Há dias, numa conversa com um amigo que vinha de um fim-de-semana de provas que lhe tinha corrido bem, abordámos o tema da sorte e hoje recupero um texto antigo que resume o que penso sobre esse tema…

É vulgar que se atribua a uma boa pescaria uma boa dose de sorte e a uma má uma boa dose de azar.

Antes de mais vamos tentar fixar estes conceitos que são um só. Sorte ou azar não passam da influência que determinados imponderáveis exercem. A forma como sucedem, a nosso favor ou contra, determina a designação positiva ou negativa.

A pesca, como a pratico e a concebo, nada tem a ver com os jogos de azar. Se jogo na lotaria ou no loto, haverá um sorteio que vai decidir o resultado, isto é, há um elemento arbitrário, o sorteio, que me vai discriminar positiva ou negativamente.

Na pesca não é assim. A não ser para o pescador que vai para qualquer sítio fazer uns lançamentos sem se preocupar de todo com o que está a fazer. Quando um pescador se preocupa e se aplica na sua pesca as coisas evoluem e, quanto mais dominar o conhecimento que enforma o tipo de pesca que executa, menos fatores alheios intervêm. Então a intervenção dos imponderáveis reduz-se de forma a que não haja mais influência de fatores alheios do que noutros desportos.

sorte ou azar na pesca

«A sorte protege os audazes» é um chavão muito antigo que nada mais quer dizer que quanto mais nos especializarmos numa determinada atividade menor será a influência de fatores aleatórios.

Não é raro ouvirmos dizer que fulano ou sicrano teve a «sorte do jogo», querendo isto dizer que tudo lhes correu bem e que, num ou noutro lance, foram favorecidos por elementos alheios ao estrito jogo em questão. Por exemplo, se uma bola bate na barra é azar de quem ataca e sorte de quem defende, em termos de desportos com bola. Poderá dizer-se que foi falta de pontaria do rematador, mas pode um fator alheio ao jogo em senso estrito, como o vento, desviar a trajetória de uma bola por forma a facilitar ou a impossibilitar o sucesso. O vento, neste caso, não deixa de ser uma variável a ter em conta nos desportos de ar livre, porém, dada a velocidade a que as coisas ocorrem, nem sempre pode ser tida em conta em todos os momentos.

Quando o nosso adversário é um animal irracional, também ele condicionado por inúmeras influências, torna-se mais difícil do que rematar e acertar ou não. A pesca desportiva em geral tem demasiadas variáveis que a condicionam de tal forma que controlar absolutamente a situação é impossível.

Do que fica dito parece extrair-se que a sorte influencia mais a pesca que os outros desportos, mas de facto não é assim. Saber lançar com a precisão necessária, saber qual é a necessidade dessa precisão, conhecer profundamente a espécie que se pesca, a sua biologia e, mais importante, a sua ecologia, isto é, a forma como se relaciona com o meio e interage com as outras espécies presentes, é como aprender a driblar, a rematar e a jogar em equipa nos desportos referidos. A única margem de erro que fica são as restantes imponderáveis, quanto maior for o nosso conhecimento nestes domínios menor será a influência de fatores arbitrários.

As hipóteses de capturarmos um peixe que, na maior parte das vezes, não vemos, imaginando apenas que, devido ao seu instinto, deve estar em tal localização e disposto a atacar um isco artificial, são ínfimas, por isso é vulgar atribuir-se aos pescadores uma paciência infinita na busca ou na espera pelo peixe… O conhecimento que podemos adquirir com algumas leituras e a prática pode fazer pender as probabilidades para o lado de quem se dedica a esta busca. Os achigãs, em particular, e os outros animais selvagens, em geral, reagem secularmente da mesma forma perante determinadas condicionantes, quanto melhor conhecermos as suas reações mais bem-sucedidas seremos na sua captura ou simples observação.

Assim, não me parece de todo que a pesca desportiva como a praticamos seja um «jogo de azar». Acho até uma injustiça ao mérito de qualquer pescador semelhante consideração. Um pescador moderno prepara-se com as ferramentas de que dispõe para fazer face aos desafios que tem de enfrentar de cada vez que sai para pescar, quanto mais preparado estiver mais êxito terá.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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