Há alguns anos que me debruço sobre gestão da pesca em massas de água doce. Tenho acompanhado o que se faz por esse mundo fora e estudado mais de perto o impacto que um defeso reprodutivo tem nas populações de achigã.

Uma certeza clara que me vem desse meu interesse é que o defeso, como está aplicado em Portugal, tem poucos efeitos práticos e é fácil perceber porquê. Uma medida generalista não pode ser estendida a todo o território nacional. Uma das primeiras regras da chamada gestão pesqueira é que se tome cada massa de água por si própria e se estude a melhor maneira de potenciar as espécies que mais interesse têm para os pescadores que as procuram.

Em 2007, fui convidado pelo Doutor Francisco Godinho para assistir a uma cadeira que ministrava num mestrado do Instituto Superior De Agronomia, em Lisboa. O tema da sua disciplina era precisamente a Gestão das Espécies. Durante uns meses assisti interessadamente a toda a sua explicação e solidifiquei alguns conhecimentos que tinha, mas aprendi muito mais, abriram-se-me novos horizontes. Este texto resulta, em grande parte, dessa aprendizagem.

A gestão pesqueira aponta para o conhecimento prévio e profundo de três realidades: a água, os peixes e o Homem.

A componente humana tem de ser considerada numa gestão adequada

A componente humana tem de ser considerada numa gestão adequada

É necessário estudar que tipo de água presente quer nas suas características físico-químicas quer na ocorrência de certo tipo de plankton, como ainda que tipo de estruturas e coberturas estão presentes. Depois temos de perceber que populações de peixes temos, como interagem, que tipos de populações existem e quais as espécies que mais interesse têm desportivamente. É aqui que passamos para o predador de topo – o Homem – que deve ser estudado também enquanto agente activo no sistema sob análise.

Deste ponto de vista é fácil perceber que nada disto foi feito quando, em 59, se elaborou a Lei de Bases ou, em 62, o Decreto Regulamentar que vigoram… Já nem vou falar do desfasamento temporal porque esse é mais que óbvio.

O defeso imposto para os não-salmonídeos no nosso país inclui dois meses, o que é manifestamente exagerado, para qualquer espécie se reproduzir. Torna-se penoso para os pescadores e agravante para toda a indústria que vive desta actividade. Claro que por si só este não é um argumento válido para que se reveja o defeso, mas a verdade é que não se vê vantagem num sistema generalista deste tipo.

Se olharmos para os EUA, país de origem do achigã, veremos que quase não existe defeso e onde existe não passa de uma inibição de retenção, isto é, pesca sem morte. Se por lá se consegue um tipo de gestão sem interrupção de pesca com o êxito que se conhece é porque devem estar no caminho certo.

Na realidade, nos EUA, tudo é planeado caso a caso, havendo projectos macro para aplicar a todo um estado e depois. Planos concretos, para se atingirem as metas do macro, que vão gerir caso a caso.

Pescar é uma actividade onde investimos tempo e dinheiro

Pescar é uma actividade onde investimos tempo e dinheiro

No nosso país estamos confinados a duas grandes divisões a dos salmonídeos e a dos ciprinídeos, o que coloca a espécie mais procurada pelos pescadores desportivos – o achigã – completamente fora dos planos. Isto não parece correcto.

Temos de dar os passos recomendados pela gestão pesqueira, estudar as nossas águas, os peixes presentes e os pescadores, estes últimos não apenas da perspectiva dos seus hábitos actuais, mas da relação que possam estabelecer com cenários futuros. Por exemplo, se um determinado troço de rio é mais propenso à presença de outras espécies, qual seria a hipótese de os pescadores responderem positivamente a esse novo tipo de pesca.

Um caso a pensar seria aproveitar determinados troços a jusante de barragens, mesmo no Alentejo e especialmente no Alentejo, para se fazerem zonas de pesca de truta geridas por uma entidade local. Imaginem o que isto poderia dar em termos de pesca. As águas provenientes das descargas são frescas e, já não digo a truta fário, mas a truta arco-íris poderia ser recolocada com êxito em sistemas destes proporcionando um novo tipo de pesca que poderia ter algum público e até turismo associado.

Mas voltemos ao achigã. Numa determinada massa de água, o grosso da coluna desova numa semana e necessita de mais uma semana para proteger os alevins, não seria suficiente proteger a espécie com um defeso de pesca sem morte nesses quinze dias? Se aliarmos esta medida de gestão a um limite diário e a um slot limit, ou uma medida mínima e outra máxima, teríamos um sistema gerido sem necessidade de parar a pesca por dois meses. Um slot limit é uma das formas de gestão avançadas que se usa muito nos EUA e que consiste em, depois de se estudar a espécie numa determinada massa de água e de se tornar perceptível a estrutura do crescimento dos exemplares presentes, não permitir a retenção de exemplares na fase de crescimento lento que normalmente, nos achigãs, se situa entre os 30 e os 40 centímetros. Estes slot limits são coadjuvados por um limite diário de alguns exemplares, dois ou três acima e abaixo deste intervalo, podendo haver mais um limite de um peixe apenas acima dos 40 centímetros.

Claro que é necessário estar sempre em cima do acontecimento continuar os estudos com monitorizações ao longo do ano para se ver se a gestão é correcta, caso contrário há que estudar alternativas e pô-las em funcionamento.

Quanto à ausência de um defeso reprodutivo, alguns dirão que coitadinhos dos peixes «querem reproduzir-se» e não podem… Não acho mais grave do que eles «quererem viver» e terem de morrer. Não vamos entrar pelos coitadinhos dos peixes ou então abandonamos a pesca de todo. Olho para o achigã como uma espécie, muito especial para nós que o pescamos por prazer, para os que gostam de o comer e por outros motivos muito diversos, mas é uma espécie. Não me parece que seja correcto avaliarmos o achigã como um indivíduo, muito menos como uma pessoa, como alguns fazem. Há até quem o trate por amigo e depois o coma… Sejamos sérios. Trata-se de um animal muito especial pelo lugar que ocupa no topo de uma boa parte das cadeias tróficas das nossas massas de água, mas, mesmo assim, um animal. O que nós gostamos neste peixe é de o pescar. Qual então a razão de nos vermos privados desse prazer? Se fosse uma espécie frágil teríamos de repensar e arranjar um defeso, não reprodutivo, mas de manutenção. Não é o caso.

A abundância de exemplares de médio e grande porte depende da gestão

A abundância de exemplares de médio e grande porte depende da gestão

Em relação às ninhadas que são predadas pelas percas-sol, pelos outros achigãs e mesmo pelos ciprinídeos presentes, quando um progenitor é retirado à guarda dos ovos ou dos alevins, tenho presente um estudo do início dos anos 90 que apontava como suficiente para meio hectare que uma postura fosse bem-sucedida… Estes números são irrisórios a comparar com o que acontece ainda hoje. O nosso problema é sacar-se da água aos vinte e aos trinta peixes de cada vez, porque se libertarmos os peixes durante a fase de desova, pelo menos esses continuam lá.

De uma vez por todas vamos olhar para o nosso desporto como uma actividade digna sem fundamentalismos e sem qualquer tipo de exagero. O que deve preocupar e interessar quem gere é a manutenção de exemplares saudáveis em dimensões pescáveis de forma a satisfazerem os pescadores que pagam as suas licenças, as taxas e os impostos inerentes à sua actividade.

É claro que a Lei que existe tem de ser cumprida e aplicada e é pena que as entidades fiscalizadoras não actuem mais. Enquanto não houver esses estudos e a gestão caso a caso não for uma realidade o que nos resta é cumprir a medida que temos como única na defesa da espécie. Sim, porque me preocupa a verdadeira defesa da espécie como fica afirmado. O que interessa é que todos possam pescar cada vez mais, melhor e maior. Que estes ávidos turistas deixem o fruto do seu trabalho nas unidades de hotelaria, restauração e até de outras actividades ligadas à pesca, nas aldeias, vilas e cidades da beira de água do nosso país. Se não houver o que procuram, depressa tudo ficará «às moscas».

O pescador é cada vez mais um turista ecológico pela sua ligação à natureza e pela forma como privilegia esse contacto. Aumentem-se as licenças, reservem-se águas, façam-se concessões, limitem-se as capturas, imponham-se outros limites, enfim faça-se uma gestão correcta, mas, por favor, deixem pescar quem quer pescar!

Enquanto o panorama da gestão pelas entidades competentes não muda, podemos dar uma grande ajuda, basta libertarmos os peixes que pescamos… Assim garantiremos o futuro da espécie e da nossa paixão: a pesca do achigã. Façam como o Paulo Barroso faz neste filme… E sempre que pesca.


Mas, o que podemos fazer, fica para outro artigo.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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