Continuamos em pleno defeso, com muitos de nós já cheios de vontade de voltar a pescar… Não se esqueçam de cumprir a lei. Somos pescadores desportivos ou recreativos e devemos ter uma atitude condicente com esse estatuto. Como tal, vamos analisar um pouco da ecologia do achigã perceber porque ataca ele uma presa/amostra.

Há teorias que apontam para um elevado número de motivos que podem dar origem a um ataque de um achigã. Um achigã não ataca amostras apenas para se alimentar. Este é um dado adquirido e que abre perspectivas para «quando eles não querem comer». Há várias «razões» que levam um predador como este a abocanhar ou simplesmente a tentar retirar do seu território esse intruso que lá lhe colocamos para o aborrecer e capturar. Trata-se de instintos básicos, mais do que de «razões». O achigã é um predador de sucesso e isso deve-se à sua versatilidade e ao seu oportunismo. Claro que a necessidade de se alimentar é a primeira razão e a que mais ataques provoca, mas, como se trata de um peixe territorial, a própria defesa desse mesmo território pode levá-lo a atacar.

Sendo um peixe irritadiço, é pela irritação que temos de actuar. Assim, a repetição de lançamentos para os mesmos sítios nem sempre é tempo perdido. Quando podemos vê-lo sem que eles nos vejam, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance por irritá-lo até ele não poder mais e atacar.

A alimentação é o fator principal, mas a curiosidade e a irritação também são motivos fortes

A alimentação é o fator principal, mas a curiosidade e a irritação também são motivos fortes

Por vezes, os achigãs formam cardumes. Não se tratando de cardumes no verdadeiro sentido do termo, dado que não há normalmente objectivos comuns e coordenação de movimentos, vagueiam pelas massas de água em aglomerados, mais ou menos numerosos, mais ou menos dispersos. É nestas condições que surgem os frenesins alimentares. Quando assistirmos a este fenómeno, poderemos tentar pôr à prova a sua capacidade de competir entre si. A competição é, então, outra das razões que os leva a atacar presas reais ou artificiais, mas isto não acontece apenas entre elementos da espécie. Ver um predador de dimensões inferiores atacar presas ainda mais pequenas levará um achigã a roubar-lhe o alimento ou a atacá-lo… Existem amostras desenhadas nesse sentido. Por outro lado, já me aconteceu pescar achigãs em cardumes de carpas. No Bassmasters Classic de 1999, a primeira vez que a prova visitou New Orleans, assisti a uma coisa interessante. Estava no barco com o Art Ferguson quando ele me chamou a atenção para um grande cardume de redfish (acho que é uma espécie de corvina que entra nas águas do Delta do Mississippi). A primeira coisa que me disse foi que eles atacavam as amostras também e não tardou a capturar dois belos exemplares, mas também capturou um achigã, de cerca de 1,2 kg. Antes de capturar o achigã, que foi o seu melhor do dia, tinha-me explicado que no meio de cardumes de redfish podia haver achigãs e que não seriam pequenos, porque tinham de competir com outra espécie. Nestes cardumes também se pode gerar competição.

A curiosidade mata! No caso do achigã, isto é também uma verdade! Por curiosidade pura e simples, um peixe pode meter na boca qualquer coisa que caia por perto. Afinal é a única forma que eles possuem de «pegar» nas coisas…

A defesa do seu ninho e da sua prole é outra das razões que provoca ataques a tudo o que se mexer ali por perto. Neste caso, e numa primeira fase de construção/ocupação, quer apenas desocupar uma zona que é sua, mais tarde tratará de proteger os ovos e depois a ninhada até que nade livremente, nestas duas últimas fases torna-se particularmente violento.

Há quem diga que se podem capturar achigãs por acto reflexo, mas estudos mais aturados chegaram a conclusão de que estes animais não têm capacidade para responder por reflexo. Nestes casos, parece que o que lhes falta é tempo para decidir e só atacam por estarem com vontade de comer, ou por curiosidade, eles não têm mãos… Agarrar para ver inclui sempre atacar.

Um buzzbait pode ser irritante, mas também imita um predador mais pequeno em perseguição

Um buzzbait pode ser irritante, mas também imita um predador mais pequeno em perseguição

Será necessário ter sempre em conta que quase todos os dados estabelecidos sobre o comportamento das espécies piscícolas o foram com base em estudos estatísticos. O que significa tratar-se de comportamentos médios e não de verdades absolutas. É claro que o comportamento destes animais, que respondem às condições que encontram e que os determinam, não pode ser globalmente muito diferente. Mas nunca nos poderemos esquecer que nem todos os indivíduos respondem da mesma maneira, e que muitos desses estudos foram elaborados em condições que nem sempre correspondem as naturais, com todos os seus factores. Não vou aconselhar a que nos alheemos totalmente desses ensinamentos, bem pelo contrário, pois são a única referência de aproximação de que dispomos, sem no entanto nos «escravizarmos» por elas. Muitos desses estudos chegam a conclusões diferentes e às vezes mesmo contraditórias. Assim, vamos usar esse conhecimento para nos ajudar a entender e a estabelecer uma prática que, com a nossa evolução, nos levará a uma determinada consolidação de ideias próprias.

Nunca deveremos partir derrotados para um dia de pesca, pensando que as condições são más. Os achigãs podem-se pescar todos os dias, e essa é a única verdade que nos interessará quando partirmos para uma pescaria.

Em última análise, nem nos interessa porque é que ele ataca, interessa que ataque. Nem sempre conseguiremos estabelecer claramente o que fez despoletar o ataque, mas isso é o que menos interessa desde que o ataque seja desferido.

Divirtam-se e não se esqueçam que quanto mais soubermos, mais conscientes teremos de ser...

Divirtam-se e não se esqueçam que quanto mais soubermos, mais conscientes teremos de ser…

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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