Portugal vence pela quarta vez

Parece tudo fácil… O Mundial é em Portugal, logo, Portugal vence… Parece que nem há outra hipótese, mas, nem sempre foi assim e, além disso, esta deve ter sido a vitória mais tangencial de todos os Mundiais organizados pela Federação Internacional de Pesca Desportiva-água doce (FIPS-ed). Na verdade, de quatro mundiais no nosso país, vencemos três e, logo no segundo, ficámos em segundo lugar, tendo então vencido a Itália.

As coisas mudaram muito desde que se iniciaram este tipo de provas. O fator casa tem sido preponderante para Portugal, que como referimos organizou agora esta décima segunda edição, sendo o país com mais organizações. Organizámos o arranque em 2005 e depois, em virtude dos Jogos Mundiais da Pesca, em 2006; depois voltámos a organizar em 2010 e agora. Portugal é também o país que mais vezes organizou estes mundiais, tendo dado início a todo o processo de implementação deste tipo de provas dentro da FIPS-ed e sob a alçada da Confederação Internacional de Pesca Desportiva (CIPS), com a organização da Taça do Mundo, que decorreu em Dezembro de 2003, na barragem do Cabril. Refira-se que Portugal também venceu esse evento.

Não me vou debruçar muito sobre a pesca neste momento. Deixo isso para outra prosa que será publicada em breve neste mesmo local.

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Os números

Hoje interessa-me apenas analisar algumas estatísticas para mostrar que, hoje em dia, dominamos a cena da pesca do achigã a partir de embarcação, no seio da FIPS-ed, de uma forma global, quero dizer, a pescar e a organizar.

Vejamos um resumo sobre vitórias em casa por nações:

Portugal: 4 organizações e 4 vitórias, 3 em casa e uma no México (El Salto, 2014)

Espanha: 2 organizações e 1 vitória em casa (Caspe, 2007)

Itália: 3 organizações e 3 vitórias, 2 em casa (Bolsena, 2011 e 2015), uma em Portugal (2006)

México: 2 organizações e não tem vitórias por nações

Venezuela: 1 organização e 1 vitória em casa (Caruachi, 2012)

Como se vê, em doze organizações, em sete venceu a equipa da casa, o que demonstra uma ligeira vantagem das vitórias caseiras. Em cinco edições os organizadores não conseguiram vencer em casa. Por outro lado, o único país que venceu sempre em casa, a Venezuela, apenas organizou uma vez.

Com mais que uma organização, destaca-se Portugal que venceu 75% das vezes, a Itália 66% e a Espanha 50%, o México nunca venceu, nem em casa nem fora.

Os restantes países com vitórias são: a Rússia, com duas vitórias (em Itália, Lado di Garda, 2008 e em Espanha, Embalse ded Breña, 2013) e os EUA (no México, Lake Cuchillo, 2009).

As organizações

Para que estas embarcações participem num Mundial destes há uma máquina organizadora que trabalha incansavelmente

Para que estas embarcações participem num Mundial destes há uma máquina organizadora que trabalha incansavelmente

O trabalho desenvolvido pela Federação Portuguesa de Pesca Desportiva (FPPD) tem sido, neste caso das organizações destes mundiais, imune às tendências internas que, ora quer o achigã ora o maltrata, as suas disciplinas, bem entendido, e os praticantes por arrasto. Felizmente houve visão no arranque, desde que se implementou o Campeonato Nacional, em 2001. Felizmente, também, que quem quase arruinou estas disciplinas no seio da FPPD está fora e não conseguiu de todo os seus intentos. Acabaram com a área de achigã, acabaram com um estatuto que era, para os pescadores, bastante importante, mas o tempo encarregou-se de os colocar no seu justo lugar e parece – sim, pelo menos parece – que esta direcção quer voltar a dar essa dignidade às referidas disciplinas. Nos intervalos deste sobe e desce, normal em federações desportivas com menor volume de dinheiro envolvido, estes mundiais têm passado quase incólumes, embora com algumas «pedrinhas na engrenagem», aqui e ali. Posso referir que por um euro por jantar, no mundial de 2010, se comeu mal quase todos os dias… Mas enfim, para o que podia correr mal, isso foi uma gota de água… Nem vale a pena dar mais exemplos, porque poderia ter sido bem pior… Fiquemos então pelos números.

Os participantes e os resultados

Portugal é campeão pela quarta vez e é o primeiro país a conseguir tal marca. Portugal organiza pela quarta vez e não envergonha, embora se possa sempre melhorar, as nossas organizações têm sido, não digo exemplares, mas posso afirmar que são das melhores.

Estiveram presentes dez países… Refira-se a falta da Rússia, que é uma novidade. Mas também o regresso da França e da África do Sul, que poucas vezes têm participado. Estiveram ainda Espanha, Itália, México, Roménia, Swazilândia e Venezuela.

Vencemos com três pontos de vantagem sobre precisamente a África do Sul que se adaptou muitíssimo bem e liderou mesmo o primeiro dia de prova, embora empatado com Portugal a 18 pontos. O México conseguiu o terceiro lugar e a vitória por duplas.

As homenagens…

E agora, mesmo sem falar de pesca, quero fazer uma justa homenagem à nossa seleção. Ela é conhecida, pode ser consultada no site da FPPD, embora o selecionador tenha mudado. Nem vou referir os nomes dos pescadores, apenas dizer que todos, mesmo todos, desde os que pescaram aos suplentes, fizeram um trabalho excepcional e digno em prol de um título colectivo que, por norma, se torna difícil em casa, devido às vaidades… Normalmente, e até se compreende, no seu país todos querem ser campeões por duplas, sendo esse o fator que mais títulos colectivos tem custado a outros países (nós sofremos um pouco do mesmo em 2006… Mas isso é uma outra história e bem velha já). Pois bem, já em 2010 se trabalhou muito bem em grupo, embora tenhamos conseguido um lugar no pódio, uma medalha de bronze e um quarto lugar, tal como agora também… De facto há algumas semelhanças entre estes dois eventos. Vencemos os dois, foram os dois na mesma barragem, aliás, foram todos os mundiais organizados em Portugal. E, o mais importante que tudo o resto, houve um espírito de união na seleção que esteve acima de qualquer desejo individualista.

A nossa seleção em celebração animada com o presidente da ARBAPD, à esquerda, atrás dele o vice da área de água doce da FPPD e, a meio, o presiente, na sua terceira organização deste tipo

A nossa seleção em celebração animada com o presidente da ARBAPD, à esquerda, atrás dele o vice da área de água doce da FPPD e, a meio, o presiente, na sua terceira organização deste tipo

O selecionador, Silvestre Pinto, além de um amigo pessoal é um excelente pescador. Duas vezes campeão do mundo por nações, muito conhecedor dos meandros da pesca desportiva de água doce e também um homem de negócios. Soma agora um título como selecionador, o que lhe dá o prestígio de ser o único com tal palmarés. Espero que consiga levantar esta disciplina no seio da nova direcção da FPPD, que lhe fez essa promessa no momento do convite.

Em resumo. A nossa selecção esteve bem porque tinha os melhores do mundo em ação, neste tipo de provas. É o que fica demonstrado!

Ficaria mal não deixar uma palavra à organização. Vi a direcção da FPPD empenhada, e apenas vi algumas fotos e vídeos. Lá estava o meu amigo Carlos Batista, atual presidente (recordemos que também era presidente nos primeiros dois mundiais); o vice da área de água doce, o meu amigo Bruno Valente; próprio selecionador, que era também responsável pela organização. Gostei de ver como se mostravam satisfeitos com o resultado e com a nossa prestação. Mas, o trabalho de base, o trabalho local, esse é mérito da Associação Regional do Baixo Alentejo de Pesca Desportiva (ARBAPD), que já é veterana nestes eventos. Os meus amigos Manuel Ranholas e Miguel Eusébio encabeçam esta Associação Regional da FPPD e merecem uma palavra de agradecimento pelo empenho.

Portugal está de parabéns e a pesca do achigã também… Vamos ver se os senhores do ICNF não matam este desporto!

Herminio Rodrigues

Hermínio Rodrigues é um pescador que se tem dedicado muito à formação de pescadores de várias formas: através dos dois livros que publicou e de muitos artigos que publicou e que publica ainda sempre que pode. Faz ainda palestras, demonstrações e ações de formação para pescadores e visita escolas que o convidam para introduzir os mais novos na pesca desportiva, especialmente de achigã.

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