Este artigo é a continuação deste.
Estruturas
O profissional americano Larry Nixon, interrogado sobre que zonas procurava quando queria pescar achigãs, respondeu: «Procuro locais de águas baixas perto de zonas de águas fundas.» É sabido que o achigã executa deslocações a zonas de menor profundidade quando procura alimento, mas se puder manter-se perto de profundidades superiores isso dá-lhe segurança. Sente-se mais a vontade quando próximo de zonas mais fundas, para onde possa escapar-se a qualquer sinal de perigo. Estamos já a entrar no campo das estruturas.
Estes conceitos são de uma importância extrema para quem gosta de aplicar técnicas correctas e não se limita a bater margens seguidamente sem qualquer preocupação.
É um erro corrente que muitos cometem por vários motivos:
1) Por desconhecerem de todo a massa de água em que pescam;
2) Por não terem mapas dos fundos das nossas albufeiras;
3) Pelo desconhecimento puro e simples da importância destes elementos;
4) Por não terem ou não saberem usar as sondas electrónicas.
Bater uma margem pode dar-nos boas pescarias em casos especiais, mas todos devem saber o que estão a fazer e porquê.

A orografia das margens e a sua conexão com coberturas deve ser conhecida para sabermos o que fazer quando pescamos
As margens podem ser baixas ou ter abruptas quedas, e é possível pescar em ambos os casos desde que se reúnam determinadas condições. Estou a lembrar-me da época da desova, em que não podemos pescar, Porem, se encontrarmos uma margem com um ligeiro declive, isto é, que se prolongue pela água dentro sem bruscas alterações ate um a dois metros de profundidade, deveremos, mesmo no período anterior a desova (entre fins de fevereiro e meados de março), procurar aí os peixes, e essa seria uma margem a pescar intensivamente.
Há outros exemplos de margens que compensarão sempre um esforço; por exemplo, as que afundam a pique e que muitas vezes têm degraus e até algumas coberturas associadas. Mas mesmo longe da margem, em determinadas condições, podem fazer-se boas pescarias em zonas em que se verifiquem as tais diferenças de relevo no fundo da massa de água.
Conhecer uma barragem nos anos de seca e uma vantagem de que se pode tirar partido. Os mapas dos fundos das albufeiras portuguesas não são actualizados e colocados a disposição do público e, como tal, o conhecimento dos fundos só pode ter origem em três fontes. A primeira, e o conhecimento da zona onde posteriormente se constrói uma barragem.
A segunda, infelizmente cada vez menos rara, e a observação dos fundos quando as nossas albufeiras quase secam. A terceira consiste em servirmo-nos de uma sonda electrónica, que nos dará indicações preciosas sobre os fundos.
Claro que em água aberta também se pode pescar, não nos podemos resumir as margens. Desde que haja conhecimento de uma estrutura submersa, aliada ou não a coberturas. Quando esta junção, entre estrutura e cobertura, acontece, as hipóteses aumentam.
As estruturas que mais frequentemente encontramos, para além dos contornos visíveis das margens, são: cabeços; canais de ribeiras, drop-offs; bicos e os seus prolongamentos submersos. Estas estruturas interessam-nos se estiverem até aos doze metros de profundidade, daí para baixo, só eventualmente em águas cristalinas têm interesse, mas vamo-nos cingir a generalidade dos doze metros para simplificar a exposição.
Os cabeços são elevações no fundo de uma barragem. Agrupam achigãs por constituírem alterações bruscas e excelentes locais de emboscada e por darem segurança a espécie. Há-os com várias formas e isso pode determinar, juntamente com a profundidade a que se encontram, a forma como os achigãs se relacionam com eles e, consequentemente, a forma como os deveremos abordar na perspectiva da pesca.
Caso se trate de um cabeço a reduzida profundidade, entre um e dois metros, será de ter sempre em atenção o lado de incidência da luz do sol. Apesar de hoje sabermos que o achigã pode perfeitamente vaguear em zonas sob intensa radiação solar, sem que isso o prejudique fisicamente, o certo é que, do ponto de vista do predador que está emboscado, a sombra é um grande trunfo a seu favor, porque permite uma visão mais clara, mesmo para a zona exposta ao sol. Assim temos sempre toda a vantagem em pescar apresentando as amostras do sol para a sombra e de aplicar toda a nossa concentração quando o isco entra no local de sombra. Se conseguirmos determinar correctamente a posição do cabeço, como acontece quando já o vimos a seco, deveremos apresentar a amostra desde a parte de cima e tentar fazê-la atingir os lados, especialmente o que estiver a sombra, se a houver.
Em dias de céu encoberto e em profundidades superiores aos três metros, os peixes podem estar em qualquer dos lados e, se estiverem activos, podem espalhar-se por uma área mais vasta em redor do cabeço, mas não é caso para preocupações com a localização, porque também se deslocam ao encontro de um isco com facilidade e rapidez.


