Porventura pensar-se-á que está tudo dito sobre o Senko, mas nunca é demais reforçar as diversas formas como podemos usar esta amostra em nosso proveito, em dias de pesca fáceis ou difíceis. Pode ser usado em todos os tipos de empates conhecidos para iscos de plástico mole e, em todos, proporciona apresentações mais ou menos naturais, mas sempre ao melhor nível no que toca a capturas. É uma amostra para todo o ano que trabalha em todo o tipo de coberturas e de estruturas com facilidade. De facto, no que respeita a versatilidade, esta amostra já provou que é dificilmente superável.

O Senko e os senkos

Francisco Eusébio e o peixe de 6,040 quilos apanhado com um Senko

Francisco Eusébio e o peixe de 6,040 quilos apanhado com um Senko

Hoje em dia quando se fala de Senkos já não estamos propriamente a falar apenas do Senko inventado pelo génio de Gary Yamamoto. Na verdade, quase todas as marcas de amostras de plástico mole têm a sua «amostra tipo Senko». Numa das minhas visitas aos EUA perguntei a um dos membros do «staff» da Gary Yamamoto Custom Baits, Joe Jones, se não os incomodavam todas estas imitações e a resposta foi insólita para mim: «Muito pelo contrário, de cada vez que alguém fala de uma imitação de Senko, chama-lhe ‘tipo Senko’, e isso é publicidade para nós». É uma forma muito positiva de ver as coisas, na minha maneira de ver, e isso só demonstra que um êxito não anula outros, podendo até continuar a viver neles e através deles. Realmente não há mais nenhum como o Senko, no entanto, as diferenças podem ser vantajosas para nós se as soubermos aproveitar. Sabemos, por exemplo, que o sal impregnado no Senko lhe dá um peso característico, por outro lado, o tipo de plástico usado proporciona-lhe uma determinada textura e estas características não estão presentes em nenhuma das amostras por si inspiradas. Isso não é mau nem bom, é apenas diferente. Basicamente, o que podemos fazer com um Senko, poderemos fazer com todas as suas imitações, umas mais flutuantes, outras mais pesadas ou com acções algo diferentes devido aos desenhos… Pessoalmente prefiro o Senko a todas as outras e faço a sua apologia, embora use algumas vezes as imitações para ver como se comportam, nunca nenhuma me convenceu a deixar de voltar ao original.

Sem mais peso

Gary Yamamoto, o criador do Senko (Foto cedida por GYCB)

Gary Yamamoto, o criador do Senko (Foto cedida por GYCB)

Segundo o seu criador, este isco foi concebido para usar sem mais peso. Basta que coloquemos um anzol, como se fossemos pescar à Texas, mas sem tradicional peso em forma de bala. Para ficar bem montado deve usar-se um anzol à medida certa. Na minha opinião o anzol não deve exceder metade do corpo da amostra, para que haja mais acção na queda. Se pretender que a amostra se agite mais durante a queda, basta usar um anzol mais pequeno, por exemplo, num Senko de 12,5 centímetros poderemos usar, no mínimo, um anzol 1/0 e no máximo um 4/0. Quanto maior for o anzol escolhido menos acção terá, mas, por outro lado, as ferragens serão, sem dúvida, mais eficazes. Temos de saber o que queremos em cada situação, ou então, teremos de «sondar» o que quer o peixe, fazendo várias tentativas.

Devido à espessura normal de um Senko não devemos deixar o anzol escondido dentro do corpo da amostra, obrigando-o a passar todo o corpo, deixando a ponta do anzol pronta para ferrar – é o chamado método «texposed» (Texas exposto). Para evitar que a ponta do anzol esteja sempre a embirrar com os obstáculos podemos reintroduzi-la no corpo da amostra, escondendo-a. (colocar foto «sistema texposed» perto desta descrição)

Quem já viu uma destas amostras a descer sem peso, sabe que esse é o seu melhor trabalho. A forma como se agita e «dança» enquanto desce dá-lhe uma espécie de vida, ou de torpor agonizante, que tanto agrada aos predadores em busca de uma refeição fácil. Uma das formas mais efectivas de usar esta amostra consiste em não fazer nada e permitir que baixe sempre com a linha solta. Eu sei que se torna difícil perceber os ataques com a linha bamba, mas basta olharmos com muita atenção para a linha para nos apercebermos de eventuais ataques. Outra das coisas que posso garantir é que mais de noventa por cento dos peixes, quando pegam num Senko, não o largam facilmente, deixando-se detectar pelo movimento súbito da linha. Normalmente, olho com muita atenção para o local onde a linha penetra na água e ferro a qualquer movimento estranho que ocorra… São quase sempre peixes e, se não os conseguimos ferrar, é porque não têm tamanho para comer a guloseima toda…

sistema texposed

sistema texposed

Aconselha o criador

O próprio Yamamoto aconselha a que se mexa muito pouco a cana quando se usa esta amostra. Ele diz que, quanto mais lento for o pescador, melhor pescará com este isco. A paciência é a virtude essencial de um pescador e, neste caso, é fulcral. Os toques devem ser muito subtis e espaçados, para que se consiga o máximo desta amostra.

Desenhado para ser um jerkbait, na verdade, resultou numa amostra de finesse, no verdadeiro sentido do termo, ou seja, para ser usado com astúcia. Para peixes muito activos há muitas outras amostras, embora os Senkos também apanhem peixes nesse estado, porém, o seu melhor trabalho é na subtileza, nas condições difíceis.

A apresentação horizontal assemelha este isco a um peixe, e esta é a razão principal para que o usemos sem peso, mas, não menos importante é o facto de ter sido desenhado para aplicações em zonas baixas e com coberturas.

Quando queremos usá-lo em zonas mais fundas teremos de começar a juntar peso e isso pode ser feito de diversas formas.

Fundo, o que é fundo?

A definição do que é fundo e baixo baralha muito os pescadores menos experientes e não deixa de ser relativo. Para que se estabeleçam parâmetros, diga-se que se consideram zonas baixas as de profundidade até aos três metros e, fundas, abaixo disso, sendo que, na maior parte dos casos, os achigãs se ficam até aos doze metros, dado que, os níveis de oxigénio, abaixo dessas profundidades são muito baixos. Claro que há excepções e nós temos algumas barragens em Portugal com águas muito límpidas que permitem a penetração de luz abaixo dessas profundidades e, havendo algas que produzam oxigénio, poderá haver achigãs. Mas aí teremos de juntar mais peso…

Empate wacky

Outra das formas de pescar com esta amostra, não menos efectiva, quer para peixes activos quer para inactivos, é o empate wacky, ou seja, preso pelo meio com um anzol mas pequeno. Aconselho a que se use um anilha, ou uma cinta de tubo de silicone, a envolver a amostra para evitar espetar o anzol directamente na amostra, uma vez que o plástico usado para obter a textura ideal é, de algum modo frágil e, ao fim de meia dúzia de lançamentos, pode rasgar-se e perder-se mesmo no lançamento.

Este empate deixa mais margem para enganches, por isso, se quisermos usá-lo dentro de coberturas devemos sempre usar um anzol com antierva. É excelente para pescar debaixo de docas ou de copas de árvores, até porque nos permite executar um lançamento conhecido como skipping, que leva a amostra a saltitar ricocheteando na superfície da água algumas vezes antes de começar a afundar. Este tipo de lançamento pode ser usado para colocar a amostra debaixo de qualquer obstáculo que ofereça uma abertura de alguns centímetros entre si e a superfície da água, como os antes referidos. Os achigãs usam estes locais para se protegerem da luz emboscando-se à espera de uma oportunidade para se alimentarem se grande trabalho. No entanto, o skipping imita também a acção de fuga de alguns peixes-presa, como o alburno e as bogas e isso é mais um factor desencadeante de ataques por parte dos predadores, por isso, pode ser usado mesmo em águas abertas.

Diversas formas de usar Senkos  (Foto cedida por GYCB)

Diversas formas de usar Senkos (Foto cedida por GYCB)

Juntar peso

À medida que queiramos pescar mais fundo, há muitas formas de juntar peso. A primeira que deve ser considerada é a inserção de peso dentro da própria amostra, uma vez que podemos fazer uma distribuição à nossa vontade e variar, não só a velocidade com a própria posição durante a queda. Se juntarmos peso numa das extremidades essa afundará à frente, se distribuirmos o peso pela amostra ela pode continuar a descer na horizontal, embora a acção mude, notando-se menos a tal agitação característica.

Stacey King usa o Senko montado num cabeçote para o arrastar pelo fundo

Stacey King usa o Senko montado num cabeçote para o arrastar pelo fundo

Depois podemos usar outros tipos de empates, consoante as nossas necessidades. Por exemplo, no Bassmasters Classic de 2006, Larry Nixon usava uma bala com rosca, de três gramas, numa espécie empate Texas ligeiro, apenas para poder guiar a amostra pela vegetação vertical. Digamos que este bocadinho de peso servia de orientador apenas. De resto, depois de lançar junto da vegetação vertical, como os juncos, Larry quase não mexia o isco e, quando o fazia, era com muita subtileza. Foi a imitar esta técnica que Francisco Eusébio pescou um peixe de 6,040 quilos na barragem Chicamba, em Moçambique. É realmente uma forma de pescar muito subtil conhecida como «do nothing» ou «dead sticking». Realmente é preciso fazer muito pouco a esta amostra para que ela funcione na perfeição.

Outro profissional, Stacey King, no Bassmasters Classic de 2004, usou uma amostra tipo Senko, num cabeçote de dez gramas, para capturar os peixes que lhe deram o oitavo lugar. Stacey arrastava o conjunto pelo fundo, muito lentamente, em estruturas que tinham ligeiras irregularidades e quedas de alguns centímetros apenas.

Enfim… Como já dissemos o Senko é universal quanto aos empates, cabe-nos a nós decidir qual o melhor a usar a cada momento, segundo as condições que nos desafiam.

Material mais apto

Para se usar o Senko sem peso e com o sistema «texposed» aconselho uma cana de 6,6 ou 7 pés de acção média-pesada e uma ponteira rápida. Casting ou spinning, tanto faz, qualquer delas serve os interesses deste empate. O que interessa é que consiga lançar e, mais importante, ferrar bem. Como o anzol está protegido, a ponteira rápida da cana é essencial. Não se assustem com os termos, normalmente, todas as canas de acção média-pesada têm a ponteira rápida, quero dizer, não é preciso nada de muito específico. Eu gosto mais do material de casting para este caso, mas a minha preferência deve-se ao facto de usar linha mais grossa de nylon ou copolímero, de preferência, excepto se estiver a pescar em ervas, aí, vou usar entrançado e já posso usar uma cana de acção média para compensar a falta de elasticidade da linha.

Quanto a anzóis, cada um terá as suas preferências, a minha escolha recai sobre os Gamakatsu EWG, entre os 2/0 e os 4/0 e, para o wacky, os Fina Hooking Special, em 1/0 ou 2/0. Trata-se de um anzol desenhado por Toshinari Namiki que é muito fino e tem um excelente antierva.

Nenhum «arsenal» de amostras para a pesca do achigã estará completo sem algumas deste tipo. Muitas vezes resolverão um puzzle e por certo vão-nos dar muitas alegrias… E o que é a pesca sem isso? Sem a alegria que as capturas proporcionam?

Pode ainda estar interessados noutros artigos sobre senkos:

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

More Posts - Facebook