse no seu lugar, não queria saber. No meio desta conversa e que Jason não fazia ideia, um fã que estava na margem deu-lhe a notícia… Notou-se logo uma certa desorientação. Deixou o barco bater noutro de um dos seus seguidores na água e notou-se que acusou a pressão que apenas aumentara naquele momento. Estes pescadores estão habituados à pressão. Ele mesmo, na conferência de imprensa do final do segundo dia, tinha-se declarado assustado sobre o último dia de prova. Ele conhece bem o lago e sabe que um limite de 30 libras era possível, mas, partiu para o último dia com uma vantagem de cinco libras e sabia que reviravoltas deste calibre são pouco prováveis… Como dizia eu, eles estão habituados à pressão, mas também estão habituados a controlar essa pressão o mais possível e, vir alguém da margem, dar uma notícia daquelas coloca-o, imediatamente, atrás do prejuízo mesmo que tenha duvidado, numa primeira fase, depois tentou saber pelo Basstrak, a que não conseguiu acesso, e depois, face à possibilidade de o seu cameraman lhe poder dar a confirmação, disse que não queria saber. Parecia que estava pronto para reagir, mas acho que nem tinha como.

Uma das capruras do último dia de prova de Jason - Foto BASS - Seigo Saito

Uma das capruras do último dia de prova de Jason – Foto BASS – Seigo Saito

Analisados os factos, é verdade que o afetou, mas também me parece que não tinha como fazer frente a uma reviravolta daquele calibre. E ainda nem se sabia que afinal as 25 libras que o Basstrak marcava se revelariam mais de 29 na hora de pesar. Ele não desistiu e fez a única coisa que lhe era possível naquele momento – continuar e esperar pelos peixes maiores que sempre lhe chegaram nas duas últimas horas de pesca… Infelizmente não aconteceu.

Agora as frases feitas e as verdades que sabemos e que nestas horas parece que nos escapam. «O segundo é o primeiro dos últimos». É verdade e, no Bassmaster Classic é mais verdade ainda; basta olharmos para o prémio monetário (1º – 300 mil dólares, 2º – 40 mil), já para não falar do «foco» que ilumina o ano seguinte de cada campeão até hoje, conseguindo mais de um milhão de dólares em novos patrocínios, em aparições públicas, em seminários e palestras, etc. (E agora vem um «mas» daqueles que eu gosto) MAS! Esta é a primeira vez que Jason fica em segundo num Bassmaster Classic e isso vai, por certo, colocar a sua carreira noutro patamar. O tempo de antena que os seus patrocinadores conseguiram com a sua liderança por dois dias e com a dramática mudança serão capitalizados e, quase de certeza, aumentarão o valor deste atleta e, consequentemente, o que lhe pagam.

Agora vamos ver outras verdades absolutas. Vêm a esta prova 55 pescadores que são apurados num crivo estreitíssimo. Apenas um vence. Então os outros falharam todos? Quantas provas vence por ano um pescador médio no Elite Series da BASS? NENHUMA! E um dos melhores? Considerando que há 20 muito bons (se calhar há mais, mas serve para reforçar a minha ideia) em seis provas que a Elite Series tem apenas seis podem ganhar. Verdade absoluta! E então os outros não são bons porque não vencem?…

Uma vez mandei as minhas classificações a uma amiga nos EUA para lhe mostrar que, como pescador de competição, eu era, na minha opinião, um pescador médio a medíocre. Elen Sevier trabalhava na BASS (infelizmente hoje já não está entre nós) e era a chefe do setor de comunicação, portanto, uma pessoa muito habituada a lidar com estes números. A resposta dela fez-me muito bem ao ego na altura (estamos a falar de 1998 ou 1999): «Estás melhor do que o que pensas. Um bom pescador está, normalmente, no primeiro terço das classificações e tu estás no primeiro quarto.» A partir desse momento comecei a olhar para as classificações de outra forma.

Jason Christie diz adeus ao título que tanto perseguiu, mas demonstrou uma grande humildade. Foto: BASS - Gary Tramontina

Jason Christie diz adeus ao título que tanto perseguiu, mas demonstrou uma grande humildade. Foto: BASS – Gary Tramontina

Voltando ao Bassmaster Classic que agora terminou, claro que Evers fez uma recuperação fabulosa depois de um primeiro dia desastroso. Mas Jason já lá estava, ou seja, Evers é que saiu completamente das estatísticas com um dia de sonho a terminar uma prova que quase tinha perdido no primeiro dia. Procurou essa sorte, arriscou, é verdade, mas dias perfeitos como esse acontecem poucas vezes na vida de um pescador e, acontecer logo no último dos de uma prova destas, quase que «desculpa» (se ele precisasse disso, que acho que não precisa) completamente Jason Christie. Mas o que mais gostei de ver foi a reação dele. Campeão quando está por cima e campeão quando perde. Começou por dizer que quem lhe deu a notícia era um fã do desporto e pensou que o estava a ajudar. Depois disse que perder para um pescador por uma ou duas libras é uma coisa, perder por dez é levar uma tareia que tem de aceitar. Edwin foi melhor, sem dúvida, mas deu gosto ver o desportivismo de um pescador que nos dois dias antecedentes tinha dominado a prova.

Foi uma lição de humildade e ele aceitou-a como tal, ainda que nem precisasse dela porque qualquer grande campeão sabe ser humilde, como Edwin Evers soube ser mesmo na vitória.

Honra seja feira ao vencedor e a tão grande ser humano que, ficando em segundo, soube ser segundo e não apenas «o primeiro dos últimos»!

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Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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