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Este artigo é a segunda e última parte sobre este tema. Para ler a primeira parte clique aqui.

O Verão é um período muito vasto, cada dia é um dia diferente e um desafio para o pescador de achigã. Vamos continuar a explorar os elementos que nos dão alguma vantagem sobre os peixes, de forma a podermos tirar o melhor partido deles traduzindo essa vantagem em capturas. Não esqueço que há quem tenha de pescar em quaisquer circunstâncias, nomeadamente os pescadores que praticam competição, também para esses seguem alguns conselhos que me ficam de 15 anos dessas lides. Não dedicando um capítulo à pesca de competição em si, este texto completo tem imensos dados que podem ser usados em provas e mesmo na sua preparação.

 

Dias de pouca luz e intermitentes

Podemos tirar partido destes dias cinzentos de Verão para pescar à superfície o dia inteiro, mas temos muitas mais opções. Podemos recorrer a cores mais vivas e usar outro tipo de amostras, ente elas os jerkbaits de plástico mole ou rijo, os swimbaits, os crankbaits e, se houver vento, os spinnerbaits. Na verdade poderemos usar quase tudo, mas, na ausência de uma incidência directa do sol, os peixes vão dispersar-se mais pelas suas zonas de caça num sentido mais amplo, o que não facilitará técnicas de precisão, isto é, técnicas que exijam uma fixação dos peixes às coberturas ou estruturas.

Há muitos dias em que o sol é encoberto por nuvens passageiras, que, quando passam, o deixam a descoberto, e a verdade é que os achigãs abandonam os seus locais de emboscada quando há menos claridade, buscando comida em zonas mais vastas, e regressam quando a sombra lhes faz falta. Os peixes não têm pálpebras e preferem proteger os olhos do sol ganhando uma vantagem em relação às possíveis presas que não conseguem ver para as sombras quando atravessam zonas de muita luz.

Recordo-me de um episódio que ocorreu em prova, durante o Torneio APPA de 2006, em que eu e o meu parceiro de então, Joaquim Moio, tivemos de esperar que o sol reaparecesse detrás de uma nuvem para efectuarmos uma captura que nos ajudou a melhorar o nosso limite. Tínhamos o peixe localizado porque nos tinha escapado na véspera (soltou-se de um crankbait), quando passámos pelo local a primeira vez, no dia seguinte, estava nublado, mas previa-se que isso ia mudar a qualquer momento. Demos uma volta pelo local para não desperdiçar tempo e quando voltámos já havia a sombra de um muro onde o peixe se alojava. Mal fizemos passar lá um crankbait ele atacou logo. Nós sabíamos que isso podia acontecer e não perdemos a hipótese.

Uma coisa que nunca é demais frisar é que durante uma jornada de pesca temos de estar muito atentos às mudanças, por mais insignificantes que pareçam.

Os dias de céu nublado são bem vindos nesta estação, seja por ajudar na pesca, seja por ser mais confortável para o pescador

Os dias de céu nublado são bem vindos nesta estação, seja por ajudar na pesca, seja por ser mais confortável para o pescador

Aproveitar todas as sombras

Esta vantagem já foi bem explicada, mas vou ser mais minucioso. Uma sombra não tem de ter um tamanho considerável para abrigar bons achigãs. Ainda há poucos dias vi achigãs que usavam a sombra da fina corda de um covo, daqueles que se usam na captura dos achigãs, para colocarem os olhos à sombra. Já Roland Martin, no seu famoso livro «101 Bass-Catching Secrets» («101 Segredos Para Pescar Achigãs»), chama a nossa atenção para este facto. Afirma ele que uma fina estaca pode servir de abrigo a achigãs. Não tenham dúvidas disso e não omitam um lançamento por acharem que naquela minúscula erva isolada, ou até em algum objecto flutuante, não pode haver um peixe.

No caso das sombras a precisão no lançamento começa a ser um grande aliado. Não é que o peixe não se desloque para atacar fora dessa zona, que até pode acontecer, mas um achigã em águas quentes, como as estivais, só fará essa deslocação se achar que a presa compensa, em termos de recuperação de energia, a que vai gastar no percurso e sem garantias de sucesso. Para eles tem de ser o mais fácil possível e o nosso esforço deve ser no sentido de lhe facilitar a refeição, para melhor o podermos enganar. Não há dúvidas que os achigãs não sabem fazer contas como nós, mas sabem por instinto quando vale a pena atacar e quando não vale.

Se nos pudermos aproximar, o flipping ou o pitching serão, para qualquer amostra, as técnicas de lançamento ideais, já que, se conseguirmos colocar a amostra suavemente a surpresa funcionará como factor de êxito. Caso seja iniciado e não saiba executar estas duas técnicas, aconselho a que as treine bem e, até as saber executar, pode usar um lançamento lateral, em que a amostra segue paralela à água, uma vez que a queda tenderá a ser mais suave.

Quando o sol está muito forte temos de nos servir das sombras para localizar os peixes

Quando o sol está muito forte temos de nos servir das sombras para localizar os peixes

O factor vento

Este elemento é sempre bem-vindo num dia de pesca, excepto quando é forte demais. No meu caso prefiro vento demais do que vento nenhum, mas sei que a grande maioria dos pescadores não partilha esta minha ideia.

De facto o vento funciona a nosso favor de muitas maneiras.

Normalmente refresca o ar e a superfície da água, o que nos dá mais alento e conforto numa jornada sob um sol tórrido. Mas não só, este movimento de ar arrasta consigo milhares de seres, o tal plâncton outra vez, maiores ou menores, que podem iniciar um banquete para os achigãs. É claro que as águas estão estratificadas e que esses bichinhos estão na zona do termoclina, mas há sempre mais em formação, em zonas de vegetação, especialmente, além do que cai na água permanentemente. Se somarmos a isto o facto de, mesmo essa camada suspensa, se poder alterar com o vento e subir à superfície, por efeito da mistura das águas (isto sucede com frequência em massas de água de menor dimensão), então temos comida para os peixes mais pequenos que constituirão o prato principal do tal banquete dos achigãs. Para tirarmos vantagem desta situação temos de procurar as zonas mais batidas pelo vento e, porque é Verão, especialmente os bicos batidos a vento

Além disto, o movimento superficial da água corta a entrada directa de luz o que põe os peixes mais à vontade. O som provocado pela ondulação ajuda os achigãs a aproximarem-se das suas presas com mais à-vontade e, a nós pescadores, a acercar-mo-nos dos achigãs sem que eles nos vejam com clareza, perdoando ainda as quedas mais desastradas das amostras na água que, por vezes, se tornam num detalhe técnico importante. O som que os nossos iscos emitem é importante nestes casos, como a vibração também. Nestas circunstâncias cria-se um ruído de fundo que os achigãs toleram, mas que lhes retira capacidades. Devemos usar amostras com rattles (esferas internas) e outras formas de provocar vibração ou som diferente do que está no seu ambiente nesses momentos. Por exemplo, podemos usar crankbaits com ratlles, spinnerbaits de lâminas maiores ou jerkbaits com hélices que cortem a água emitindo verdadeiros assobios subaquáticos. As amostras que mais gosto para estas condições, mormente quando o vento passa a moderado, são os crankbaits sem lábio que emitem muita vibração e muito som, atraindo achigãs que podem estar mais afastados.

No verão a presença de vento é favorável em todos os aspetos, excepto se for muito forte

No verão a presença de vento é favorável em todos os aspectos, excepto se for muito forte

O pior cenário

Quando não há uma aragem que seja e nas horas em que não se vislumbram sombras o que se deve fazer é procurar achigãs que habitem em águas mais profundas. Um empate Texas leve ou um drop-shot são boas técnicas para estas horas de meio do dia quando tudo joga contra o pescador. Muitas vezes conseguimos, mesmo assim, enganar alguns peixes, apesar de não termos muitas facilidades.

O Verão não é a melhor altura para capturar achigãs, mas, como sempre reafirmo, estes peixes podem ser pescados todos os dias do ano e, como tal, nunca devemos deixar de ir à pesca só porque o tempo é adverso. Penso ter dado algumas boas pistas sobre o que fazer nesta altura do ano, são as que uso para tentar o sucesso, mas mesmo que tudo esteja contra, que é quase impossível, eu insisto, olho à volta, ando mais um bocado à procura do que necessito e só paro à hora que marquei para regressar. Quantas e quantas vezes fui surpreendido quando já tinha dado o dia como «mais uma a somar à lista das pescarias que mais me ensinam», vulgo «grade»… Vamos lá! Nunca desistam, o sucesso está aí! Pelo menos seremos vencedores na perseverança e poderemos afirmar: «não desisti sem uma boa luta» que é o que fazem os achigãs. Pelo menos isso devemos-lhes.

Para terminar, nunca se esqueçam de deixar na água a maioria dos peixes que pescam, essa é a única forma de mantermos as populações de achigãs aos níveis de que gostamos quando vamos pescar. Queixar-mo-nos de que não se pesca nada é a consequência mais directa de quase todos trazerem tudo para casa.

Este artigo é a segunda e última parte sobre este tema. Para ler a primeira parte clique aqui.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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