Há dias pesquei com um amigo que estava muito preocupado, eu diria mesmo frustrado, por as suas pescarias não coincidirem com as teorias que estuda avidamente.

Tentei sossegá-lo… Não sei se fui bem-sucedido, mas espero que sim.

Serve pois, esta pequena prosa, para quem sentir estes problemas…

Meus caros amigos pescadores, uma teoria é a soma e/ou média de muitas pescarias… Não de uma ou de duas, e, por certo, muito menos, de umas horas de pesca.

A pesca padronizada foi desenvolvida especialmente para a competição. Não quer dizer que não tiremos ilações quando pescamos por lazer, não quer dizer que não se consigam estabelecer padrões nas pescarias do dia-a-dia. Mas, por favor, que não seja essa a nossa preocupação num dia de pesca de lazer ao ponto de nos retirar o essencial da pesca lúdica – o prazer de cada captura. Estabelecermos um padrão pode ajudar a conseguir mais capturas, mas, se essa busca nos retirar o prazer de uma captura casual, por muito boa que seja, então, estragou o que mais interessa – o puro desfrute de cada captura, independentemente das circunstâncias.

Captura com ExoStick da BioSpawn numa zona onde aparentemente não existiria nenhuma cobertura e/ou estrutura

Captura com ExoStick da BioSpawn numa zona onde aparentemente não existiria nenhuma cobertura e/ou estrutura

Quem pratica competição sabe que repetir o que está a fazer bem e anular o que está a fazer mal, é uma das regras de ouro quando se trata de ser consistente e regular, ou seja, quando se procura atingir patamares mais altos num qualquer concurso.

Quando preparamos uma prova, em treinos, devemos aplicar-nos em busca de padrões, de preferência de mais do que um, que englobem as localizações, as condições presentes, o tipo de material a usar e a técnica mais produtiva… Depois, se pudermos afinar esses padrões, iremos averiguar a diferença que uma cor (ou padrão de cores) pode fazer e mesmo o tipo de animação em busca de números ou de grandes exemplares… Aqui arrisca-se sempre muito. Os exemplares grandes são necessariamente menos e podemos terminar um dia sem uma única captura por nos termos dedicado apenas a estes. É bom pensarmos na quantidade primeiro e na qualidade depois, salvo raríssimas excepções.

Dito isto, vejamos outra coisa. Um pescador de lazer que trabalhou a semana toda, às vezes arduamente, e vem para a pesca para espairecer, não pode estar com este tipo de preocupações. Garanto que 90 por cento das nossas pescarias não têm nada a ver com as teorias de que falamos tantas vezes, no entanto, se soubermos a teoria, teremos sempre mais armas para usar.

Muitos anos de pesca e de estudos deram origem a teorias sobre a pesca do achigã. A teoria é assim uma ferramenta. Muitas são fundadas em observações que nada têm a ver com a nossa realidade. Temos de ter presente outro fator muito importante: uma teoria é sempre uma média de muitas observações, ou seja, é uma espécie de matemática, que não passa de uma interpretação, mais ou menos generalista, de determinados fenómenos. Capturar um peixe, dois ou três, não tem nada a ver com isto. Nem sempre os peixes se comportam como a média dos comportamentos. Um peixe é um indivíduo que tem instintos comuns aos da sua espécie, mas que pode reagir de forma diferente perante os mesmos estímulos. Por exemplo, determinados sons afugentam a maioria dos exemplares de um cardume, mas acontece muitas vezes haver um mais curioso que, em vez de se proteger, resolve ver do que se trata e satisfazer a sua curiosidade. Muitas vezes os achigãs assustam-se quando nos veem, outras vezes tentam «roubar-nos» a amostra que «corre» para nós, quando a recuperamos. Eles avaliam os riscos e se, para uns, faz sentido arriscar, para outros, não. Cada peixe é um peixe e eles não são todos iguais. O comportamento médio, apresentado nas teorias, é muitas vezes contrariado por alguns indivíduos. Se isso nos proporcionar uma ferragem, melhor! Devemos festejá-la e desfrutar do prazer da luta.

Festejar as capturas

Festejar as capturas

Se querem evoluir, leiam, vejam vídeos, procurem a companhia de pescadores mais experientes, e não necessariamente por esta ordem… Quando forem sozinhos, prestem atenção a tudo. Façam registos das vossas pescarias, há imensas aplicações para smartphones para este tipo de registo. Fiz uma busca por «fishing logs» no meu IPhone e apareceram-me centenas de aplicações. De vez em quando releiam as vossas notas, especialmente, passado algum tempo quando visitarem a mesma massa de água em condições idênticas…

As formas de evoluir são muitas, mas a base é amar o que se faz.

Amar cada peixe.

Amar cada captura.

Amar cada dia de pesca.

Amar cada circunstância.

Amar cada grade e entendê-la como uma forma de aprendizagem.

Que seja a pesca um meio de conseguirmos a paz e a felicidade quando ela nos falta em todo o resto.

Nunca, mas nunca deixem de se divertir!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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