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Um dos campeões conta-nos como viveu mais um mundial

Joaquim Maria Moio Lopes é a figura em destaque deste mundial. No México esteve uma seleção que reconhece que aquele peixe de 5,110, apanhado no primeiro dia de prova foi o suplemento que solidificou todo o potencial de vontade e capacidade que esta seleção levava.

Os elementos desta seleção são todos grandes pescadores! A todos devemos a subida da nossa bandeira ao mastro mais alto, com todos nos emocionámos só de imaginar «A Portuguesa» a ser ouvida em terras mexicanas. Ao ter de escolher um elemento para entrevistar optei por Joaquim Moio, por vários motivos: temos alguma história conjunta, já vencemos um Torneio APPA em equipa e foi também quem mais acompanhei com contactos diários durante o Mundial.

O Mundial deste ano teve lugar na província de Tamaulipas, no México, mais precisamente no mítico Lago Guerrero. Foi no início de novembro passado, entre 7 e 9 que decorreu a prova, como normalmente antecedida de dois dias de treino.

Aqui fica, pois, o testemunho de Joaquim Moio.

Barbara Durante - Secretária Geral da FIPS-ed - e Hugo Claudio Matteoli - Presidente - com o nosso entrevistado

Barbara Durante – Secretária Geral da FIPS-ed – e Hugo Claudio Matteoli – Presidente – com o nosso entrevistado

Hermínio Rodrigues: Mais uma vez parabéns. Diz-me, como foram os treinos?

Joaquim Moio: Estava mau tempo. Muito vento. Deram inclusive um alerta de que poderiam ter de cancelar um dia de treino o que acabou por não suceder. Calhou-nos um comissário que se negou a atravessar o lago naquelas condições, a responsabilidade e a decisão era dele, e ficamos a treinar junto do paredão…

HR: … E como correu?

JM: A coisa não correu muito bem. Tirávamos peixes de 700 gramas até um quilo. Saíram dois ou três peixes maiorzitos, mas nada de especial.

HR: E no segundo dia de treino?

JM: No segundo dia o comissário quis fazer a mesma volta. Nesta zona andavam apenas dois ou três barcos, o nosso era um barco considerado fraco, mas a maioria dos participantes andava a pescar do outro lado do lago, todos na mesma zona. Mesmo assim, fizemos alguns peixes maiores e começámos a perceber como sairiam na prova.

HR: Como é que vocês se organizaram enquanto seleção?

 JM: Treinámos livremente, mas íamos tentando estar em contacto, o que era difícil porque os rádios não funcionavam. O nosso comissário deu-nos uma dica sobre os telefones, disse que poderíamos comprar telemóveis baratos para estarmos sempre em contacto. Então, eu mandei comprar quatro telefones e distribuí pelas equipas. O nosso grupo era muito unido, e em reunião decidimos ir pescar todos para a mesma zona. As outras duas equipas tinham treinado nessa zona, mesmo sem terem dado por isso, quando acertámos o plano, é que se percebeu que tinham treinado muito perto uns dos outros.

HR: … Não se viram nos treinos?

JM: A zona era uma floresta pegada e não era fácil as equipas verem-se umas às outras.

HR: Que profundidade tinha mais ou menos a zona?

JM: A profundidade variava entre os dois e os oito pés. Águas sempre baixinhas, nem sempre nos apercebíamos de imediato porque as sondas nem sempre funcionavam, mas a pescar percebíamos bem que eram muito baixas.

HR: Que tipo de zona era? Havia entradas de água, canais…

JM: Era uma zona próxima da entrada de um dos rios principais – o Pilón –, mas dentro desse matagal passava um canal de um outro rio mais pequeno. A zona – conhecida como Borbolla – apresentava águas mais escuras porque fazia parte de uma zona recentemente alagada. Já há vinte anos que não havia água naquele tipo de zonas e, mesmo antes de sairmos de cá, tinha alertado para essas zonas, porque os peixes gostam de visitar zonas recém-alagadas, e para mais naquele tipo de terreno.

HR: E então começou a prova…

JM: No primeiro dia a minha equipa saiu no primeiro voo, mas o barco era tão fraco que, quando estávamos a chegar ao local escolhido, já nos estavam a passar. Então optámos por deixá-los passar e seguir a equipa da nossa seleção que conhecia melhor o local, dado que nós não tínhamos treinado lá…

HR: Porque é que não estavas no barco mais rápido?

JM: Em conjunto optámos por distribuir os barcos de acordo com a classificação no Campeonato Nacional que nos tinha apurado… Como tínhamos sido terceiros no nacional, ficámos com o barco mais lento.

HR: Vocês começaram muito bem o dia, vi um filme da vossa primeira captura pouco depois do início da prova…

JM: Sim. Eu até brinquei com o João, porque éramos os únicos que não tínhamos treinado na zona e fomos os primeiros a pescar. Quem se sentia mais à vontade ali era o Dica e o Casimiro, embora o Silvestre e o Sérgio também tivessem pescado. Nós estávamos a ver o Dica e o Casimiro, mesmo ali à frente e já tínhamos o limite quando eles capturaram o segundo peixe.

HR: Em que padrões se baseava a pesca da seleção?

JM: Quem tinha pescado no matagal transmitiu-nos que se apanhavam peixes com cranks, à Texas e com spinners, mas que era muito difícil pescar dado o conjunto das coberturas densas… Nós começámos com cranks de pala curta.

HR: Que tipo de lançamentos usavam mais?

JM: Pescava-se muito curto por entre os canais abertos pelas embarcações no meio das árvores. As águas eram turvas e não valia a pena lançar muito longe para não deixar o peixe fugir muito… Nós usámos sempre linha entrançada e isso facilitou. Os peixes tinham de vir logo para nós, não os podíamos deixar lutar muito. Carretos com os travões bem fechados para não dar hipóteses.

HR: Estavam a usar entrançado de que capacidade?

JM: Entre 60 e 65 libras, 0, 28 a 0,33 mm de diâmetro…

HR: Falaste de lançamentos curtos, queres dizer de quanto?

JM: Entre os cinco e os dez metros. Tivemos a percepção que se tentássemos mais longe íamos perder peixes. Os peixes atacavam bem, mesmo perto do barco e fizemos assim a pesca. Logo cedo tínhamos uma boa pesca e fomos trocando por peixes maiores.

HR: Mas depois a pesca mudou…

JM: Levantava-se o dia e os peixes emboscavam-se e ficavam menos ativos e deixavam de vir aos tais corredores. Então, mudávamos para iscos de plástico mole que colocávamos cirurgicamente nos sítios mais fechados das coberturas. Na segunda parte do dia ainda trocámos uns peixes, mas como já tínhamos uma pesca boa, optámos por sair. Disse ao João: «Temos de sair daqui, já temos uma pesca boa e temos de procurar mais locais porque não sabemos se isto vai aguentar. Saímos, fomos a uma zona parecida, não sentimos peixe e então decidimos fazer três pontas…

HR: Bicos em pedra, mas com árvores também?

JM: Sim um misto de pedra e árvores…

HR: Mais fundo?

JM: Sim, mas mesmo assim baixo. O sítio mais fundo tinha cerca de seis metros e estava muito afastado do bico. O crank vinha sempre a «agarrar-se» às árvores. Numa dessas pontas fiz um peixe de quilo e meio e passados cinco minutos fiz esse peixe grande… Acabou por correr bem.

Joaquim Moio com o maior exemplar do Mundal de 2014

Joaquim Moio com o maior exemplar do Mundal de 2014

HR: Foi no dia dos anos do Grosso…

JM: Foi uma boa prenda para ele, mas também foi um grande stress porque apanhámos o peixe quando faltava cerca de meia hora para acabar a prova e nós receávamos pelas condições do barco… Sabíamos que ia levar algum tempo a passar para o outro lado do lago, por causa das vagas. Fizemos uma pequena festa por causa do peixe e quando íamos a tentar arrancar o barco não pegou. Já não havia bateria, não havia chaves para trocar. O nosso comissário tentou pedir ajuda a outro barco, mas não havia cabos… Mas o nosso comissário era impecável. Eu passei-lhe um alicate, desligámos e montámos outra bateria. Arrancou, trabalhou até meio do lago e parou outra vez… Com sorte lá voltou a pegar e chegámos a tempo. Eu fiz um telefonema a dizer que precisava de pesar o peixe grande, porque não cabia no viveiro e pesámos logo… Correu tudo bem depois do susto.

HR: O segundo dia foi problemático…

JM: Tivemos azares durante todo o dia com o barco, perdemos muito tempo. Houve trocas de motores, enfim. Quando chegámos ao local, os peixes já não estavam tão disponíveis para os cranks porque andavam 27 equipas na mesma zona. Havia alturas em que estávamos a pescar a cinco metros uns dos outros, só nos dividiam as árvores que nem nos deixavam ver.

HR: Então foi necessário afinar o padrão…

JM: Sim. Continuámos a pescar curto, mas mais com os iscos de plástico mole, dentro das coberturas…

HR: … Tentaram jigs?

JM: Experimentámos nos dias de treino, mas exigia-nos mais atenção para evitar os enganches. Optámos pelos senkos com bala de 14 gramas travada. Começámos logo a capturar e o João deu conta que os peixes respondiam melhor quanto mais lento era o movimento da amostra. Então, lançávamos, mexíamos pouco a amostra e quando se sentia um peso estranho era só ferrar. Reparámos que muitos dos outros pescadores, ali por perto, animavam demasiado rápido as amostras e capturavam peixes mais pequenos.

HR: O pessoal gosta de saber. Que cores usaram mais?

JM: As cores mais usadas foram o watermelon e o watermelon/red. Eu também levei umas Zoom Ultravibe Magnum, mas eles lá achavam que os senkos é que davam mais e nós tivemos de nos adaptar. Também nos deram outra dica: que os peixes de lá gostavam particularmente de uma alteração. Eu levei um frasco de líquido chartreause, que tu me ofereceste aqui há uns anos, que também cheiro a alho, e aquilo era cheiro a alho pelo barco todo, porque eu preparava as amostras durante os períodos de descanso. Punhamos as pontinhas todas chartreause… Como levámos pouco material, o João também tinha uns mais pequenos, de cinco polegadas, em cor junegug… Molhava a pontinha no líquido e também apanhavam. Não sei se foi isso que fez a diferença… Mas usámos sempre…

HR: Estávamos a falar do segundo dia…

JM: Sim. Eu achei que os peixes poderiam estar noutro tipo de arbusto, mais do tipo das giestas mas cheios de picos, parecidos com aquela planta com que fizeram a «coroa de Cristo». Eram uns arbustos muito fechados…

HR: … Do género dos carrasqueiros do Alqueva?

JM: Sim. Do tipo. Apanhámos aí os peixes maiores, e o resto dos pescadores, das outras seleções, achavam que eles estavam só nas árvores…

HR: Nesse dia vocês consolidam a liderança por duplas e a nossa seleção sobe ao topo por nações, com uma bela ajuda da dupla Silvestre/Sérgio que fizeram um quarto lugar e com a regularidade habitual do Dica e do Casimiro. Conta-me como foi o último dia.

JM: O terceiro dia foi muito complicado para nós. Íamos sair no último voo. O nosso barco estava avariado. Faltavam cinco minutos para a largada e ainda não tínhamos barco. Lá vieram com outro barco à pressa, em mau estado também… Sem sonda e com outro comissário, embora o nosso habitual estivesse preparado para ir connosco… O Novo comissário gostava de andar devagar, chegámos dez minutos depois ao local de pesca. Todos os outros iam com os motores a fundo e o nosso ia a meio gás ou nem isso… Tive de lhe chamar à atenção porque nos queria levar para outro sítio. Tive de lhe mostrar o ponto no GPS. Ele disse que pescava ali há 25 anos e eu respondi-lhe: «Pescas aqui há 25 anos mas é para aqui que que quero ir!» Lá acabou por fazer o que lhe disse e começámos logo a apanhar peixe…

HR: Sentiste que algo estava errado…

JM: Sentia-se um bocado da pressão por parte do México que queria vencer… Parecia que se os comissários pudessem ajudar… Mas pode ser só impressão. Acabou por correr bem… As nossas duas outras duplas fizeram o limite cedo e nós demorámos mais.A dada altura, o nosso comissário dizia: «Quem pescou, pescou, quem não pescou já não pesca mais». Mas nós acabámos por fazer o nosso quinto peixe já passava do meio-dia. Disse sempre que tínhamos de ter calma e fomos pescando devagar… Acabámos por trocar os peixes quase todos… O João fez um peixe com mais de três quilos…

HR: … Pescou-se sempre muito peixe, não foi?

JM: Sim. Pescámos muitos exemplares. O João com aquele peixe colocou-nos bem, depois eu troquei mais dois e tínhamos já uma boa pesca, mas estávamos com receio que nos morressem peixes. Começámos a sair do matagal e fomos pescando mais peixes noutros locais. A cerca de 20 minutos do fim tínhamos um peixe a morrer e eu acabei por trocá-lo por outro e decidimos ir pesar, porque tínhamos mais de nove quilos e não podíamos correr riscos…

HR: Já percebi que foi uma prova com muita estratégia envolvida…

JM: Claro, com as pesagens abertas é sempre muito importante saber o que fazer. Acabei por dizer ao João: «Temos mais de nove quilos, temos mais peixe que os nossos colegas de seleção. O que importa é a seleção. Vamos pesar antes que morra mais algum»… E assim fizemos!

João Grosso, o comissário e Joaquim Moio com o grande exemplar

João Grosso, o comissário e Joaquim Moio com o grande exemplar

O resto já é história! Esta dupla atingiu o topo mundial. Já têm todos os lugares do pódio em mundiais e são os únicos… Já foram duas vezes campeões do mundo por nações… Portugal está no topo, sendo a única nação com ouro em três mundiais da disciplina. É obra! Em dez edições, nós vencemos três! Estamos todos de parabéns!

Podem ver as tabelas dos resultados aqui.

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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