Hoje proponho um olhar crítico sobre o Bassmasters Classic que acabou de ter lugar no Guntersvile Lake, Alabama, EUA.

Não me interessa nesta crónica falar de amostras e de técnicas porque isso, os mais apaixonados, já viram nos sites da especialidade. O que proponho é uma reflexão sobre o vencedor e os vencidos.

Nunca aconteceram, não foi desta e nunca vão acontecer dois Classics iguais, ou mesmo parecidos. Todos os anos se começa do zero. O vencedor é quase sempre uma grande incógnita até ao último dia de prova, mesmo quando vence quem estamos à espera. Como o Kevin VanDam, que é já aposta regular de quase todos os fans. Há sempre aquele frio na espinha em cada um dos raros que conseguem lá chegar e, antes de começar… Posso garantir-vos pelas oito vezes que lá estive a fazer cobertura… Todos pensam que podem vencer. Eu acho que podem mesmo todos vencer, embora no final saia apenas um vencedor. Esta é a primeira coisa que qualquer dos que entrevistei dois dias antes do início: «Estou aqui, portanto, posso vencer!» E dizem-no com uma convicção profunda de quem teve de passar muitas barreiras para chegar ali. De facto, a presença nesta prova é já um acumular de muitas vitórias, o ultrapassar de muitos obstáculos, o cumprimento de um sonho ou de um objectivo. Se para alguns pescadores é quase uma obrigação, não deixa de ser um grande orgulho e um desafio pessoal.

Então, o que temos no campo de prova é um conjunto de vencedores!

Sim! Todos eles, de uma forma ou de outra, trabalharam para ali chegar. Ninguém chega lá por acaso.

Depois vemos o primeiro dia de prova e tudo se começa a desenhar. Todos vos dizem o mesmo se lhes perguntarem, é uma frase quase feita: «Não posso vencer no primeiro dia, mas posso perder no primeiro dia». Esta convicção encerra uma realidade de que o grande mestre Rick Clunn me deu conta numa entrevista, em 2007, no dia anterior ao início de mais um Classic: «Se alguém te disser hoje que sabe que vai vencer estará a mentir. Até ao final do primeiro dia de prova, ninguém sabe nada!» Depois desenvolveu que o primeiro dia é fulcral para saber em que pé estamos em relação aos outros, como nos colocamos com o que conseguimos reunir nos treinos, em relação aos que os outros conseguiram, como nos adaptámos às condições e como se adaptaram os outros. A partir daí pode ter-se uma ideia. Claro que isto quer dizer muitas coisas… Por exemplo este ano, o Paul Mueller era capaz de fazer as malas ao final de um desastroso primeiro dia, com uma pescaria de três exemplares e umas meras nove libras e pouco… Nem nunca pensou conseguir estar presente nos 25 do último dia. Porém, com a melhor pescaria da prova que conseguiu no segundo dia, colocou-se numa posição que lhe permitiu alcançar o segundo lugar no final.

Randy Howell é  ajudado para mostrar toda a pescaria - Darren Jacobsen/Bassmaster

Randy Howell é ajudado para mostrar toda a pescaria – Foto: Darren Jacobsen/Bassmaster

Outro exemplo é o nosso conhecido Edwin Evers (que esteve entre nós num Clássico APPA, quando ainda os havia…) que começou em segundo e a pensar que podia ganhar, curiosamente alcança o primeiro lugar no segundo dia de prova e… Nota-se ali mesmo… Perdeu a confiança, depois de um dia em que sofreu para fazer um limite e depois consegue um peixe gigante que pescou pelo rabo… Quer dizer, ele percebeu logo que tudo podia acontecer, mas também soube logo que o factor sorte que o favoreceu no segundo dia, dificilmente lhe sorriria no terceiro… Não deixa de ser interessante que, mesmo assim, tenha conseguido ficar em terceiro. Francamente, eu, depois do que vi, esperava uma queda maior.

Depois temos o grande vencedor. Randy Howell. É uma pessoa humilde, afável, que sempre se dispõe a ajudar nas grandes e nas pequenas causas. Como pescador, ele mesmo disse no palco, não costuma vencer muitas vezes, mas esta vai ficar gravada na história da nossa pesca. Subir de um 11º lugar para o primeiro! É OBRA!

Paul Mueller - James Overstreet/Bassmaster

Paul Mueller – Foto: James Overstreet/Bassmaster

Eu fiquei muito espantado por ele ter ido à pesagem logo no início, mas isso era só a organização a arranjar mais «suspense». O vencedor costuma estar entre os «super six», os últimos seis a pesarem as suas capturas. Randy tinha tido um dia que classificou como o melhor dia de pesca de toda a sua vida. Ia voltar para os locais que o tinham colocado na 11ª posição, mas, mesmo depois de ter dito à sua família para ir ter com ele e um determinado sítio, mudou de ideias, teve aquilo a que nós chamamos uma «fezada», e decidiu-se por ela já a caminho para a derradeira jornada. Ele disse ao Davey Hite, á saída da água, que uma premonição destas não de pode ignorar numa prova como o Classic, em que, ser 11º ou último, é quase a mesma coisa para estes profissionais que têm uma carreira estável. Tinha já pescado neste local sossegado, junto de uma ponte que tinha imensos peixes de passagem. Esta altura do ano é de grandes movimentos entre esta espécie. Ao primeiro ameaço de primavera, os achigãs começam a deslocar-se para as zonas mais baixas, porém, se o tempo arrefece, voltam para trás, e podem passar semanas nestes movimentos, de e para essas zonas, o que os torna mais facilmente localizáveis. Depois não esqueçamos a recente evolução dos meios de detecção de peixes. De facto, hoje em dia, é muito mais fácil encontrar estes peixes e saber logo se são grandes ou pequenos, se sobem ou descem na coluna de água, se se encostam às coberturas ou se se afastam delas. As novas sondas são autênticas ecografias que, conjugadas com o GPS, se tornam armas muito mais precisas do que eram há cinco anos. Nada disso retira mérito aos pescadores, a localização é apenas um dos aspectos da nossa pesca. Muitas vezes eles estão lá e nada os faz atacar as amostras… Como muitos se queixaram neste Classic.

Randy Howell e Edwin Evers - Darren Jacobsen/Bassmaster

Randy Howell e Edwin Evers – Foto: Darren Jacobsen/Bassmaster

Randy encontrou este local junto a uma ponte num ribeiro e teve o melhor de vários mundos. Muitos peixes acima dos dois quilos, um, pelo menos acima dos três, mais de sessenta capturas e um público constantemente a rejubilar com a sua pescaria. O facto de estar junto de uma ponte, facilitou a presença de mais de uma centena de espectadores em terra, fora os que já o acompanhavam de barco… Vi muitas cenas da GoPro que estava no seu barco e vi também alguns vídeos de fans que estavam no local. O ritmo de capturas é impressionante e o seu tamanho fora de série nestas quantidades. Parecia que todas as «mamãs» tinham decidido ir às compras àquele «centro comercial» e que era hora de almoço no único restaurante aberto… É a imagem que me fica, impressionante é que quase não deixavam os «maridos» comer e muito menos os filhos… perdoem-me a imagem e a humanização, mas é o que parece. Só para dizer que o que o nosso campeão encontrou, encontra-se uma ou duas vezes na vida e, normalmente, não é em prova.

Não deixa de ser impressionante a forma como ele «facturava» sem queixas, sem medos, sem meias… Vinha mais um a seguir ao outro e o próximo poderia fazer a diferença. Fizeram! Todos! Aio que disse trocou peixes já depois do meio-dia. Uma pescaria acima dos 13 quilos em cinco peixes que o colocou na «roda-viva do ano seguinte» que vai agora ter de enfrentar…

Randy Howell com o seu troféu - Darren Jacobsen/Bassmaster

Randy Howell com o seu troféu – Foto: Darren Jacobsen/Bassmaster

Mas isso é tema para outra crónica.

Por hoje, fiquemo-nos com as palavras de Gerald Swindle para quem quer ser pescador profissional: «A primeira coisa que precisam de aprender é a saber perder, porque vai acontecer de certeza…»

E, já agora, com a velha máxima do Ike quando venceu o Classic de 2003: «NEVER GIVE UP!!!»

É o que se pode dizer a quem atinge este patamar, a quem chega a esta prova. Já agora, vale a pena recordar que a partir de 2015 poderemos ter um português numa prova destas. Com a eminente criação da BASS Nation de Portugal, todos os anos, um pescador português vai ter a oportunidade de lutar por um lugar no Bassmaster Classic. Não perca a oportunidade que lhe é dada e junte-se à nossa BASS Nation!

Fotos gentilmente cedidas pela BASS

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

More Posts - Facebook