Não se pode estar sempre a falar de técnica como se apenas isso interessasse no nosso mundo de pesca. De vez em quando, há que parar e fazer jus aos tempos que nos brindam com a realização de sonhos ou com qualquer outra coisa de relevo.

Quem dedicou os últimos vinte e cinco anos à divulgação da pesca do achigã, não pode deixar de estar orgulhoso pelo que aconteceu na semana que acabámos de viver. Em rigor, um dos acontecimentos encerra a semana passada e o outro abre esta, no entanto, ambos tiveram as suas aberturas na semana passada. Semana rica, esta, para nós. Poderia afirmar, sem vaidades exageradas que estes dois acontecimentos são históricos para a nossa pesca em Portugal, para este movimento que tem fluído em correntes e contra-correntes, ao sabor dos dias de crises e de expansão que fazem ciclos e, finalmente, avançam teimosamente, contra a vontade de alguns e para alegria de outros… Tanto que eu poderia contar sobre estes movimentos, mas não o vou fazer. O tempo é de festa, de rejúbilo, de orgulho para quem se empenhou e para todos os que se revêem nestas conquistas. É mesmo daquelas alturas de embandeirar em arco e dizer: Conseguimos!

São acontecimentos de grandezas diferentes, embora nem consiga dizer qual o maior; de âmbitos diversos, mas ambos dignificantes para a pesca do achigã… Por isso vou usar a ordem cronológica dos respectivos encerramentos para me referir a eles, para que ninguém me pergunte a qual dou mais importância. Francamente, não sei!

Homenagem à BASS Nation, ao Ricardo Mira e à primeira participação num apuramento para o Bassmaster Classic - brilhantemente executada por Manuel Gonçalves - Bass Lusitano

Homenagem à BASS Nation, ao Ricardo Mira e à primeira participação num apuramento para o Bassmaster Classic – brilhantemente executada por Manuel Gonçalves

A semana passada a BASS Nation de Portugal fez representar o nosso país, pela primeira vez, no apuramento para o Bassmaster Classic, prova que, para quem não sabe, é considerada a mais importante da pesca do achigã ao nível profissional e à escala mundial. Há sempre os detractores que dizem que será para o mundo dos americanos e não para todo o mundo, mas eu contraponho: onde raio haverá mais interesse na pesca do achigã no mundo inteiro? Não será precisamente lá? Há muito quem se esqueça disso! Felizmente, com um «pai» como o Ray Scott, esta organização teve o condão de não esquecer o pescador amador, o chamado de «pescador de fim de semana» e de criar uma estrutura que permite a sua inclusão. Nós! Este ano! Estivemos lá!

Não conseguimos o apuramento? Não. Nunca nenhum europeu conseguiu. Mas! Que interessa isso? Estivemos lá! O nosso pescador, Ricardo Mira, foi apurado justamente! Representou Portugal o melhor que pôde e que soube. Dignificou-nos com a forma como soube estar em palco e na pesca, apesar de nem falar a língua. Foi o primeiro, muitos se seguirão. Até acredito que, um dia, um português chegará a um Bassmaster Classic. No entanto, nos apuramentos que se sigam… Já lá estamos!

Quero deixar um agradecimento público a quem conseguiu a concretização deste sonho. Não vou nomear ninguém, foram muitas pessoas, umas mais, outras menos, mas foram mesmo muitas.

Agradeço pessoalmente, isso sim, ao presidente da BASS Nation de Portugal por nos ter mantido informados, ao vice-presidente por ter mantido a informação actualizada ao minuto. José Moreira, Ramon Menezes – obrigado! Estou certo de que também lhes poderei agradecer, bem como a toda a direcção, por manterem esta chama viva apesar das contrariedades.

 Mundial de Pesca Embarcada do Achigã

Homenagem aos Campeões Mundiais, Joaquim Moio e Josão Grosso, brilhantemente executada por Manuel Gonçalves - Bass Lusitano

Homenagem aos Campeões Mundiais brilhantemente executada por Manuel Gonçalves

O segundo acontecimento foi o X Mundial de Pesca Embarcada do Achigã. Uma selecção que há quinze dias atrás nem constava da lista dos presentes, chegou lá com muito sacrifício, com boa parte das despesas pagas pelos pescadores e sem seleccionador… Ao que isto chegou! E mesmo assim, supera-se e traz para o país, que lhes negou as verbas necessárias, dois títulos, a saber, campeões mundiais por nações e campeões mundiais por duplas!

Pela primeira vez na nossa disciplina, Portugal vence fora de casa e não, não foi por acaso. Logo que terminou o campeonato nacional que deu origem a este trio de duplas eu sabia que eles iam trabalhar em equipa e isso é a base de todo e qualquer bom trabalho deste tipo.

Vou inventar um pouco e imaginar o que sucedeu. Perdoar-me-ão se assim não foi, mas em breve saberemos. Eu acho que tivemos uma selecção que se entendeu e uma dupla que conseguiu o «mote», leia-se padrão, ou conjunto de padrões e que partilhou com as outras. Estas, por sua vez, em vez de teimarem no que apuraram, ouviram, tentaram e… Conseguiram! Não estive lá. Não perguntei. Mas acho que foi assim mesmo ou muito perto disto.

Obrigado Dica, Casimiro, Silvestre, Sérgio, Quim e Grosso! Estive sempre convosco!

O resultado. Portugal domina a cena da pesca embarcada do achigã, no seio da FIPS-ed, em todos os aspectos. Foi quem começou e quem consolidou este tipo de organizações e agora, no plano desportivo, é a primeira nação com três medalhas de ouro, além de uma de prata. Já agora, será bom não esquecer que o evento predecessor – a Taça do Mundo de Pesca de Predadores – Variante Achigã – também foi vencido por nós.

Somos de facto únicos! Mas temos mais uma coisa que nenhum país tem. Temos uma dupla que já conquistou todos os lugares do pódio por duplas. Joaquim Moio e João Grosso que não falham uma selecção desde que estão a pescar juntos, na sua sétima internacionalização, fecham o ciclo com uma medalha de ouro. Na Venezuela, em 2012, num terreno totalmente desconhecido, conseguiram a prata e, por motivos que só alguns conhecem, foi na sua casa, no seu país, na barragem de Alqueva que conseguiram o bronze, em 2010, ano em que fomos também campeões por nações.

Isto, meus amigos, tudo isto, enche-me de orgulho de ser português e de ter dado muitos passos com gente deste calibre. Felizmente temos muita gente assim, infelizmente, muitos permitem que outros motivos atrapalhem estratégias e jogos de equipa.

Um dia, se os meus leitores não se maçarem, eu até explico as contradições da nossa disciplina, mas o que fica prometido desde já é uma entrevista com Joaquim Moio, talvez já na semana que vem.

Obrigado a todos os que me cumpriram estes sonhos e… Como sonhos dão origem a sonhos que, às vezes, até já são velhos e reacendem quando, nesse sentido, algo se move ou finalmente se concretizam… Sonho com o dia em que a BASS e a FIPS-ed se entendam e transformem a nossa disciplina no que ela devia sempre ter sido. Aliás, este também é um velho sonho que um dia contei ao meu grande amigo Francisco Maurício. Sonhámos então juntos esforçá-mo-nos então… As lideranças internacionais não se entusiasmaram… Enfim, por certo em 2003 não era o tempo ainda… Aguardo que seja um destes anos.

(Um agradecimento especial ao Facebook e a quem sempre actualizou a informação. Neste capítulo evoluiu-se muito)

Aqui fica o resumo do Mundial:

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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