Depois de explicar o que entendo por gestão e por que o defeso, da forma como está implementado em Portugal, não me convence, vamos ver o que podemos fazer nós pescadores pela nossa parte, até que medidas correctas de gestão sejam adoptadas.

Afinal, porque devemos pescar e soltar os peixes? Não teremos o direito de comer o peixe que pescamos? Não teremos direito de levar para casa tudo o que pescamos? Libertar os peixes não causa desequilíbrios nos ecossistemas? Pescar e libertar é a mesma coisa que pesca sem morte? Os peixes depois de libertados não vão morrer? E se ferir um peixe durante a captura, devo deixá-lo na água? O que fazer quando pescamos muito fundo e os peixes ficam a boiar? Se o peixe sangrar morre? Se um peixe ficar à superfície o que devo fazer?

Estas são as perguntas que mais oiço quando falo sobre a libertação dos exemplares que pescamos. Tentei fazer um levantamento abrangente para de seguida passar a explicar o que penso e costumo responder sobre estes tópicos.

Libertar os achigãs que pescamos em nome do futuro da pesca

Libertar os achigãs que pescamos em nome do futuro da pesca

1 – Afinal, porque devemos pescar e soltar os peixes? Não teremos o direito de comer o peixe que pescamos? Não teremos direito de levar para casa tudo o que pescamos?

Por alheamento quase completo das entidades legislativas a nossa lei da pesca aprovada em 2009 não entrou ainda em vigor, uma vez que necessita de ser regulamentada. A própria lei implicava a sua regulamentação num prazo de seis meses… Mas isso não aconteceu e, assim, segue em vigor uma lei de 1959, e um decreto regulamentar de 1962, com algumas alterações mais recentes, mas não no essencial. Ora, quando este sistema legislativo foi implementado nada era como hoje. Não havia tanta pressão de pesca, não havia tantos conhecimentos e tanta tecnologia, não havia o conceito de pesca sem morte nem a ideia de que a pesca pode ser um nicho turístico importante, especialmente para regiões do interior, ou mesmo nas ilhas, regiões ultraperiféricas da Europa que tão dotadas são para a pesca desportiva.

Efetivamente temos direito de trazer connosco tudo o que pescamos. Efetivamente não o devemos fazer. Porquê? Porque sem essa forma de gestão, que é a consciencialização dos pescadores, o que nos acontece é uma alternância de ciclos, com mais tempo na pior fase dos mesmos. Na verdade, as nossas melhores massas de água são massacradas quando estão em boa forma e, depois, passam anos em recuperação, porque os pescadores deixam de as procurar (quem pesca para levar para casa tem pouca paciência quando as massas de água não lhes dão o que querem). Após a lenta recuperação, volta-se ao mesmo: toda a gente vai pescar o máximo que puder para encher arcas e frigoríficos, alguns, infelizmente e ilegalmente, vendem os peixes e, muitos dos exemplares pescados, acabam nos contentores, uns porque se queimaram no gelo, outros para não baixar os preços de venda… Isso não é forma de tratar um património que é suposto ser de todos. No meio disto tudo quem sofre mais? Os verdadeiros desportistas que continuam a ir pescar e sofrem duplamente, por um lado, porque soltam os peixes que pescam e, por outro, porque se sentem injustiçados quando vão pescar e não capturam devido aos que cumprem a lei ou não, quando vendem, mas a verdade é que, para um verdadeiro pescador e desportista, é desolador o estado em que as nossas massas de água ficam nos ciclos baixos. Este cumprir a lei, quer dizer, «que levam tudo para casa», porque os que soltam também cumprem a lei, felizmente não há nada na lei contra isso.

Libertar achigã record de 52cm

Libertar achigã record de 52cm

Muitas vezes, estes pescadores desportivos que já atingiram a consciência de que têm de libertar peixes, devido à injustiça que sentem regridem com o tal pensamento negativo: «ando eu aqui a soltar os peixes para os outros os levarem…» Este mesmo argumento serve também a muitos que nunca libertaram um peixe usando a mesma desculpa. Nada mais errado, meus amigos. Se um peixe que eu pesquei e soltei for levado para casa por outro, já deu o prazer da captura a dois pescadores, o que duplica, desde logo e no mínimo, a sua capacidade de nos alegrar. Por outro lado, quem atinge a consciência de que tem de libertar todos ou, pelo menos, uma boa parte dos peixes que pesca, deve fazê-lo por si e para si, ou seja sem ligar ao que os outros fazem. «Eu liberto todos os peixes que pesco porque acredito que isso é importante», mais nada! Não me interessa se passo por louco, se me gozam, se isso é motivo de chacota, trata-se apenas da minha maneira de encarar a pesca. Tenho muito gosto em alastrar esta minha forma de estar pelos pescadores mais conscientes e pelos que consiga consciencializar.

Os factos demonstrativos da sucessão de ciclos não surgem do método estatístico, como quase tudo hoje em dia, mas do método histórico. Quero dizer que, basta vermos a história das nossas pescarias para percebermos que a nossa ação tem impacto. Quando me iniciei na pesca do achigã com iscos artificiais notei duas grandes mudanças: comecei a apanhar mais peixes e maiores. Desde logo percebi que não podia trazer tudo comigo, era um desperdício em muitos aspetos. O primeiro, e mais importante, era que não conseguiria conservar todos os peixes, mesmo levá-los todos para casa era um problema. Então disseram-me que devia deixar os peixes mais pequenos na água, ou seja, quando as pescarias fossem boas, só trazia os maiores. Logo de início deixei de trazer peixes com menos de meio quilo, mas isso não resolveu. Foi assim que decidi estudar melhor a espécie: ajudava-me a pescar mais e melhor, pensava eu, mas ajudou-me muito mais a perceber que estava a fazer mal as libertações e o lote que libertava.

O futuro da pesca está nos mais novos. É nesta camada que temos que centrar os esforços de alteração da mentalidade quanto à pesca

O futuro da pesca está nos mais novos. É nesta camada que temos que centrar os esforços de alteração da mentalidade quanto à pesca

Uma das primeiras coisas que aprendi foi que eram precisos quatro anos para se fazer um peixe de quilo… Seis para fazer um de dois quilos e oito a dez para fazer um de três… Conclusão: libertar os mais pequenos ajuda apenas a que haja muitos pequenos e… quando retiramos um peixe de dois quilos da água estamos a fazer um prejuízo muito maior, dado que estamos a retirar seis anos de história da água, que são precisos mais alguns anos para que este possa ser substituído, mas mais, estes peixes são um num milhão, são campeões de sobrevivência e então eu é que ia colocar um termo à vida desses campeões? Pior ainda, nem todos os peixes conseguem atingir este tamanho, ou seja, estes peixes têm o gene que lhes permite atingir um determinado tamanho acima da média, se o retiramos da água estaremos a não permitir que esse gene seja transmitido em futuras reproduções. Por último, outro argumento de peso: tendo uma fêmea adulta cerca de 20% do seu peso em ovas, quanto maior o animal, mais ovos deposita. A quantidade também é importante.

Foi isto que aprendi e que tratei de divulgar. São motivos demais para ficarmos indiferentes.

Com a pesca que fazemos acontece e vai sempre repetir-se o alternar de ciclos entre o bom e o mau porque as massas de água não têm capacidade de recuperação rápida. As entidades gestoras da pesca têm, por lei, a obrigação de repovoar quando há escassez, mas como sabemos isso não acontece por muitos motivos. Então temos nós de fazer alguma coisa. Foi com essa ideia que nasceu a APPA e no seu manifesto deixei isso bem claro: «Temos de começar por nós».

Do canal Pesca ao achigã no Vimeo.


2 – Libertar os peixes não causa desequilíbrios nos ecossistemas?

Felizmente este mundo poderia muito bem viver sem os seres humanos, porém, depois de ter iniciado a sua ação sobre a Natureza, muitas vezes há necessidade de intervenção. Quanto aos achigãs, não é o caso. De tudo o que vi e li sobre o assunto, parece-me que o seu impacto não é tão forte como muitas vezes evidenciado pelos ditos «ecologistas». Os achigãs não acabam com as suas presas por instinto de sobrevivência.

Libertar os achigãs em pequenas charcas não tem qualquer impacto negativo na qualidade das capturas

Libertar os achigãs em pequenas charcas não tem qualquer impacto negativo na qualidade das capturas

Se tivermos uma charquita em que não se retiram peixes quando se pescam, nada se alterará em detrimento da qualidade das capturas, o que pode acontecer é perder-se muita da agressividade, mas isso resolve-se com introduções de exemplares com origem distinta. Então, que não sirva de desculpa para levarmos peixe uma qualquer ideia de «desbaste» que não faz falta de todo.

Continua»»

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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